Sábado, possível tenha sido o dia mais quente de Paraty, de céu azul, claro e límpido. As ruas pareciam brilhar de um modo diferente e o movimento, dado ser o final de semana, era algo típico de FESTA, havia uma astral contagiante na cidade marcado pelo vai e vem das pessoas que passavam de um lado a outro, com olhos ávidos por descobrir, afinal, o que se passava na FLIP 8? Mas ao mesmo tempo, ao menos para nós, nesse terceiro dia já havia um sentimento melancólico no ar, talvez uma sensação de despedida tomava um pouco dos nossos sentidos.

O dia imensamente azul era um convite a um passeio pela linda baía de Paraty – repleta de ilhotas pequeninas tomadas por vegetação, daquelas paisagens típicas do Rio de Janeiro, daquelas que logo identificamos ao pisar no estado do Rio de Janeiro e sermos surpreendidos pela sua beleza.

Foi assim que decidimos caminhar até a margem do rio em busca de um daqueles barquinhos estacionados para um contemplativo passeio de barco. Ficamos por uns trinta minutos a espera de um barco até que um, que acabava de chegar de um passeio, nos levou para uma hora de navegação por aquela linda baía: um grupo de 06 pessoas, um custo de R$ 10,00 (dez reais) por pessoa e lá fomos nós a celebrar a vida em Paraty e sentimos que aquele até poderia ser o último dia das nossas vidas, pois tudo estaria muito bem – o momento era uma dádiva!

Navegar pela baía de Paraty – em dia de sol e brisa leve, é como ser saudados pela imensidão do azul do mar. A Serra do Mar é o pano de fundo que deixa um clima de mistério que é refletido na luz do mar e nos deixa encantados, meio que deslumbrados, meio que sem palavras, num daqueles momentos em que não há o que dizer porque o momento existe para ser tão somente contemplado.

Quando terminamos, ao voltar para margem do rio perequê-açu ainda nos foi reservada a surpresa de ver o famoso Amyr Link que estava ali, diretamente dos oceanos para os palcos, no barco “Piloto Pardo” já que havia sido convocado como curador do show de abertura da FLIP 8.

Depois desse passeio nos coube um almoço corrido num daqueles restaurantes deliciosos de Paraty, porque ainda tivemos que encontrar tempo para passar na Livraria da FLIP e comprar o livro “Alguma Poesia” – primeiro livro de poemas de Carlos Drummond de Andrade, que completa 80 anos em 2010, organizado por Eucanaã Ferraz e ás 15:00 horas o nosso compromisso era na Tenda dos Autores para assistir a Leitura de tal livro – um tributo a Carlos Drummond com uma leitura de Alguma poesia, pelos poetas Antônio Cícero, Ferreira Gullar, Chacal e Eucanaã Ferraz, que também assinou a direção do evento e queríamos acompanhar essa leitura com o livro em mãos.

Nossa, que tarde linda! Foi uma emoção assistir aqueles quarto escritores a ler Drummond, cada um deles lia um poema e assim todos os poemas foram lidos, um a um, para o deleite de todos que estavam ali e, em alguns momentos, ainda éramos arrebatados com algum comentário sobre o grande poeta Carlos Drummond, uma espécie de declaração do que o poeta representa no sentir de cada um.

Ferreira Gullar, como sempre, surpreendeu tanto quanto o poeta homenageado e acabou sendo, juntamente com os poemas de Drummond – a estrela do momento. Disse que Drummond é atual, contemporâneo e do quanto perplexo ficou, quando, pela primeira vez, pensou na “lua diurética” e indagou: “há algo mais inovador que isso?”…

A sensação que ficou em nós é que essa tarde poderia durar tantas outras horas e que tantas outras poesias de Drummond ainda poderiam ser lidas porque a alma estava sendo alimentada, se enchendo de alegria, de um sentimento verdadeiro do que é participar de uma festa como aquela, de tanta celebração á literatura. Foi o ápice da festa para nós! Saímos dali sorrindo, com a alma amplamente preenchida – e viva a Flip!

E como se não bastasse, logo a seguir, ás 17:15 Ferreira Gullar era o poeta homenageado na mesa 13 da Tenda dos Autores. No dia 10 de setembro o poeta completará 80 anos e será lançado seu novo livro de poesias “Em Alguma Parte Alguma“, com o particular que esteve 11 anos sem publicar e após receber o prêmio “Camões”, o mais importante prêmio da língua portuguesa, foi ali na Flip que ele aportou. Na conversa Gullar passou em revista a sua trajetória e trechos do seu novo livro de poemas.

Figura singular, única, presente ainda nos nossos tempos e que nos faz sentir orgulho do “ser brasileiro”. Gullar é um homem criativo, inteligente, simples, único e de uma simpatia contagiante, que arrancou muitas gargalhadas e a atenção especial do público e sobre a poesia, dentre outras coisas disse “falar de poesia é sempre gratificante.”A poesia para mim, nasce do espanto. Quando ela vem, não respeita nenhuma lei. Nem sei se poesia é literatura. Não faço poesia na hora que quero. Não posso determinar: hoje vou fazer poesia.”
Filosofando ainda mais sobre a poesia afirmou que “A arte existe porque a vida não basta.” “…Escrever poesia não é sofrimento, como muitos poetas dizem. É mentira. Você faz porque quer, ninguém manda você fazer.” ”…O poeta transforma o sofrimento em beleza (estética). Transforma a dor em alegria.”

Gullar fez um passeio ainda sobre o início de sua carreira, quando iniciou suas poesias pelo Parnasianismo, depois aderiu ao Modernismo, passando pelo Concretismo. Falou também sobre o exílio em Buenos Aires e sobre o livro que lá escreveu, “Poema Sujo”. No final, após ser aplaudido durante 02 minutos pelo público emocionado e de pé, disse: “É bom saber que a poesia ainda provoca isso nas pessoas.”

De toda tarde e nascer da noite, poéticos como esse que tivemos, talvez possamos resumir a marcante figura do poeta Ferreira Gullar e sua pessoa numa única frase proferida por ele na Flip 2006:”Não quero ter razão, quero ser feliz”.Pensam que a nossa noite terminou por ai? Ainda não! Ás 20:00 horas nos restou fôlego para ir até a Casa da Cultura assistir um documentário sobre a vida e obra do Gilberto Freyre – “O Cabral moderno”, realizado pelo cineasta Nelson Pereira dos Santos e nele o professor Edson Nery da Fonseca – amigo e biógrafo de Freyre – personifica o sociólogo e faz as vezes de narrador e um dos trunfos do documentário superdidático e muito bem elaborado é a participação da Companhia Teatro Seraphim do Recife.

Esse foi aquele último suspiro que nos faltava para arquivar na memória todo o acervo que adquirimos nessa Flip quanto ao grande Gilberto Freyre.

Por fim tivemos o nosso merecido jantar no restaurante Bartolomeu (que recomendo) – cheio de graça, aconchegante, charmoso, cuidadosamente decorado, em meia luz, móveis antigos e um lindo quintal cuidadosamente decorado, de muito verde, árvore lindas que dão um toque todo especial e uma comida de aroma e sabor fantástico. Preciso dizer mais?

O sábado de FLIP foi verdadeira festa!

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Dia de sol em Paraty, apesar de uma brisa friazinha pelo ar, seguimos nós a caminho da Casa da Cultura para assistir, ás 10:00 horas – “bate-papo com Thereza e Tom Maia”.

Como curiosidade, conto que os ingressos para a Flip – Casa da Cultura (como podem conferir na foto) custam metade do valor dos ingressos (meia) para a Tenda dos Autores, ou seja, R$ 10 e são vendidos apenas em Paraty, durante a Flip, diferente dos demais ingressos que um mês antes do evento começar são vendidos pela Internet.

Estávamos curiosos por conhecer a casa que hospeda a FLIP – que é uma realização da Associação Casa Azul, presidida por Mauro Munhoz e a tal Casa Azul desenvolve trabalhos de revitalização em Paraty e mantém um programa educativo continuado na região, que visa transformar a cidade histórica fluminense em modelo de turismo cultural e em uma cidade de leitores e para matar essa nossa curiosidade compramos para a Casa da Cultura, o “bate-papo com Thereza e Tom Maia”, ela historiadora, ele ilustrador.

Autores de mais de 40 livros sobre a memória brasileira, alguns deles em parceria com Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e outros nomes da historiografia nacional e nessa bate-papo revelaram passagens de encontros que tiveram com o saudoso Gilberto Freyre, contando um pouco dos seus modos, dos seus gestos para com os amigos, da forma amável e cativante de recebê-los em sua casa, lançando na memória do tempo os bons momentos que desfrutaram junto a Freyre, oportunidade em que eles também falaram da relação do casal com a cidade de Paraty, numa espécie de reflexão das questões locais paratienses, além de trazerem à tona aspectos peculiares da cidade, que há mais de 40 anos faz parte da vida do casal.

Ainda descobrimos que uma das novidades deste ano que aconteceu na Casa da Cultura foi o que eles promoveram intitulando como Jogo de Ideias (com curadoria do Itaú Cultural) – uma série de encontros em que um escritor entrevistaria o outro, esse outro entrevista um terceiro, e assim sucessivamente, e para essas verdadeiras “partidas” foram escalados vários “jogadores” do primeiro time das letras: Frei Betto, Cristóvão Tezza, Luiz Ruffato, Benjamin Moser e José Castello, entre outros.

Saímos desse bate-papo com uma sensação de leveza, levando na bagagem a idéia de quem foi o homem Gilberto Freyre, que além da genialidade havia a alma de um homem humano, de relações profundas com os amigos; não só, aprendemos mais sobre a cidade de Paraty, o seu povo, a preocupação com a preservação da sua história e descobrimos que, apesar de já em processo de reconhecimento como patrimônio cultural da humanidade, a Unesco ainda não a reconheceu como tal, o que, para Thereza e Tom Maia é algo inconcebível dada a importância histórica da cidade, que é tombada como patrimônio histórico nacional pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

Logo do outro lado do rio, atravessando a bela ponte que separa a Tenda dos Autores da Tenda do Telão, a seguir, estávamos nós em busca dos convites para a Mesa 7- “Além da casa grande”, uma das mesas especificas em homenagem a Gilberto Freyre, marcada para 12:00 horas e aí, ainda na fila, à espera da nossa vez e com receio dos ingressos terminarem, eis que uma pessoa põe os seus ingressos à venda e nos oferece, mas, para nossa grande surpresa, ao mesmo tempo, acreditem, aparece um homem e, simplesmente, nos diz: não, não comprem, estou dando os meus ingressos

Sim, sim, e não pensem que fomos contemplados com os ingressos porque a Mesa 7 não era interessante, ao contrário, já não havia mais ingressos para essa mesa, mas o que acontece e descobrimos nesse instante, é que na FLIP também há coisas dessa natureza – pessoas que ganham cortesia, algumas que estão a trabalhar na FLIP e doam os seus convites assim, em cima da hora, para outros como nós, que estão ali cheios de boa intenção à espera dos convites serem postos à venda. Grata à comentada Mesa 7. Conto mais: encontramos os melhores lugares, tendo à nossa frente os chamados convidados especiais da FLIP, a exemplo da Regina Casé e do marido que marcaram presença na pletéia e ainda assistimos às poses para fotos.

A proposta da mesa 7 foi trazer três estudiosos e admiradores dos pensamentos do Gilberto Freyre e examinar a sua obra para além dos livros mais famosos, porque apesar de muito vasta, a sua obra costuma ser lembrada apenas por Casa-grande & Senzala e Sobrados e mucambos.

Nordeste foi o tema do africanista Alberto Costa e Silva; a socióloga Ângela Alonso discorreu sobre Ordem e progresso e a historiadora Maria Lúcia Pallares-Burke falou sobre Ingleses no Brasil.

Sobre os participantes dessa mesa vale lembrar que Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke é escritora e historiadora, autora de Gilberto Freyre: Um Vitoriano dos Trópicos (Unesp, 2005), e uma das responsáveis pela programação da homenagem ao sociólogo brasileiro; Ângela Alonso é socióloga e Professora do departamento de sociologia da USP, e Alberto da Costa e Silva é diplomata, ensaísta, memorialista, historiador e ocupante da Cadeira nº9 da Academia Brasileira de Letras.

Segundo Costa e Silva, o livro destaca também como o negro foi colonizador do Brasil – e na mesma proporção do branco europeu. “Os portugueses aprenderam com os africanos práticas como a agricultura, a pecuária e a cata de ouro. Aliás, Freyre deu nova dimensão ao negro, que foi totalmente ignorado por pensadores como Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Hollanda”, ressaltou.

Em “Ingleses no Brasil”, essa valorização do aparentemente periférico se repete, como demonstrou Maria Lúcia. Ao estudar a participação britânica na formação do Brasil, Freyre se debruça sobre o que chama de “revolução branca”. “Ele investiga a invasão de produtos como a lâmpada a gás, a cerveja, e hábitos como o uso de facas à mesa, procurando compreender como se deu esse encontro entre duas culturas desiguais.Encontro que envolveu subordinação, conflito, resistência e acomodação”, alertando, contudo, que o livro não é uma denúncia do imperialismo, e que Freyre registrou também as marcas do “abrasileiramento” dos “invasores” e citou as palavras do próprio sociólogo: “Os ingleses levaram mais do que exóticas borboletas, papagaios e macacos”.

Ao examinar “Ordem e progresso”, Ângela Alonso comentou a metodologia de Freyre, que recorria, em seus estudos, a anúncios, rótulos de cigarro, receitas de bolo e modinhas. “Freyre dizia fazer bisbilhotice disfarçada de investigação sociológica”, observou. Para escrever “Ordem e progresso”, ele entrevistou militares, políticos, ex-escravos, prostitutas e babalorixás. E mesmo alguns personagens que não quiseram dar entrevistas foram incluídos. São os casos do ex-presidente da República Getúlio Vargas e do escritor Monteiro Lobato, cujas cartas de recusa Freyre reproduziu no livro.

Ângela salientou que, ao abordar a desagregação da sociedade patriarcal no Brasil, “Ordem e progresso” não busca explicar a transformação política, mas refletir sobre a mudança de padrões sociais. “E para isso o que importa não é o 15 de novembro, é o 13 de maio”, sintetizou.

E a Mesa 7 foi, realmente, um deleite, seja pelo conteúdo, seja por termos sido contemplados com os convites, seja porque tivemos a chance de perceber que estavamos diante de um momento que marcava a nossa estada na FLIP! Foi a oportunidade de escutar mais sobre a obra de Gilberto Freyre por admiradores, de fato, da sua obra, estudiosos que falaram com muita propriedade sobre cada um dos livros escolhidos, mas não só, trouxeram particulariades que, para muitos que estavam ali, como nós, revelava o universo de um homem que foi admirado por muitos, mas nem sempre compreendido por todos.

Saimos FELIZES com mais um dia de FLIP!

Desde as primeiras horas do dia 04 de agosto estávamos nós, cruzando os céus do Brasil – entre Salvador e Rio, para então, de lá, depois de 04 horas e meia de viagem chegar a Paraty. Como podem concluir, chegar a Paraty não é assim tão fácil quando o destino de origem é Salvador, mas quando se tem a FLIP pela frente reune-se as forças necessárias, esquece-se o cansaço, pois mais vale o ponto de chegada, que minimiza as dificuldades do caminho e como isso a peregrinação da viagem até Paraty ficou mais suave, sobretudo quando logo nos demos conta da beleza da cidade, do movimento palpitante das tendas, das pessoas caminhando pelas ruas, do frio que se fazia presente e que anunciava um “que” todo especial da estação FLIP.

A conferência de abertura da FLIP aconteceu às 19:30 na Tenda dos Autores (tenda principal), localizada as margens do rio Parequê-açu, com a participação tanto polêmica do Fernando Henrique Cardoso, que, começou agradecendo o convite da FLIP e disse ter ficado surpreso com tal convite, afirmando que o seu conhecimento da obra de Gilberto Freyre é relativamente limitado, mas o interesse é enorme e disse que também não era a primeira vez a ser convidado a falar sobre o Freyre e escreveu o prefácio da edição de 2003 de Casa Grande & Senzala, segiu extremamente à vontade com o público e conversou sobre tal livro de maior projeção de Gilberto Freyre. A exposição foi marcada com bom humor e clareza, retratando a clareza e as contradições expressas na obra de Gilberto Freyre.

Da clareza elogiou o estilo e a qualidade da escrita, avessa ao estilo formal da academia, e próxima da literatura, assim como a gigantesca erudição misturada a doses de intuição e das contradições comentou sobre a ideia central de “equilíbrio dos contrários”, que considera não fundamentada, e de eventuais afirmações racistas que destoam dos elogios à miscigenação que tornaram Freyre conhecido. Num dos momentos brincou com o público e disse “tomem cuidado, que eu dou bis e repito tudo”.

A presença do Fernando Henrique mobilizou a cidade, pois antes do início da conferência o curioso é que um grupo de moradores de Paraty foi protestar, na entrada da Tenda dos Autores (essa que podem conferir na foto acima postada), contra a presença de FHC na festa.

Uma apresentação musical sucedeu a conferência de abertura, levando ao palco Edu Lobo, Renata Rosa e o quarteto de cordas da Osesp e nesse mesmo instante tudo acontecia na noite do centro histórico de Paraty, com muitas pessoas que se movimentavam de um lado a outro, um colorido com cara de festa, uma movimentação na qual podíamos sorver também da boa música que era tocada em alguns dos muitos bares que compõem o cenário noturno da cidade, e isso foi só começo do nascer da FLIP 08!

O que preciso contar é que não estivemos na conferência de abertura porque chegamos depois das 21:30 em Paraty, mas, em contra-partida, logo tomamos conhecimento de todos os comentários dessa conferência e sentimos o burburinho que já havia quanto as críticas ao Fernando Henrique, então, leia-se: estivemos na conferência de abertura da FLIP! rs…

Logo de início aprende-se com a FLIP, o que não poderia deixar de ser, dada a dimensão do evento, que há um grande bastidor de críticos e fofoqueiros de plantão, aqueles que fomentam um grande material que vai desde as fofocas da coluna da Mônica Bergamo para a Folha de São Paulo até as críticas de porte literário.

Nessa atmosfera é permitido conhecer tanto das frivolidades que também caminham pela festa, quanto das excentricidades dos autores participantes. Nada passa despercebido, nem mesmo o suspiro da Isabel Allende pelo Manoel Bandeiras; tudo nos leva a concluir que conhecer das críticas envolvidas nessa esfera de diversidade literária é algo possível, basta ter ouvidos e olhos atentos para então conhecer essa espécie de submundo da FLIP.

Terminamos a nossa noite no Sarau Paraty, bar e restaurante de um francês, muito amável por sinal, algo não tão esperado dos franceses, rs que nos indicou um bom vinho, acompanhado de uma boa comida e aí o cenário FLIP esteve completo quando os nossos ouvidos foram embalados por um trio de músicos: um violão, uma bateria e um saxsofone (esse tocado lindamente por uma mulher, que, inclusive, toca com a Marisa Monte) e toda o mundo artístico e cultural que fomenta a FLIP estava formado diante dos nossos olhos e nos fez concluir que o melhor de tudo, apesar do cansaço, foi a intensidade com que vivemos essa chegada e sentimos que a vida é mesmo assim, feita de momentos que podem alimentar a um só tempo o corpo e a alma!

Aguardem o dia seguinte!

APRESENTAÇÃO

Falar sobre a experiência ímpar que foi para nós viver a FLIP em Paraty na sua 8ª edição é, inicialmente, falar da emoção que palpita no peito diante da festividade que as palavras podem causar em nós, mas, sobretudo, é falar sobre a celebração do encontro de ideias, do conhecimento, do encontro do homem consigo mesmo quando identifica em si o que há de particular em obras grandiosas como aquelas deixadas por Gilberto Freyre, principal homenageado desta 8ª edição e tantos outros.

O grande homenageado dessa FLIP – GILBERTO FREYRE, apontado como o mais literário dos pensadores sociais brasileiros, declarou certa vez que: “A escrita é meu veículo. Vaidosamente ou não, considero-me um escritor literário, com uma forma literária de expressão”.

O livro de apresentação da FLIP pontua quanto a escolha desse homenageado que: “era preciso escolher um escritor que tivesse feito da reflexão sobre o país a razão de ser da sua obra. Nesse contexto há poucos como Gilberto Freyre”. Assim, não resta dúvida que a 8ª edição da FLIP, elaborada pela professora Maria Lúcia Pallares-Burke, diante do homenageado escolhido e dos polêmicos participantes que lá estiveram, entre eles Robert Crumb e o ácido Terry Eagleton, foi vista como mais literária que as anteriores.

Mas a FLIP também foi palco para outros grandes autores que passaram por nós, como o saudoso poeta Carlos Drummond de Andrade, que ganhou voz na mesa 13, tendo Chacal, Antônio Cícero, Ferreira Gullar e Eucanaã Ferraz, como leitores de todas as poesias postas na sua primeira obra de poesia intitulada “Alguma Poesia” e autores que ainda estão entre nós, a exemplo da Isabel Allende e do Ferreira Gullar, que foram presenças marcantes na FLIP e ponto alto em suas apresentações e que tivemos a oportunidade de assistir na mesa 04 e mesa 13, respectivamente.

Ainda na Casa da Cultura – espaço paralelo à FLIP, aconteciam tantos outros debates e lançamentos de livros de diversos autores, mas o destaque principal foi a exibição do documentário Gilberto Freyre, o Cabral moderno, de Nelson Pereira dos Santos; Peter Burke, Joaquim Falcão e Rosa Maria Araújo falando sobre os livros Ingleses no Brasil e o Imperador das Idéias e ainda o ator Dan Stulbach lendo trechos do livro De menino a homem, o inédito livro de memórias de Freyre.

E para deixá-los com mais gostinho de FLIP, para aqueles que não tiveram a oportunidade de participar dessa 8ª edição, vale lembrar o que Liz Calder, presidente da FLIP, apresenta no livro da programação e que deixo aqui como prévia desse diário de bordo FLIP:

“O que acontece em Paraty em Agosto? Será que é algo que você já ouviu falar, que muda o seu modo de pensar e que pode até mudar sua vida, que o deixa acordado a noite inteira, algo que você sempre suspeitou mas que nunca quis perguntar, que o seduz, que choca, que explica, que faz você rir bem alto, que provoca, que conta um história e pode nunca mais acontecer, que lhe dá esperança, que o apavora, que faz seu coração bater mais forte, que o enche em compaixão, que lhe dá vontade de dançar, que mexe em suas mais caras convicções, que desperta a fantasia, que traz lágrimas aos olhos, que lhe mostra o futuro, que acaba com a sua paciência, que o deixa com calos nos pés? Será que é tudo isso e mais uma porção de coisas?…”

Não posso deixar de mencionar outro ponto alto da FLIP – Paraty! Um encanto de cidade, fundada em 1600, mas a ganhar sua maior importância apenas no século XIX, por servir de porto a levar o ouro de Minas Gerais a Portugal, quando passou a ser o segundo porto mais importante do Brasil, e quando o ciclo do ouro teve o seu fim Paraty passou a se dedicar a produção de cachaça.

Paraty, cidade charmosa marcada pelo seu centro histórico de muitas ruas que se entrecruzam e nos faz pensar que estamos num labirinto, ruas calçadas com pedras grandes que nos faz andar em S, sempre mirando o chão para não ir ao encontro dele e que encaminha os olhos a milhares de restaurantes charmosos, de decoração das mais variadas, bares, lojinhas de artesanato e decoração o que nos deixa quase zonzos quando se tem que decidir – o que fazer em Paraty?

Paraty é por si só pura beleza natural: uma linda baía de águas tranqüilas, cercada por pequenas ilhotas e montanhas, tendo como pano de fundo a vista da Serra do Mar – precisa dizer mais? Esse é o encanto de cidade que faz a FLIP ainda mais charmosa, que inspira aqueles que passam por lá, nem que seja por um breve instante, a escrever ou simplesmente a namorar a sua paisagem e acompanhar tudo que acontece nela, como até mesmo os meninos que brincam na beira do mar.

Paraty também é passeio de barco, e assim, numa fugida rápida, entre uma programação e outra, encontramos um tempo para contemplar o mar mais de perto – um breve passeio pela ilhas que circundam Paraty, em um daqueles tantos barcos de pescadores que ficam à margem do canal do rio à espera de mais um passageiro lá estivemos nós, por uma hora, a testemunhar o abraço do rio Perequê-açu com o mar, tendo como testemunha a Serra do Mar, que estende-se naquele longa margem e torna a paisagem ainda mais bela, contemplativa e muito misteriosa. Ahhhhh, Paraty é algo que faz qualquer um sonhar!

A seguir postaremos nossas experiências em cada um dos dias da FLIP!

Andréa Menezes e Jovino Pereira

Da próxima vez que for ao Japão e alguém ao seu lado receber uma mensagem de texto via telemóvel, a probabilidade de se tratar de mais um retalho de um romance é bastante elevada. Este fenómeno, que consiste na escrita de uma história mensagem a mensagem, geralmente por novos escritores e sob um pseudónimo, atingiu um nível sem precedentes no Japão. Segundo o Sydney Morning Herald, metade dos livros no top 10 nacional japonês são compilações em papel de romances originalmente escritos em mensagens de texto. Destinados a um público jovem, os romances abordam questões como as paixões durante o liceu, as drogas ou a SIDA.

Embora não pretendam ombrear com os grandes clássico da literatura, num mundo em que a tecnologia e a filosofia do fast food são dominantes, estas iniciativas podem ser um forte incentivo para que a juventude adquira hábitos de leitura. Muitos dos compradores destes livros são jovens que já tinham lido a versão original em mensagens de texto.

Por outro lado, os linguístas japoneses encontram-se preocupados pelo facto de que estes novos textos entregues por via electrónica estejam a toldar a aprendizagem por parte dos jovens dos kanji, os símbolos Chineses, intelectualmente mais desafiantes que o silabário usado no quotidiano japonês.

Tudo isto leva-me a pensar na aceitação e no impacto que este meio teria em Portugal. Se, por um lado, não há dificuldades no envio de mensagens, basta observar a forma como os jovens teclam nos telemóveis, para que nos apercebamos da velocidade com que a operação é realizada, por outro, há o dialecto que é “falado” nas mensagens escritas pelos jovens do nosso país, que pode levantar alguns problemas. Do ponto de vista do escritor ou escritora, se este optar por um português tal e qual ele é ensinado nas carteiras da escola, o livro está condenado à partida ao fracasso, pois nenhum jovem irá perceber o que está escrito no pequeno ecrã do seu telemóvel. Esta dificuldade irá, com certeza, levar a que quem escreve opte pelo dialecto comum ao meio. E daqui nasce o outro problema. Numa tentativa de levar os jovens portugueses à leitura, irão ser atirados para as estantes das livrarias textos escritos de uma forma exquixita que, com o uso, moldarão toda a gramática.

Mas nem tudo é mau. Com o tempo, não tardarão a aparecer reedições dos grandes clássicos como “ax pupilas do xr reitor” ou “ox luxiadax”.

Boa excrita e n s exqexam d exercitar ox polegarex!