Todo apego é insano!

Deixa-me explicar melhor. Aqui quero acessar várias formas de apego. Estão aqui aquelas pequenas ou grandes coisas que nos apegamos, cuja mente nos trai como simples preferências e começa por acontecimentos corriqueiros do nosso dia a dia. É o apego a banca de jornais da esquina (kiosco em Portugal), aquela que passamos todos os dias e paramos para olhar os montes de apelações visuais que faz a nossa mente saltitar meio eufórica por percorrer os olhos em tudo.

É a sorveteria (gelateria) de costume, na busca do sabor preferido, daquela casquinha crocante, e assim para alimentar o nosso doce hábito de sempre. Aquele cineminha na poltrona de sempre e que nos faz sentir em casa sem promessa de adeus. Aquela padaria de costume, do pão quentinho – branquinho ou mais torradinho (vai depender da preferência) e tudo isso sem esgotar a vasta lista que contempla o nossos tantos apegos.

Fazemos isso com tantas coisas que não nos damos conta do por que as fazemos, sobre o manto de serem meras predileções. E há algum mal nisso?

Talvez sim, talvez não! Mas o estranho em tudo isso é perceber que aí pode residir uma certa dificuldade em acessar o desapego.

O apego é também meu, é seu, é de muita gente que anda circulando nesse vasto mundo por aí – é coisa de gente, é coisa do bicho homem, é coisa de quem é “grande”.

Desenvolvemos esses apegos com coisas quase como manias, e se isso passar apenas pelas coisas – menos mal, mas e quando tudo isso atinge os sentimentos das nossas vidas e as pessoas? E aqui podemos pensar em outro tipo de “apego”, aquele que nos faz, aos poucos, ser como ostras – fechados, sem nos dar conta do quão lindo seria se mais vezes permitissemos a pérola vir á tona. O apego por crenças que criamos em nós mesmos e não sabemos sequer a razão.

Tudo isso me fez pensar num amigo que encontrei algunas anos atrás, em um café, num daqueles dias de muito frio que nos pomos a refletir mais sobre vida e filosofar sobre ela… Recordo-me quando ele disse que estava apegado ás suas crenças – naquele momento a idéia de ficar sozinho, de não dividir o espaço sagrado da sua casa, pois acreditava que deveria ser apenas seu. Não queria meias sujas espalhadas pelo cesto do banheiro, que não as suas. Não queria outros livros na mesinha de cabeceira que não os seus. Não queria alguém esperando por ele, senão ele mesmo. Sim, ele estava apegado ao limite do seu espaço que queria fosse apenas seu, mas ao mesmo tempo residia na “fala” dele um desejo latente de ser mais que um, de transpor a barreira do seu próprio isolamento e permitir a entrade de outro ser no seu espaço!

Como se não bastasse essa minha memória, ainda outro dia me deparei novamente com essa “fala”; percebi nela que por vezes estamos num bloqueio quase esquizofrênico – um apego humano de estar só, apesar do querer ser coletivo. Um grande paradoxo que nos propomos, uma dessas coisas que o ser homem cria e nem ele mesmo sabe o significado.

Rememoro aqui a frase de Oscar Wilde: “o caminho dos paradoxos é o caminho da verdade”. Penso eu que talvez um dia, quem sabe, se viermos a descobrir a razão de tantos paradoxos, possamos encontrar a verdade escondida nos tais apegos e exercitar melhor o desapego, o desprendimento de coisas e crenças, de passados e de lembranças escondidas.

As oportunidades passam muito rapidamente, mesmo para uma vida bem vivida, e nesse correr do tempo, da fugacidade de cada dia, diante de tantas coisas que temos que fazer por mera obrigação, pois, inevitavelmente, essas coisas fazem parte do nosso dia a dia, perdemos o significado plural das coisas e vamos ao singular, perdemo-nos em devaneios que a própria mente cria como senso de proteção e acreditamos muitas vezes ser a nossa melhor verdade e ficamos apegados a elas.

Será apego por proteção? Protegemo-nos do que? Será que alguém consegue responder?

O homem torna-se refém de suas próprias “covardias”, refém dos seus apegos, da inutilidade que eles possuem, e assim vai seguindo certo das suas próprias incertezas, dominado pelo inconsciente coletivo de ser só quando na outra medida da sua humanidade tudo clama e quer pelo ser COLETIVO.

Quero a coletividade contida no simples passeio de mãos dadas, o ar gostoso de um passeio pelas novas possibilidades que o outro me traz, sentir que olhar para esse espelho significa relacionar-se. Quero o desapego da solidão, desse estar só.

Quero pensar nas possibilidades novas de cada dia, banindo apegos, sem, contudo, abandonar a experiência dos momentos passados e superados. Abrir uma nova janela significa abrir espaço para contemplar novas paisagens, abandonando comportamentos passados em prol do novo, que nos é ofertado pela vida.

Em exercício dos apegos as nossas crenças individuais nos desumanizamos, passamos a condição pré-histórica dos homens que viviam sozinhos em suas cavernas e esquecemos de cuidar do “jardim coletivo” que habita as inúmeras possibilidades do ser e que inclui o outro. Pensar no apego implica abrir as possibilidades para o desapego – de crenças,conceitos, passado, remanescentes outros que nos impede de seguir adiante.

Desejo que essa “insanidade coletiva” seja pouco duradoura e que, trazendo o que há de humano em nós, possamos encontrar as nossas melhores possibilidades, banindo o apego da mente, crescendo e caminhando sempre para adiante e para melhor…

P.S.: essa reflexão desprentensiosa eu deixo como dedicatória a Aline, minha amiga, grande incentivadora da minha escrita criativa e que há meses clamava por algumas palavrinhas minhas aqui no blog.

Anúncios

4POR4 – DEBORA COLKER

Abril 6, 2010

Talvez essa seja a maneira mais ativa que tenha encontrado para retornar a minha escrita aqui no blog, pois a vida é assim mesmo, como tantas vezes ouvimos dizer – “a vida é como uma gangorra”.

Por certo, horas ela nos apresenta inspiração, horas quase nenhuma, horas exalando felicidade e horas a procura de uma. E não é assim que vão os nossos dias? Todos exercitando a tal humanidade, buscando o melhor, acertar, ser feliz e viver ao sabor da tal felicidade, que completa, que preenche e ocupa as arestas do ser.

Assim, realizando aqui o meu retorno a escrita criativa, depois de um longo período de “férias”, que foi além das minhas próprias férias, eu pego carona no mês intitulado como “da mulher” com data estabelecida no 08 de março, festejado como dia internacional da mulher e venho falar do espetáculo – 4 POR 4, que aconteceu no último domingo no TCA, produzido, obviamente, por uma grande mulher, a coreografa brasileira DÉBORAH COLKER, aquela que dentre tantas outras facetas, as quais citaremos logo abaixo, em 2009 criou e dirigiu o novo espetáculo do Cirque Du Soleil.

A sua marca registrada é a diversidade, superação dos obstáculos e movimentos do corpo, traço comprovado nas suas escolhas, pois cursou Psicologia, foi jogadora de vôlei e estudou piano durante dez anos. A partir de 1980, dançou, coreografou e deu aulas durante oito anos no grupo Coringa, sob a direção de Graciela Figueroa.

Em 1984, convidada por Dina Sfat para coreografar os movimentos da peça “A Irresistível Aventura”, com direção de Domingos de Oliveira, Deborah deu início ao que seria a vertente mais importante de sua carreira nos dez anos seguintes: diretora de movimento, uma expressão sugerida por Ulisses Cruz para definir seu trabalho. Como diretora de movimento, trabalhou com os principais diretores e atores do país em espetáculos como “Escola de Bufões” de Moacyr Góes, “Macbeth” de Ulysses Cruz com Antônio Fagundes, “Sonhos de Uma Noite de Verão” de Werner Herzog, “A Serpente” de Antônio Abujamra e “Uma Noite na Lua” de João Falcão com Marco Nanini.

O momento de fundar a Companhia de Dança Deborah Colker chegou em 1994, quando Monique Gardemberg assistiu a uma performance de seus alunos no Panorama da Dança RJ.

Em 1993, nasce nos salões do clube Casa do Minho, no Rio de Janeiro, onde Deborah dava aulas, o embrião do que seria a Companhia de Dança Deborah Colker, entrando em cena no projeto O Globo em Movimento no qual a Companhia estreou em 1994 no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em programa duplo com o Grupo Momix.

Em 1995, devido à repercussão de seu trabalho, a Companhia conquistou o patrocínio exclusivo da Petrobrás, o que lhe tem possibilitado alçar grandes vôos e se firmar no panorama da dança mundial. Nesse espaço de tempo, a companhia se apresentou no Reino Unido, França, Alemanha, Áustria, Chile, Colômbia, Portugal, Argentina, Canadá, Estados Unidos, Holanda, Cingapura, Nova Zelândia, Macau, Irlanda, Japão e Uruguai, conquistando os muitos prêmios, dentre eles citamos o Prêmio Ministério da Cultura com Troféu Mambembe de 1997 – Rota e Laurence Olivier Awards – 2001 (Grã-Bretanha) Coreografia do espetáculo – MIX.

E é com toda essa bagagem cultural e artística que sentimos a maturidade da Deborah Colker, exposta no espetáculo 4POR4 e a sensação que permanece, e que partilho aqui com vocês, é de um riso nos lábios e o corpo em festa, pois assim é a dança, poderosa na sua arte de comunicar e a prova viva dessa comunicação é o espetáculo 4POR4 – comunicar nas nossas mentes as inúmeras possibilidades do corpo que interage com a arte!

Expressões do corpo que refletem o interior; movimentos perfeitos em harmonia com obras de arte que fazem parte do cenário e criam uma sintonia tal com o corpo que é impossível não emocionar. Obras de artistas plásticos brasileiros de diferentes épocas e focos são transformadas em danças: “Cantos”, baseado em Cildo Meireles; “Mesa”, em Chelpa Ferro; “Povinho” em Victor Arruda; e “Vasos”, em Gringo Cardia, e como se não bastasse a música é outra alta surpresa do espetáculo, que traz Deborah Colker ao piano interpretando uma sonata de Mozart para quatro bailarinas que dançam na abertura de “Vasos” a coreografia intitulada “As meninas”.

4POR4 é um presente que deveria ser oferecido a todos os brasileiros, aqueles que entendem das artes ou não (afinal o que seria entendê-la?) aqueles que gostam de um espetáculo de dança ou não, aquele que é negro, pardo, branco, mulato, rico ou pobre, culto ou inculto – não importa! Como disse Oscar Wilde “A arte é a forma mais intensa de individualismo que o mundo conhece”.

Celebremos a dança como a mais pura forma de arte e celebremos essa brasileira que faz bonito aqui e em qualquer parte do mundo, levando a nossa nacionalidade aos patamares que sempre almejamos – ao alto!

Criança perdida

Tomado por um clamor de retorno a criança o adulto saudoso se põe a indagar: como posso retornar ao meu tempo de criança?

Hoje é momento de tempos corridos, tempos materiais, tempo de espera, tempo do compro porque quero, só não sei até quando, mas quero, seja porque o lançamento já foi anunciado na Internet, seja porque o meu vizinho já tem um.

Meu amigo me telefonou ontem avisando “você viu o novo modelo que foi lançado? Já pode consultar na Internet porque tá disponível em primeira mão…” Em tempos de crise, de plena turbulência na economia, bolsas despencando, aquecimento global, o adulto tem muito a almejar – decidir o que comprar e como o seu bolso pode sustentar os tantos brinquedos de luxo que circula no mercado de capitais. Salvamos Karl Marx de viver nesses nossos tempos tão “modernos”!!

Perde-se a prosa de viver, as relações do “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite”, “como tem passado?” – para onde foram todas essas expressões? O tempo vai sendo computado no relógio, as horas vão se perdendo em fração de segundos, me recolho muito após a meia noite e parece que não descansei – nasce-me um novo dia e parece que nem dei por ele!

É possível ser adulto e vibrar desejosamente por coisas e pessoas como uma criança? Não estou tão distante dela. Desejo tantas coisas, quero o que o dinheiro pode comprar nesse momento da apelação visual, olho e não vejo. O que faço para deixar de querer?

Preciso exercitar a minha criança, vamos, vamos lá! Quero o meu ar maroto, quero desejar o sorvete da esquina de tal forma a esquecer o troco.

Quero exercitar a criança perdida, lembrar que estou mais vivo e seguir sem pressa. Quero me deliciar com o algodão doce e colorido, girar no carrosel da vida sentindo o vento leve que lambe o meu rosto sem avisar, assanha meu cabelo e me paralisa para contemplar a pipa que corre no céu azul de primavera.

Menino, menino, anda cá, vamos correr sem parar? Olha aquela andorinha, ela vem na nossa direção, sem fazer curvas, ela vai pausar na sua, na minha, na nossa mão!

O meu adulto clama por tantas respostas. É verdade, a criança também, com a nobre diferença que a ansiedade infantil, quase pueril, tem pressa porque quer ir brincar lá fora e os adultos têm pressa porque sabem que o tempo traga as possibilidades da plenitude do fazer, do arriscar-se, do não ocultar-se.

Criança dá a cara á tapa, não tem medo e nem vergonha da resposta. Não precisa ser quem não é – existir é uma festa no seu mundo de fantasias, aquele que a mente – limpa, quase que como uma folha de papel em branco, vai pintando, a cada dia, de todas as cores que se vê ao longe no arco-irís que risca o céu de abril.

É, ser adulto dá uma canseira danada, e como diria Guimarães Rosa, “nonada”, vamos simplificar a ciranda da vida e entrar na ciranda do riso, de tudo aquilo que o dinheiro não pode comprar, vamos nos embalar numa alvorada de emoções, sentir as coisas simples da vida, correr para tomar aquele sorvete no fim de tarde sem qualquer culpa, rir de nós mesmos, rir das “loucuras” do mundo, das nossas próprias, descobrir que tem tantas coisas que nem precisamos, mas lotamos os armários, ocupando todos os espaços com a inequivoca sensação de que precisamos permanecer na moda.

Vamos ser livres, soltos como as crianças, porque a inocência de outrora permanece em nós, ainda que escondida, ainda que pareça perdida.

Dá uma olhada para os lados, para baixo, para cima e encontra a tua criança. Ela não se perdeu, ela apenas anda meio que de férias, meio que distraída, esperando ser convocada de novo para, apenas com um empurrãozinho teu, voltar a funcionar – vamos, anda lá! E quem sabe nesse frenesi possa ir assistir “Tá Chovendo Hamburger”, uma oportunidade para convocar a sua criança para entrar em festa, leve como uma pena que gira pelo ar, descomprometida, sem esperar qualquer resposta.

A INQUIETUDE DA ALMA

Agosto 19, 2009

Inquietude da Alma

Ilusões, terras frias, momentos distantes,
A alma vaga pelo querer e o talvez
Enquanto isso o mundo gira como criança em dia de festa
e vamos perdendo a inocência.

Particularidades do ser, envoltos estamos todos,
na busca por respostas – qual a razão dessa existência?
Essa, que nos faz perder tantas vezes, que nos tira do prumo.
Divagando em pensamentos, em busca de um rumo.

A alma é quase fria, vai-se perdendo a poesia
O tom é de passagem, o toque é sutil, tão breve
A mente a dar voltas procurando a sua razão
Mas para que saber se nos perdemos na própria ilusão?

Estabelecemos um contato entre o que sentimos e o que é certo
E o coração não cala na sua linguagem crua, alma nua
Queria poder dizer que não sou tua
Mas o sentimento tem voz própria, e tanto e quanto, ele tem razão.

A inquietude persiste, não cala, ela sempre fala,
Quando o tempo é o presente, ainda que não seja suficiente para
serenar, envolvo-me em sim e em talvez, perdendo-me na mesma
pequenez quando a alma me diz que é preciso calar…

Um dia chego lá, um dia encontro o rumo e tomo o prumo
Esse dia é perto porque encontro a coragem
E ainda que as vistas ao prazer atrase a caminhada
Não importa – certa é a chegada!

Neste mês de Julho, a edição n.º 34 do jornal Letras do Brasil inclui uma entrevista à Andréa Menezes sobre o nosso caro “Taxicidade”.

Leia o jornal e a entrevista aqui.

A ALMA IMORAL

Junho 29, 2009

Um monólogo teatral em cartaz há quase três anos; em São Paulo no teatro Eva Herz, na Livraria Cultura, dirigido por Amir Haddad, vista por mais de 75.000 pessoas, cuja a atriz e dramaturga Clarice Niskier foi vencedora do prêmio Shell e apresenta ao público o seu olhar diante da obra do rabino Nilton Bonder – “A Alma Imoral”.

Os questionamentos e impressões da atriz ao ler o livro, logo nos primeiros minutos de peça,  são expostos no palco numa espécie de conversa introdutória com o seu público, e como ela mesma diz, o texto pode ser visto como a leitura dos ensinamentos cabalísticos de uma “judia budista” do século XXI, que na maior parte do tempo permanece no palco nua, despida, mas não damos por isso, pois, literalmente, a nudez aparece no corpo como expressão da alma, numa interpretação, digamos, acima de tudo simples, dentro de toda complexidade que o tema pontua.

Contrariando um amigo intelectual, que chegou a me dizer que não passava de um tema de auto-ajuda – e nada contra temas de auto-ajuda,  deixo por aqui o meu registro do quanto a ALMA IMORAL foi muito além da auto-ajuda e movimentou algo em mim, tanto e tanto que indico para  todos  – vejam a Alma Imoral!!!

Por certo o tema não é algo tão novo, mas vale um olhar mais curioso para ela, uma oportunidade de olharmos mais para dentro de nós mesmos (algo que vai se tornando cada vez mais raro nos dias turbulentos do nosso cotidiano) trazendo a tona um olhar mais compassivo para com a vida e como a vivemos, questionando-a, e entre os designios do corpo e os da alma – qual dos dois nos cabe escolher?

O roteiro é baseado em conceitos bíblicos e filosóficos, instigante em diversos conceitos como “tradição” e “traição”, que segundo encontramos expresso na obra, “são duas palavras de escrita e fonética tão semelhantes em nossa língua quanto o são interligadas em seu significado mais profundo”. Nem sempre o certo é exatamente o certo e o errado é exatamente o errado, o certo pode ser o errado e o errado pode ser o certo – o elo de ligação estará na forma e necessidade do seu sujeito, do quanto persegue, seja em seu corpo ou em sua alma, ou em ambos, e, muitas vezes, não carecemos fazer uma opção.

A finitude da vida é o questionamento que aparece e desaparece a todo momento do seu contexto, é um modo que nos faz  refletir, conflituar, indagar : o quanto fariamos ou não se essa finitude não nos fosse perene?

A filosofia segue os seus meadros, o homem em pleno questionamento, sempre em busca de respostas, talvez as questões sejam bem mais simples do pareçam ser, talvez essas respostas estejam unicamente no clamor de uma vida de alma, a que nos diz o que é bom e que vai além da moral ditada pelo corpo. A uninamidade como a “acomodação da verdade absoluta”,  os dogmas, as convenções, opinião pública, moralidade e tradições, aspectos que em muitos momentos podem querer representar uma “unanimidade” que nos “desqualifica como determinadores do que é justo, saudável ou construtivo“.

Na necessidade de mortais que somos, seguimos os caminhos traçados pelo que deve ser moral, pelo que esperam da nossa moralidade, sem muito questionar o que a alma espera de nós;  em meio a tudo isso esbarramos na ética, conceito vasto e profundo, mas que deveria ser o único a oferecer os paramêtros, no mais, o que não estiver dentro disso é ditado pelo bom da alma, pelo que ela clama e que muitas vezes deixamos , mediocremente, escondido em prol sabe-se lá do que e de quem, mas seguimos nos sentindo justos, enquadrados com o que a sociedade espera de nós e, talvez, bem distante do que nós esperamos de nós mesmos.

Parábolas são contadas ao longo da peça e questionadas ao público, questionamentos com e sem respostas. O paraíso de Adão e Eva e o encontro com a serpente é posto ao olhar de todos, expondo o pecado original como um pecado da alma e não do corpo, assim como o Tratado de Sanhedrin, que trata de casos de julgamento de penas capitais, o sentido de tal lei. A posição do traidor e do traído. Quais os reflexos de tudo isso na alma que clama por respostas?

Não digo mais, apenas que vale a pena assistir a Alma Imoral, prestar a sua alma a homenagem de estar, ao menos pelo tempo em que a peça é encenada, com a alma em suspenso, olhando um pouco mais de perto para o ser moral, dentro de toda a “imoralidade” e clamores da alma – vejam!

Se posso escolher aqui uma parte da obra que pode falar diante da curiosidade que pretendi plantar em vós, deixo-vos essa:

Entre uma moral e outra o ser humano volta a se despir e, desperto, se recorda da sua alma. A esse despertar se referia o maguid de Mezeridz: um cavalo que se sabe cavalo não o é. Este é o árduo trabalho do ser humano:aprender que não é um cavalo”

 

P.s.: Aline, deixo aqui para você a minha observação do quanto foi importante as nossas trocas e leituras filosóficas, sobretudo pós peça – valeu por esse momento especial de encontro em pensamentos e sensações!

    O LIVRO
    Falar sobre o filme Budapeste - roteiro foi idealizado por Rita Buzzar e, por via de consequência, falar de um livro do Chico Buarque, adaptado ao cinema e cuja estréia ocorreu no Brasil no último dia 22, trazendo para as telas o longa luso-húngaro-brasileiro, dirigido por Walter Carvalho, consagrado fotógrafo brasileiro, que assina o seu primeiro trabalho sozinho, talvez seja uma grande ousadia minha, mas tomarei essa liberdade porque, tratando-se de algo que clama por Chico Buarque, também clama por minha atenção, aquela de leitora assídua e expectadora fervorosa da sua poesia e existência.

    Essa é a minha visão apaixonada por um poeta que no meu entender não precisa pedir “licença” aos críticos para escrever, pois, ainda que como escritor, a meu ver, ele seja fragmentado - não produza obras com tamanha fluência poética como as letras das suas músicas - ele já conquistou no mundo o lugar de um imortal, daquele homem único por natureza, cuja a obra vive no hoje e sempre viverá no amanhã porque, simplesmente, tem vida própria, retrata o sentimento do homem: a vida, a prosa, o verso - tudo de uma maneira tal que não é necessário ser um intelectual e/ou poeta para compreendê-la, sentir já é o suficiente, e para mim é mais do que entendê-la - sentimos Chico Buarque!

    Com essa minha declaração de amor por sua obra, creio que posso adentrar, de início, não no filme propriamente dito, que para mim não brilhou nas telas apesar de/e sendo fruto de Chico Buarque, mas no livro..
    É sabido, penso eu, que não é nada fácil narrar como escritor quando se é poeta, pois perde-se muito da narrativa pela visão poética e adentra-se num mundo da imaginação que, possivelmente, o público não consegue captar.
    Talvez o o “pecado” do escritor, no exato momento da ficção, seja trazer à tona o poeta sem descortinar na narrativa a mensagem que deveria chegar ao leitor. Assim, sinto que o Chico escritor não comunica como comunica a sua poesia musical. E o que seria para mim o ato de comunicar? - trazer à tona emoção, a inventividade, que não necessariamente carece ser poética, mas precisamente, clama por ser compreensível - a narração fluente. Os livros do Chico não me comunicam!
    Para mim foi assim com o Estorvo (1991) e Benjamim (1995), e agora, confirmo, sobretudo depois de ver o filme adpatado ao cinema - Budapeste. Nem um bom livro e nem como um bom filme! Essa é a minha opinião, respeitando a todos aqueles que encontrem no grande poeta também um grande escritor, e que eu, confesso, até os invejo por isso, pois do jeito que admiro o Chico, também gostaria de encontrar acolhida nos seus livros.
    O FILME

    Agora, para quem pretende saber um pouco do que há no longa, posso contar que é uma estória que se passa no Rio de Janeiro e em Budapeste, e, usando as declarações do próprio diretor, que foram apenas a respeito da equipe, mas que estendo-as ao próprio filme - “uma verdadeira Torre de Babel". "Torre" ainda mais curiosa quando no emaranhado da sua narrativa, deparamo-nos com uma breve apariação do Chico em cena apenas no final do filme, a falar umas 20 palavras em húngaro, o que não foge da metade do longa - que é falada nesta mesma língua e que, segundo um ditado - é a única língua que até o diabo respeita.

    A idéia central do filme, em torno do seu protagonista principal, vivido no filme pelo ator Leonardo Medeiros - é a vida do “gost-writer”, ou seja, um especialista em escrever livros para terceiros; aquele que vive entre duas cidades, duas mulheres e múltiplos conflitos internos – viver a sombra, como autor anônimo ou revelar-se para o mundo como o autor principal que assume as suas obras como tal? Mas toda a sua “complicação pessoal” vai muito além de tudo isso, o conflito é interno, é moral, é unipessoal.
    Boa parte da história é falada em húngaro e, por curiosidade, em uma das entrevistas do ator (que faz o papel do José Costa) quando indagado de como fez para dominar a língua, disse de modo sincero: "eu não dominei". "Com duas semanas de aula, vi que seria impossível aprender. O jeito foi mergulhar nas falas do meu personagem".
    Bem, podemos dizer que, no mínimo, foi uma direção de bravura - gravar entre o Rio e Budapeste, diante de uma língua jamais dominada e uma equipe tão eclética, que buscava a própria arte de comunicar para fazer chegar as telas algo comunicável – não foi tarefa fácil!
    E contando uma curiosidae, uma das cenas que levou um ponto alto das filmagens, e, sobretudo da emoção do Chico, que encantou-se com o que viu (segundo fala do autor em entrevistas), é a cena da gigantesca estátua do Lenin - pai da Revolução Russa, desmontada, descendo o Danúbio em cima de um barco ( que levou um dia inteiro a ser filmada) e mais, custou a pequena fábula de 26 mil euros. A sensação que a cena nos deixa, ao menos que senti, foi de uma cidade “libertada” do regime comunista, do Lenin gigantesco, atravessando o Danúbio, como em marcha do passado que bateu em retirada para deixar passar o presente.
    Para concluir, penso que talvez o que viveu Chico na sua imaginação para criar a “Budapeste” que vemos no filme, seja algo que a nossa percepção, de meros espectadores, não consiga alcançar, mas posso dizer, sem sombra de dúvida, que a curiosidade de muitos ele continuará a atrair porque o seu nome - Chico Buarque de Holanda, é um daqueles raros, que apenas por existir e presentear ao mundo a sua arte, não necessita de muito mais para seguir sendo, pois ele, de fato - já é!
    Ainda que não produza mais a sua música, que resolva emaranhar-se no caminho obscuro do mundo dos livros, jamais deixará de ser, pois o seu legado é o retrato€ da existência de um homem único, e assim, pelo sim e pelo não - vi Budapeste, em referência ao poeta, sem pensar no que lá encontraria do escritor e recomendo a todos o mesmo.
    Caso vejam o filme, sugiro que assistam com generosidade, sem guardar maiores expectativas, com a mesma generosidade que me peguei praticando quando me pus a “criticar” por aqui e por aí o Budapeste.
    De melhor, fiquemos com a cidade que é tão linda e nem parece que foi destruída sucessivas vezes durante sua história e reconstruída na Idade Média com o nome de Peste, que em eslavo significa “ruína” e que com o tempo, em virtude de uma outra cidade que surgiu ao redor do castelo e que foi chamada de Buda, ou “forte”, na língua eslava, as duas cidades se uniram e formaram - Budapeste.

    Eis o que tenho de melhor a lhes contar sobre o livro: aguçou a minha curiosidade sobre a cidade e sobre a razão de ser desse nome tão sonoro: BUDAPESTE!

Essa semana começo aqui lembrando de um assunto que sempre trocávamos, eu e uma querida amiga – Angela (daquelas que para ser irmã restam apenas ausentes os laços de sangue) e  fazia parte das nossas conversas, digamos, “filosóficas”, naquela atmosfera tal do ser e do existir, que levavamos a cabo através da necessidade de compreensão, ao menos para nós – uma  reflexão que versava sobre qual o nosso lugar nesse largo mundo.

Falávamos, claro, sem desejar que isso fosse a nossa realidade, numa ironia que, em verdade, buscava  compreensão – do nosso desejo de ser uma “igual”, sair da rota da sensação “estrangeira”. Calma, eu explico melhor!

Sabe quando você não se enquadra em nenhum daqueles estereótipos da sua cidade, do seu país, talvez até mais, daquela maioria que habita o planeta chamado Terra? – Será que já deu para entender até aqui? Pois é! Ainda peço calma, pois também não somos alienígenas tipo saídas do filme “The War of the Worlds”, não descemos de nenhum disco voador para atuar como humanas aqui na terra. Ainda não!

A questão era falar como nos sentiamos  a fim de,  ao menos nos percebermos, como estrangeiras de uma mesma região. Sentir que não estávamos sozinhas, afinal de contas,  não é de hoje que já sabemos que todo ser humano necessita “pertencer”, e assim, trocando as nossas inebriantes confissões, nos sentiamos pertencentes a um mesmo mundo e nos riamos com isso.

Queríamos, quer dizer, aliás, no fundo não queriamos, mas pensávamos – como seria mais fácil viver enquadrada num mesmo “padrão da igualdade”, queriamos gostar das mesmas músicas da maioria, dos mesmos lugares da maioria, gastar o nosso “rico dinheirinho” como a maioria, dando o céu para ir a um show daquelas festas “casadinhas” da moda, me desculpem os que gostam, mas poderia ser algo como Ivete Sangalo e Jamil. Dar o reino por uma daquelas bandinhas da moda, flutuando num prazer quase delirante por frequentar o ” barzinho da moda” e lá exibir os nossos corpinhos sarados, claro,  sendo sempre da moda. Queríamos falar “ninguém merece” na língua da moda, com as expressões que me fogem agora!

Será que assim já começa a fazer sentido aonde queríamos chegar?

Não, não é nada fácil não pertencer, não entregar o reino por uma festinha da moda, não vibrar pela maioria das coisas que a maioria da pessoas ao seu redor estão vibrando, não é fácil não falar a mesma língua, não é fácil não desejar as mesmas coisas, não ir aos mesmos lugares, não participar das mesmas programações e não saber cantar a música da moda.

Quem disse que é fácil ser estrangeiro?

Calma, também não disse que somos melhores ou piores por isso, apenas quero dizer que aquela reflexão faz parte de um passado, que, permanece no nosso presente, porque não ser uma “IGUAL” é fazer parte de um mundo quase altista, em que poucos falam a sua língua, que poucos te entendem ou deixam espaço para que você, simplesmente – também seja!

Porque em meio a essa sensação, somos vistos, as vezes pelos nossos próprios amigos –  os que são da moda (claro que também tenho um amigo ou amiga da moda), como estranhos, como seres que estão concorrendo ao cargo de superior, quando na verdade, indago-me: é perciso haver alguém em condição superior?

Em verdade, o ser estrangeiro não busca nada disso, ao menos na compreensão que fazíamos, talvez tenha apenas a consciência solitária de que não deseja as mesmas coisas e que tem anseios outros pela vida, e que, simplesmente, são diferentes, e na maioria das vezes, para muitos – fora da moda!

 A questão posta não é quem tá certo ou errado, mas o divisor de águas que tudo isso gera dentro de uma coletividade – como conviver com as diferenças sem sentir-se “ESTRANGEIRO” e sem ser taxado como tal?

Não falo a sua língua, não faço parte do sua tribo, não gosto do que a maioria gosta, não leio as revistas que a maioria gasta o tempo passando as sua páginas –  trocamos Caras por Caros Amigos. Lemos do Eça de Queiroz ao Onfray, e daí? Um imenso abismo nessas diferenças?

Não vibro com a música da moda, não quero ser igual aquela moça da passarela, com as mesmas roupas e o mesmo brilho que ela, não assisto Faustão aos domingos e nem sei o que acontece e nem conheço os participantes do Big Brother, e quando encontrar essa maioria – será que eu vou ter assunto pra conversar?

Quero ser estrangeira sem parecer enfadonha, quero ser estrangeira sem ter que ser vista como superior ou alenígena, quero viver o meu mundo desigual, mas para tudo isso não quero divisores de águas, não pretendo pôr o outro à margem, porque com um “igual”, na sua condição de ser humano, e como tal – único, talvez também tenha o que trocar com ele, e como farei se ele também me põe distante do seu mundo?

A questão parece simples – mas não é! A filosofia continuará a circular nos seus inúmeros “por quês”, continuarei dando voltas pelo buraco profundo de Perséfone nos seus seis meses que contempla a vida no modo obscuro embaixo da terra.

Em verdade, esse assunto me veio, a propósito, depois da lembrança de um encontro que tive com a minha amiga Angela,  e veio para fomentar com vocês um debate, para trazer de volta essa nossa questão do passado, para talvez fazer com que você sinta que também pertence a um espaço, que pode ser ou não um estrangeiro, mas que de um ciclo ou outro, pode-se trocar, acima de tudo – idéias!

Seja no seu mundo ou no meu, continuaremos seguindo em busca de respostas, e se não for assim não tem muita graça, pois dizem que Deus gastou os 07 dias dele para fazer o mundo, e porque nós não podemos usar mais que sete vidas  para descobrir as nossas estranhezas dentro desse mundo?

Vamos todos (sejam os estrangeiros, sejam os iguais) marcar uma festinha que entre na moda? rssssss

Dedico esse texto com um abraço forte aos meus amigos, aqueles que são “estrangeiros” e aqueles que são “iguais” – e viva as diferenças porque elas estão cada vez mais na moda!

 

O amor quase perfeito bateu-lhe a porta

O homem quase pronto não permitiu a sua entrada

Esse homem  cultiva a solidão

Penetra na sombra da sua razão pela estrada do seu quase querer

 

O amor quase perfeito busca sua compreensão

Quase aceita, quase compreende, quase sempre

No seu mundo sem ar, de quase em sempre – escapa

Quase tudo, quase nada, quase é madrugada

 

O amor quase perfeito debruçou-se sobre o seu olhar

A visão quase era turva, mas  se via o mar…

Por sobre os seus olhos quase a névoa brusca da arrebentação

Quase tempestade, quase destempero, quase solidão

 

O amor quase perfeito não sabe como prosseguir

Ele quer seguir, mas não no quase, na plenitude

Mas o homem, quase perfeito,  não se deixa possuir

Tem a sua razão,  a sua quase companheira

 

O amor quase perfeito partiu sem dizer adeus

Mas foi só quase,  pois olhou para ele, fez um sinal

Na quase  fresta do seu olhar fez eco

E quase em silêncio saiu pela porta que estava  aberta

 

O amor quase perfeito deixou uma carta

O homem  sorriu e, em silêncio,  quase a abriu

No quase e sempre lhe faltou coragem – amassou-a

Foi melhor assim  – QUASE nunca saber se perfeito haveria de ser.

 

O amor prosseguiu e foi QUASE PERFEITO!

A própria Filosofia, vista como algo que tem como ponto de partida a vida, tal e qual ela é sentida e interpretada por cada um nós, nos últimos dias me remeteu a “impermanência” do nosso tempo, aquele que nos chega de modo ciclíco, sazional, apresentando-nos a vida de muitas e muitas maneiras…

Ao relacionar o tempo com a filosofia, recordei-me de Kant, filosófo que explicava que o espaço e o tempo pertenciam à condição humana sendo propriedades da consciência, e não atributos do mundo físico. Será mesmo assim? Será que fomos nós, simples mortais, que o criamos como modo de seguirmos uma rotação da vida? Platão a falar sobre o tempo, ainda a.C, nos disse que: “O tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel”. Já os físicos insistem em afirmar que o tempo não flui; ele simplesmente é. Shakespeare referiu-se ao tempo como “a ciranda do tempo”. E como esquecer de Santo Agostinho e a sua reflexão auto-biográfica sobre o tempo, expressa no Livro XI da obra “Confissões“ (recomendo a leitura) , lá os questionamentos dele, tão atuais quanto se hoje estivesse vivo, nos conduz a ver que o tempo nos escapa, que não podemos apreendê-lo, não há como medi-lo e nem mesmo como decifra-lo.

Nessa ciranda, apesar do tempo ser algo tão comum a nossa experiência de mundo físico, como pode ser ele algo tão difícil de definir?

Esses dias, em menos de 24 horas, vivenciei essa consciência do tempo, o tempo de chegar em uma cidade, realizar o trabalho que lá tinha por fazer, partir e chegar em outra cidade e, simplesmente, vivê-la na sua mobilidade. Isso trouxe-me a reflexão desse tal TEMPO – grande enigma da vida, horas é o nosso melhor amigo e horas é o nosso pior inimigo.

Quando estou em aeroportos não raro me vem essa reflexão, pois em um dado momento, quando seguimos como viajantes, a percorrer algumas cidades, por vezes chegando a cruzar outros continentes, perdemos um pouco a identidade desse tempo e de quem somos frente a ele, a noção flutua no senso de espaço e sentido, e flutuantes somos todos nós, ali, por entre as nuvens que vemos do avião.

Pensei sobre os ponteiros de um relógio que se segue a cada fração de segundo, levando consigo o nosso estado de ser, levando consigo cenas e situações que nos diz que nada poderá ser igual ao que vivemos minutos atrás, mesmo que venhamos a resconstituir a cena com o máximo de fildelidade ao quanto vivido no tempo anterior, nada poderá ser igual, simplesmente porque jamais estaremos iguais, nos também mudamos de muitas maneiras nesse TEMPO.

O nosso estado de ser, as nossas sensaçõesn- elas mudam de modo sublime, tão sublime quanto a vida, quanto toda a sua essência, que não raramente clamamos por respostas.

Mudamos em nossos estados de alegria e de tristeza, de buscas, de anseios, elegemos algo e depois, a seguir, já deixamos de o eleger, e tudo isso é belo, tão belo como saber que daqui a poucas horas, depois que tenha escrito aqui para vocês e que vocês me tenham lido, tantas e tantas outras coisas poderão acontecer a ponto de nem mesmo lembrarmos como estavámos nos tais minutos atrás desse tempo da leitura.

Já pensaram nisso? Pensaram como a impermanência da vida é algo belo e muitas vezes difícil de aceitarmos? Pensando sobre isso, para completar os cenários que vivenciei na minha imaginação de viagem através do tempo, uma música me chegou aos ouvidos – “The Scientist”, veio naquele instante em que refletia, através de um voz que gosto muito que é dos Coldply e nela um intrigante clamor: “Let´s go Back to the Start” e daí pensei – como seria voltar no tempo, como voltar ao início de algo? E na mesma música, mais a diante, há uma afirmação – “Nobody said it was easy”, não, não é mesmo fácil! O clipe dessa música é finalizado com um carro em marcha ré, o carro se desloca para o tempo passado como se fosse possível retornar a ele sob o ângulo em câmara lenta.

Como seria manusear o tempo, assim como fazemos quando acertamos um relógio? E vejam que mesmo nesse ato simples de acertar o nosso relógio, não podemos, simplesmente, registrar nele o nosso tempo, aquele que queremos – o que apenas podemos fazer é apontar o tempo cronológico da vida, aquele que nos faz mais velhos a cada aniversário.

Em meio a todas essas reflexões recordei-me da complexa e linda letra do Cateano Veloso – “Oração ao tempo”, a música é uma bela referência ao “Deus Kronos”, e para aqueles que não lembram, deixo aqui uma das minhas estrofes preferidas que diz:
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

O que seremos no amanhã desse tempo que já não terá sido? Realizaremos o “milagre” de segurar o tempo ou o tempo já nos terá tragado no que haveria de ter sido?

As reflexões do tempo, essas eu sei que sempre retornarão a memória do meu tempo, vez por outra me virá a chance de pensar melhor sobre ele, nem que seja apenas quando me perceba sentada no saguão de um aeroporto a espera de mais um vôo, na iminência de dentro de algumas horas me ver em outra cidade e perceber que o tempo passou tão rápido que não pude segurá-lo, mas na memória do tempo eu tudo terei sido e feito.

Finalizo então com a fala de Albert Einstein quando escreveu para um amigo e veio a expressar essa questão dizendo: “O passado, o presente e o futuro são apenas ilusões, ainda que tenazes”.

Agora, façamos o melhor do nosso tempo, pois ele não retorna as nossas mãos e não podemos segurá-lo, e nem guarda-lo numa caixinha, como possivelmente gostaríamos, assim como podemos, fisicamente, segurar os ponteiros de um relógio, então, para ele, nos cabe uma vida bem vivida, com o desejo e o comprometimento de sermos felizes; o fluxo pulsante realizará o melhor desse tempo, as vezes atentos a cada momento e as vezes relaxados, apenas sentindo-o passar e sabendo que, sem dúvida, ele nos trará e nos levará muito, mas, sobretudo, nos resta sempre a possibilidade de ser, ainda que não naquele tempo que gostaríamos que tenha sido…