A desordem

Junho 13, 2017

As vezes o peito fica como um mar agitado e é  como um mar inundado por águas turbulentas, águas que se atiçam pela terra morna

As vezes esquecemos ao certo quem somos e quem queremos ser – seres – únicos, insubstituíveis

O mar de dentro segue  revolto, revirado, mexido, e com ele muitas indagações: qual o caminho a percorrer, para aonde ir, com quem, de quem maneira e quando?

Sozinha ainda persiste sendo a melhor resposta, aquela que alegra a alma; arrumando gavetas, refazendo traços – novas linhas e o tempo vai passando rápido

A vida insiste em ser desigual e ela já não corre mais devagar e ela se desbota, se esvai, como água entre os dedos

Vivendo na margem do se e do talvez, não há certezas, há apenas curvas sinuosas que ainda não encontram sua reta

Todas as dúvidas encontram resposta no entardecer –  céu que se enche no rosa de azul e na sede de caminhar pela noite que aponta para a imensidão do recomeço

O escuro luminoso da madrugada que insiste em ser mistério, em ser o por vir – e será que virá?

O brilho da noite põe fim a desordem e o que era agitado aponta para um mar mais tranquilo

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

 

 

4POR4 – DEBORA COLKER

Abril 6, 2010

Talvez essa seja a maneira mais ativa que tenha encontrado para retornar a minha escrita aqui no blog, pois a vida é assim mesmo, como tantas vezes ouvimos dizer – “a vida é como uma gangorra”.

Por certo, horas ela nos apresenta inspiração, horas quase nenhuma, horas exalando felicidade e horas a procura de uma. E não é assim que vão os nossos dias? Todos exercitando a tal humanidade, buscando o melhor, acertar, ser feliz e viver ao sabor da tal felicidade, que completa, que preenche e ocupa as arestas do ser.

Assim, realizando aqui o meu retorno a escrita criativa, depois de um longo período de “férias”, que foi além das minhas próprias férias, eu pego carona no mês intitulado como “da mulher” com data estabelecida no 08 de março, festejado como dia internacional da mulher e venho falar do espetáculo – 4 POR 4, que aconteceu no último domingo no TCA, produzido, obviamente, por uma grande mulher, a coreografa brasileira DÉBORAH COLKER, aquela que dentre tantas outras facetas, as quais citaremos logo abaixo, em 2009 criou e dirigiu o novo espetáculo do Cirque Du Soleil.

A sua marca registrada é a diversidade, superação dos obstáculos e movimentos do corpo, traço comprovado nas suas escolhas, pois cursou Psicologia, foi jogadora de vôlei e estudou piano durante dez anos. A partir de 1980, dançou, coreografou e deu aulas durante oito anos no grupo Coringa, sob a direção de Graciela Figueroa.

Em 1984, convidada por Dina Sfat para coreografar os movimentos da peça “A Irresistível Aventura”, com direção de Domingos de Oliveira, Deborah deu início ao que seria a vertente mais importante de sua carreira nos dez anos seguintes: diretora de movimento, uma expressão sugerida por Ulisses Cruz para definir seu trabalho. Como diretora de movimento, trabalhou com os principais diretores e atores do país em espetáculos como “Escola de Bufões” de Moacyr Góes, “Macbeth” de Ulysses Cruz com Antônio Fagundes, “Sonhos de Uma Noite de Verão” de Werner Herzog, “A Serpente” de Antônio Abujamra e “Uma Noite na Lua” de João Falcão com Marco Nanini.

O momento de fundar a Companhia de Dança Deborah Colker chegou em 1994, quando Monique Gardemberg assistiu a uma performance de seus alunos no Panorama da Dança RJ.

Em 1993, nasce nos salões do clube Casa do Minho, no Rio de Janeiro, onde Deborah dava aulas, o embrião do que seria a Companhia de Dança Deborah Colker, entrando em cena no projeto O Globo em Movimento no qual a Companhia estreou em 1994 no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em programa duplo com o Grupo Momix.

Em 1995, devido à repercussão de seu trabalho, a Companhia conquistou o patrocínio exclusivo da Petrobrás, o que lhe tem possibilitado alçar grandes vôos e se firmar no panorama da dança mundial. Nesse espaço de tempo, a companhia se apresentou no Reino Unido, França, Alemanha, Áustria, Chile, Colômbia, Portugal, Argentina, Canadá, Estados Unidos, Holanda, Cingapura, Nova Zelândia, Macau, Irlanda, Japão e Uruguai, conquistando os muitos prêmios, dentre eles citamos o Prêmio Ministério da Cultura com Troféu Mambembe de 1997 – Rota e Laurence Olivier Awards – 2001 (Grã-Bretanha) Coreografia do espetáculo – MIX.

E é com toda essa bagagem cultural e artística que sentimos a maturidade da Deborah Colker, exposta no espetáculo 4POR4 e a sensação que permanece, e que partilho aqui com vocês, é de um riso nos lábios e o corpo em festa, pois assim é a dança, poderosa na sua arte de comunicar e a prova viva dessa comunicação é o espetáculo 4POR4 – comunicar nas nossas mentes as inúmeras possibilidades do corpo que interage com a arte!

Expressões do corpo que refletem o interior; movimentos perfeitos em harmonia com obras de arte que fazem parte do cenário e criam uma sintonia tal com o corpo que é impossível não emocionar. Obras de artistas plásticos brasileiros de diferentes épocas e focos são transformadas em danças: “Cantos”, baseado em Cildo Meireles; “Mesa”, em Chelpa Ferro; “Povinho” em Victor Arruda; e “Vasos”, em Gringo Cardia, e como se não bastasse a música é outra alta surpresa do espetáculo, que traz Deborah Colker ao piano interpretando uma sonata de Mozart para quatro bailarinas que dançam na abertura de “Vasos” a coreografia intitulada “As meninas”.

4POR4 é um presente que deveria ser oferecido a todos os brasileiros, aqueles que entendem das artes ou não (afinal o que seria entendê-la?) aqueles que gostam de um espetáculo de dança ou não, aquele que é negro, pardo, branco, mulato, rico ou pobre, culto ou inculto – não importa! Como disse Oscar Wilde “A arte é a forma mais intensa de individualismo que o mundo conhece”.

Celebremos a dança como a mais pura forma de arte e celebremos essa brasileira que faz bonito aqui e em qualquer parte do mundo, levando a nossa nacionalidade aos patamares que sempre almejamos – ao alto!

A INQUIETUDE DA ALMA

Agosto 19, 2009

Inquietude da Alma

Ilusões, terras frias, momentos distantes,
A alma vaga pelo querer e o talvez
Enquanto isso o mundo gira como criança em dia de festa
e vamos perdendo a inocência.

Particularidades do ser, envoltos estamos todos,
na busca por respostas – qual a razão dessa existência?
Essa, que nos faz perder tantas vezes, que nos tira do prumo.
Divagando em pensamentos, em busca de um rumo.

A alma é quase fria, vai-se perdendo a poesia
O tom é de passagem, o toque é sutil, tão breve
A mente a dar voltas procurando a sua razão
Mas para que saber se nos perdemos na própria ilusão?

Estabelecemos um contato entre o que sentimos e o que é certo
E o coração não cala na sua linguagem crua, alma nua
Queria poder dizer que não sou tua
Mas o sentimento tem voz própria, e tanto e quanto, ele tem razão.

A inquietude persiste, não cala, ela sempre fala,
Quando o tempo é o presente, ainda que não seja suficiente para
serenar, envolvo-me em sim e em talvez, perdendo-me na mesma
pequenez quando a alma me diz que é preciso calar…

Um dia chego lá, um dia encontro o rumo e tomo o prumo
Esse dia é perto porque encontro a coragem
E ainda que as vistas ao prazer atrase a caminhada
Não importa – certa é a chegada!

Neste mês de Julho, a edição n.º 34 do jornal Letras do Brasil inclui uma entrevista à Andréa Menezes sobre o nosso caro “Taxicidade”.

Leia o jornal e a entrevista aqui.

A ALMA IMORAL

Junho 29, 2009

Um monólogo teatral em cartaz há quase três anos; em São Paulo no teatro Eva Herz, na Livraria Cultura, dirigido por Amir Haddad, vista por mais de 75.000 pessoas, cuja a atriz e dramaturga Clarice Niskier foi vencedora do prêmio Shell e apresenta ao público o seu olhar diante da obra do rabino Nilton Bonder – “A Alma Imoral”.

Os questionamentos e impressões da atriz ao ler o livro, logo nos primeiros minutos de peça,  são expostos no palco numa espécie de conversa introdutória com o seu público, e como ela mesma diz, o texto pode ser visto como a leitura dos ensinamentos cabalísticos de uma “judia budista” do século XXI, que na maior parte do tempo permanece no palco nua, despida, mas não damos por isso, pois, literalmente, a nudez aparece no corpo como expressão da alma, numa interpretação, digamos, acima de tudo simples, dentro de toda complexidade que o tema pontua.

Contrariando um amigo intelectual, que chegou a me dizer que não passava de um tema de auto-ajuda – e nada contra temas de auto-ajuda,  deixo por aqui o meu registro do quanto a ALMA IMORAL foi muito além da auto-ajuda e movimentou algo em mim, tanto e tanto que indico para  todos  – vejam a Alma Imoral!!!

Por certo o tema não é algo tão novo, mas vale um olhar mais curioso para ela, uma oportunidade de olharmos mais para dentro de nós mesmos (algo que vai se tornando cada vez mais raro nos dias turbulentos do nosso cotidiano) trazendo a tona um olhar mais compassivo para com a vida e como a vivemos, questionando-a, e entre os designios do corpo e os da alma – qual dos dois nos cabe escolher?

O roteiro é baseado em conceitos bíblicos e filosóficos, instigante em diversos conceitos como “tradição” e “traição”, que segundo encontramos expresso na obra, “são duas palavras de escrita e fonética tão semelhantes em nossa língua quanto o são interligadas em seu significado mais profundo”. Nem sempre o certo é exatamente o certo e o errado é exatamente o errado, o certo pode ser o errado e o errado pode ser o certo – o elo de ligação estará na forma e necessidade do seu sujeito, do quanto persegue, seja em seu corpo ou em sua alma, ou em ambos, e, muitas vezes, não carecemos fazer uma opção.

A finitude da vida é o questionamento que aparece e desaparece a todo momento do seu contexto, é um modo que nos faz  refletir, conflituar, indagar : o quanto fariamos ou não se essa finitude não nos fosse perene?

A filosofia segue os seus meadros, o homem em pleno questionamento, sempre em busca de respostas, talvez as questões sejam bem mais simples do pareçam ser, talvez essas respostas estejam unicamente no clamor de uma vida de alma, a que nos diz o que é bom e que vai além da moral ditada pelo corpo. A uninamidade como a “acomodação da verdade absoluta”,  os dogmas, as convenções, opinião pública, moralidade e tradições, aspectos que em muitos momentos podem querer representar uma “unanimidade” que nos “desqualifica como determinadores do que é justo, saudável ou construtivo“.

Na necessidade de mortais que somos, seguimos os caminhos traçados pelo que deve ser moral, pelo que esperam da nossa moralidade, sem muito questionar o que a alma espera de nós;  em meio a tudo isso esbarramos na ética, conceito vasto e profundo, mas que deveria ser o único a oferecer os paramêtros, no mais, o que não estiver dentro disso é ditado pelo bom da alma, pelo que ela clama e que muitas vezes deixamos , mediocremente, escondido em prol sabe-se lá do que e de quem, mas seguimos nos sentindo justos, enquadrados com o que a sociedade espera de nós e, talvez, bem distante do que nós esperamos de nós mesmos.

Parábolas são contadas ao longo da peça e questionadas ao público, questionamentos com e sem respostas. O paraíso de Adão e Eva e o encontro com a serpente é posto ao olhar de todos, expondo o pecado original como um pecado da alma e não do corpo, assim como o Tratado de Sanhedrin, que trata de casos de julgamento de penas capitais, o sentido de tal lei. A posição do traidor e do traído. Quais os reflexos de tudo isso na alma que clama por respostas?

Não digo mais, apenas que vale a pena assistir a Alma Imoral, prestar a sua alma a homenagem de estar, ao menos pelo tempo em que a peça é encenada, com a alma em suspenso, olhando um pouco mais de perto para o ser moral, dentro de toda a “imoralidade” e clamores da alma – vejam!

Se posso escolher aqui uma parte da obra que pode falar diante da curiosidade que pretendi plantar em vós, deixo-vos essa:

Entre uma moral e outra o ser humano volta a se despir e, desperto, se recorda da sua alma. A esse despertar se referia o maguid de Mezeridz: um cavalo que se sabe cavalo não o é. Este é o árduo trabalho do ser humano:aprender que não é um cavalo”

 

P.s.: Aline, deixo aqui para você a minha observação do quanto foi importante as nossas trocas e leituras filosóficas, sobretudo pós peça – valeu por esse momento especial de encontro em pensamentos e sensações!

 

O amor quase perfeito bateu-lhe a porta

O homem quase pronto não permitiu a sua entrada

Esse homem  cultiva a solidão

Penetra na sombra da sua razão pela estrada do seu quase querer

 

O amor quase perfeito busca sua compreensão

Quase aceita, quase compreende, quase sempre

No seu mundo sem ar, de quase em sempre – escapa

Quase tudo, quase nada, quase é madrugada

 

O amor quase perfeito debruçou-se sobre o seu olhar

A visão quase era turva, mas  se via o mar…

Por sobre os seus olhos quase a névoa brusca da arrebentação

Quase tempestade, quase destempero, quase solidão

 

O amor quase perfeito não sabe como prosseguir

Ele quer seguir, mas não no quase, na plenitude

Mas o homem, quase perfeito,  não se deixa possuir

Tem a sua razão,  a sua quase companheira

 

O amor quase perfeito partiu sem dizer adeus

Mas foi só quase,  pois olhou para ele, fez um sinal

Na quase  fresta do seu olhar fez eco

E quase em silêncio saiu pela porta que estava  aberta

 

O amor quase perfeito deixou uma carta

O homem  sorriu e, em silêncio,  quase a abriu

No quase e sempre lhe faltou coragem – amassou-a

Foi melhor assim  – QUASE nunca saber se perfeito haveria de ser.

 

O amor prosseguiu e foi QUASE PERFEITO!

A própria Filosofia, vista como algo que tem como ponto de partida a vida, tal e qual ela é sentida e interpretada por cada um nós, nos últimos dias me remeteu a “impermanência” do nosso tempo, aquele que nos chega de modo ciclíco, sazional, apresentando-nos a vida de muitas e muitas maneiras…

Ao relacionar o tempo com a filosofia, recordei-me de Kant, filosófo que explicava que o espaço e o tempo pertenciam à condição humana sendo propriedades da consciência, e não atributos do mundo físico. Será mesmo assim? Será que fomos nós, simples mortais, que o criamos como modo de seguirmos uma rotação da vida? Platão a falar sobre o tempo, ainda a.C, nos disse que: “O tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel”. Já os físicos insistem em afirmar que o tempo não flui; ele simplesmente é. Shakespeare referiu-se ao tempo como “a ciranda do tempo”. E como esquecer de Santo Agostinho e a sua reflexão auto-biográfica sobre o tempo, expressa no Livro XI da obra “Confissões“ (recomendo a leitura) , lá os questionamentos dele, tão atuais quanto se hoje estivesse vivo, nos conduz a ver que o tempo nos escapa, que não podemos apreendê-lo, não há como medi-lo e nem mesmo como decifra-lo.

Nessa ciranda, apesar do tempo ser algo tão comum a nossa experiência de mundo físico, como pode ser ele algo tão difícil de definir?

Esses dias, em menos de 24 horas, vivenciei essa consciência do tempo, o tempo de chegar em uma cidade, realizar o trabalho que lá tinha por fazer, partir e chegar em outra cidade e, simplesmente, vivê-la na sua mobilidade. Isso trouxe-me a reflexão desse tal TEMPO – grande enigma da vida, horas é o nosso melhor amigo e horas é o nosso pior inimigo.

Quando estou em aeroportos não raro me vem essa reflexão, pois em um dado momento, quando seguimos como viajantes, a percorrer algumas cidades, por vezes chegando a cruzar outros continentes, perdemos um pouco a identidade desse tempo e de quem somos frente a ele, a noção flutua no senso de espaço e sentido, e flutuantes somos todos nós, ali, por entre as nuvens que vemos do avião.

Pensei sobre os ponteiros de um relógio que se segue a cada fração de segundo, levando consigo o nosso estado de ser, levando consigo cenas e situações que nos diz que nada poderá ser igual ao que vivemos minutos atrás, mesmo que venhamos a resconstituir a cena com o máximo de fildelidade ao quanto vivido no tempo anterior, nada poderá ser igual, simplesmente porque jamais estaremos iguais, nos também mudamos de muitas maneiras nesse TEMPO.

O nosso estado de ser, as nossas sensaçõesn- elas mudam de modo sublime, tão sublime quanto a vida, quanto toda a sua essência, que não raramente clamamos por respostas.

Mudamos em nossos estados de alegria e de tristeza, de buscas, de anseios, elegemos algo e depois, a seguir, já deixamos de o eleger, e tudo isso é belo, tão belo como saber que daqui a poucas horas, depois que tenha escrito aqui para vocês e que vocês me tenham lido, tantas e tantas outras coisas poderão acontecer a ponto de nem mesmo lembrarmos como estavámos nos tais minutos atrás desse tempo da leitura.

Já pensaram nisso? Pensaram como a impermanência da vida é algo belo e muitas vezes difícil de aceitarmos? Pensando sobre isso, para completar os cenários que vivenciei na minha imaginação de viagem através do tempo, uma música me chegou aos ouvidos – “The Scientist”, veio naquele instante em que refletia, através de um voz que gosto muito que é dos Coldply e nela um intrigante clamor: “Let´s go Back to the Start” e daí pensei – como seria voltar no tempo, como voltar ao início de algo? E na mesma música, mais a diante, há uma afirmação – “Nobody said it was easy”, não, não é mesmo fácil! O clipe dessa música é finalizado com um carro em marcha ré, o carro se desloca para o tempo passado como se fosse possível retornar a ele sob o ângulo em câmara lenta.

Como seria manusear o tempo, assim como fazemos quando acertamos um relógio? E vejam que mesmo nesse ato simples de acertar o nosso relógio, não podemos, simplesmente, registrar nele o nosso tempo, aquele que queremos – o que apenas podemos fazer é apontar o tempo cronológico da vida, aquele que nos faz mais velhos a cada aniversário.

Em meio a todas essas reflexões recordei-me da complexa e linda letra do Cateano Veloso – “Oração ao tempo”, a música é uma bela referência ao “Deus Kronos”, e para aqueles que não lembram, deixo aqui uma das minhas estrofes preferidas que diz:
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

O que seremos no amanhã desse tempo que já não terá sido? Realizaremos o “milagre” de segurar o tempo ou o tempo já nos terá tragado no que haveria de ter sido?

As reflexões do tempo, essas eu sei que sempre retornarão a memória do meu tempo, vez por outra me virá a chance de pensar melhor sobre ele, nem que seja apenas quando me perceba sentada no saguão de um aeroporto a espera de mais um vôo, na iminência de dentro de algumas horas me ver em outra cidade e perceber que o tempo passou tão rápido que não pude segurá-lo, mas na memória do tempo eu tudo terei sido e feito.

Finalizo então com a fala de Albert Einstein quando escreveu para um amigo e veio a expressar essa questão dizendo: “O passado, o presente e o futuro são apenas ilusões, ainda que tenazes”.

Agora, façamos o melhor do nosso tempo, pois ele não retorna as nossas mãos e não podemos segurá-lo, e nem guarda-lo numa caixinha, como possivelmente gostaríamos, assim como podemos, fisicamente, segurar os ponteiros de um relógio, então, para ele, nos cabe uma vida bem vivida, com o desejo e o comprometimento de sermos felizes; o fluxo pulsante realizará o melhor desse tempo, as vezes atentos a cada momento e as vezes relaxados, apenas sentindo-o passar e sabendo que, sem dúvida, ele nos trará e nos levará muito, mas, sobretudo, nos resta sempre a possibilidade de ser, ainda que não naquele tempo que gostaríamos que tenha sido…

sem-titulo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Faz algum tempo que algo em mim clamava por conhecer uma vilazinha situada num vale, precisamente no coração do parque nacional da Chapada Diamantina, na Bahia, a 445 Km da capital, cercada de montanhas, que tem um poder, diria que mágico diante das pessoas, um lugarzinho como uma espécie de portal e que abriga comunidades alternativas de ideologia natural para se viver, um pouco do que retrata essa linda foto, e que talvez Cazuza, se lá estivesse, sem dúvida, abrigaria a sua ideologia, aquela da aclamada poesia em forma de canção “ideologia, eu quero uma pra viver”, mas o meu momento de Capão, durante anos e anos, não  aconteceu… enquanto isso eu vivia em outros vales e tempos, talvez sem saber, fosse a minha preparação para, no momento certo, lá chegar  – o momento chegou!

Foi então nesse feriado de Carnaval que ele me aconteceu – bateu-me a porta – o Capão, uma resposta que veio assim, meio que sem esperar e que me fez sentir algo como «é isso, é esse o lugar para respirar e sentir o agora»

Penso que os lugares, assim como os acontecimentos em nossas vidas, eles só nos surgem no momento do tempo, aquele instante que nos chega como o ”ideal”, que muito certamente – acredito, não é escolhido nem por mim e nem por ti, mas por um relógio da vida que anda no seu compasso, num ritmo certo e que nos aponta a hora da chegada.

Aqui escrevendo, fico a imaginar que cada um que já esteve nesse lugar mágico, cada qual com a sua pequena singularidade, quem sabe lembrará ou saberá dizer, talvez com um breve riso no rosto, o que foi  vivenciar a energia dessa fonte, pois esse é um daqueles poucos lugares de encontro em nós, aquele em que jamais esquecemos, porque lá a natureza fala conosco, ela fala porque lá descobrimos que pertencemos ao todo o qual ela faz parte – não pense que é loucura, acontece mesmo!

Assim, falar aqui desse meu momento mágico de estada no Capão, que poderá identificar algo em ti ou em qualquer outra pessoa, ou quem sabe não, é para mim apenas uma forma de celebrar o “pequeno-grande” lugar, que não é nem meu, nem seu e nem de ninguém, mas do universo, que nos presenteia com fontes assim, catalizadoras de bons fluídos, que emana vida e irradia luz para cada ser que com ele se conecta.

Posso declarar que diante desse encontro muito pessoal, as vezes acontece, como senti em algumas pessoas, advir uma pergunta, porque o mental vem dar o seu alerta, tornando-se  improvável passar incólume a esse lugar sem pensar no que lá nos tornamos  – capônicos?

Muitos que retornam desse lugar sagrado, que chegam da sua “vivência” pessoal e das sensações que lá passam, seja pelo simples caminhar por uma trilha, a experiência de um trabalho terapêutico, um banho de cachoeira ou o ficar quieto, talvez chegue nessa ponto de questionamento pessoal, que, a meu ver, não tem uma única resposta –  O que é ser capônico?

Nós, humanos, precisamos sempre de um enquadramento – que necessidade profundamente humana essa nossa!  Mas se precisamos disso, e aqui, em alguns momentos posso me incluir, nessa humana necessidade, venho partilhar com vocês o que, a meu ver é  ser capônico.

Talvez seja apenas um estágio de abertura, talvez experimentar dentro de si algo que até então estivesse adormecido, mas calma, não é nada apoteótico, até porque, se isso não te acontecer não me culpe, eu não disse que teria uma outra conotação que não,  simplesmente, a descoberta que ser capônico é = ESTAR CONSIGO!

O ser capônico percorre as batidas de um coração, percorre o silenciar, o calar, o sorrir com leveza, o despredimento sem abnegação, a despedida de julgamentos, pois o lugar te toma e te chega assim, em forma de uma energia que não há como relatar com precisão o que é – sente-se!

Por fim vivi o Capão e se for necessário, para partilhar das histórias com aqueles que lá foram e ainda pretendem muitas vezes lá ir, posso dizer que me sinto capônica, que muitas vezes terei de retornar, pois esse lugar pode nos acompanhar pela vida afora, e um dia, quando eu não estiver mais aqui, ainda assim, recordarei com um riso no rosto – com um ar de brisa leve, que na Bahia, não tão distante do mundo dito civilizado, há um lugar de contemplação, de leveza, de paz, de encontrar amigos afins; há um lugar para caminhar sem pressa, para amar, com pausas para respirar, de espaços encantados de acolhimento – Lothlorien, com algo a integrar em nós, com o silêncio a falar por nós, que permanece vivo a espera do nosso retorno, que podemos ir sem necessidade de bater a porta, por uma única razão – a porta no Capão permanece sempre aberta, basta querer entrar!

Obrigado pelo acolhimento queridos capônicos! Obrigado ao Lothlorien pela modo dedicado e feliz como recebem! A minha criança segue em festa e agradece essa descoberta.

Agora, peço que olhem para essa vista como uma porta de entrada, pois o vale tá aí, aberto para quem quiser nele entrar, e para os que ainda não viveram essa experiência de vida – visitem esse lugar!!

 

Seduza-se por Roma!

Fevereiro 17, 2009

p1010110

Sabemos, e eu também sei, que toda forma de preconceito é burra, mas quem de nós vez por outra não tem alguma espécie de preconceito? Aliás, o próprio significado da palavra fala por si só, preconceito  = “juízo pré-concebido”, e assim começo esse texto, não propriamente para falar de preconceito, mas de Roma, e o que Roma tem haver com isso? 

O fato é que nesse começo de ano, desfrutando das minhas férias e do frio que fazia na Europa, um livro me despertou uma cidade – Roma. Esse livro esteve por meses no nº 1 lugar em vendas, apontado nas  revistas pela sua vendagem em torno de 4 milhões de cópias. Daí que não gosto nada de correr para ler os livros que estão no topo das vendas, isso falando do meu pré-conceito. O que penso dos livros nos topos das vendas é que aquilo que todos andam a ler não deva ser algo tão credível assim – será? Aí residia o meu pré-conceito!

Foi assim que, vivendo o meu pré-conceito e depois pondo-o de lado, deixando-me vencer pelo tema, pela oferta do livro por uma amiga e por todas as entrevistas que li sobre a autora – Elizabeth Gilbert, me rendi a leitura de – “Comer, Rezar e Amar”. Confesso que, muito prazerosamente, a leitura finalizou o meu ano de 2008 e adentrou pela esperança de 2009 aguçando a minha curiosidade por Roma, que vai além do já conhecido através da história viva que transborda pelas ruas e do que lemos nos livros e vemos nas fotografias.  

Resolvi seguir para Roma. Desde o avião algo diferente já me chamou atenção e me tomou; depois de tantos dias a escutar a “rispidez” que nos sugere o espanhol de Madrid, os ouvidos começam a agradecer a “doçura” do idioma italiano e, naquele momento, ali sentada numa poltrona de avião,  escutar, em italiano, o comissário de bordo a falar todas aquelas maçantes recomendações de segurança, foi como se uma poesia tocasse os meus sentidos, uma bella poesia vinda de uma nação inteira –  que delícia o tom das palavras em italiano!  E aí a sensação de que Roma estava a caminho preencheu a minha imaginação.

Em Roma encontrei o farto prazer da comida, o prazer das pessoas felizes, que me fez descobrir talvez um dos muitos sentidos que pode existir para o velho dito popular: “quem tem boca vai a Roma”.

Acho que agora fui eu a sacudir a  curiosidade de vocês quando falo de ter descoberto o significado desse ditado, então passo a dizer qual a razão.

Imagine-se perdido numa rua em Roma a perguntar como faria para encontrar determinada direção, caso seja uma pessoa, como eu e a maioria das mulheres, que tem uma certa dificuldade de manuseio com os mapas – imaginou? Agora imagine que  os romanos poderão ter respostas diferentes para a mesma pergunta, mas, sem dúvida, depois de variadas respostas ao exercício das suas perguntas – quem tem boca descobre Roma!

O destino desejado será alcançado, apenas não posso lhes assegurar quanto tempo depois, mas uma coisa é certa, podemos pensar em mais uma nuance ao dito popular »com boca vive-se Roma», em todos os sentidos, sobretudo porque você ainda será seduzido, com certeza, por aquela culinária deliciosa que o fará ficar com água na boca.

Para essa maravilhosa culinária, prepare-se para ser “buona forchetta” (bom de garfo), prepare-se para tropeçar nas vitrines de pizza que são vendidas ao mêtro, estas de todos os sabores que sua imaginação não consegue recomendar, nos capuccinos, nas variedades coloridas, cremosas e saborosas de vários tipos de gellatos e no aclamado menu italiano, e neste tente, ao menos tente,  dar conta do antepasto, depois do 1º prato, a seguir do 2º e por fim da sobremesa, tudo sempre acompanhado de um bom vinho.

Depois de tanta comida tome folêgo para levantar da mesa, e, praticamente, rolar pelas ruas, pois a última coisa que conseguirá é caminhar por muito tempo, no máximo alguns metros entre o restaurante e o seu hotel. Por isso, recomendo: ao enfrentar esse verdadeiro “manjar dos deuses” esteja próximo da sua zona de conforto – o seu hotel!J

Em Roma a hospitalidade das pessoas é singular, de boa vontade em boa vontade, os romanos praticamente nos acompanham pelo simples prazer de dizer: o lugar que você procura é aqui! Acho que no seu livro Elizabeth Gilbert esqueceu desse informação, o que me faz dizer que Roma é, simplesmente: o encanto das pessoas, o ar simpático, sorridente e feliz dos romanos, algo que passa das pessoas idosas aos jovens ou aos não tão jovens assim, mas lá posso dizer que senti um “calor” mesmo numa fria cidade européia, um calor que emana do astral das pessoas e que me fez feliz. Roma é feliz!

Talvez lá também, dentre as excentricidades dos italianos, corra o risco, mais do que em qualquer outro lugar, de atravessar a rua e não chegar vivo do outro lado. A nítida percepção desse fato aconteceu conosco, logo na chegada, quando o taxista (por sinal, preciso dizer, esse o o único ser não simpático e meio “trapaceiro” de Roma, e aqui, quem sabe com a leitura do Taxicidade alteramo-lhes algo no humor, rs) que nos conduzia até o hotel, quase como um kamikaze, muito certo do que fazia, lançou-se na contra-mão à frente de uma tranvia em plena circulação – pensaram nisso!! Aconteceu em Roma!

Semáforo é algo raro de se ver, o que foge a toda ordem tipicamente européia e que me fez descobrir, na prática, que, sem dúvida, a palavra “atravessiamo” (no sentido de atrevessar uma rua), inclusive, a preferida de Elizabeth Gilbert, talvez seja a que primeiro tenhamos de aprender na louca aventura de nos lançarmos a atravessar uma rua, cruzamento, seja o que for – basta que seja em Roma!

Não preciso dizer que essa foi a palavra que me segiu durante toda a viagem, foi o modo que encontrei para sinalizar a minha querida amiga – Lili, uma doce companheira de viagem, que o nosso processo de maratona pelas  avenidas de Roma estava apenas por começar e que precisavámos dar conta de vencer tudo aquilo, rs.

Como pode imaginar, o ato de atravessar uma rua em Roma requer coragem, quase tanta quanto a dos gladiadores que enfrentam uma arena cheia de feras – é preciso vencer o batalhão de carros e motos que surgem, desordenadamente, de todos os lados, e mais, não esqueçam de associar: um grito frenético (que vem da sua adrenalina que estará em alta) com a bella palavra – atravessiamo. Pensam que exagerei? Pois, sinto dizer-vos que NÃO, essa é a mais pura verdade, aquela que escolhi dividir com vocês depois de todas as belezas e prazeres felizes que vivi em Roma.

E mais uma coisa, a pedido da Elsa, que me fez recordar de uma parte que havia deixado de fora desse meu relato, venho aqui acrescentar algo que não poderia perdurar em silêncio. Quebro meu voto de silêncio, e conto um pouco mais… Numa Roma tão bella, fui compelida a dizer e como poderia deixar de fora – os  italianos são bellos! Me parece que a beleza em Roma nasceu pelos monumentos e propagou-se até os romanos para que os nossos olhos possam agradecer aos deuses uma visita a Roma e como disse a Elsa lá: “uma pessoa não sabe para onde olhar”…rss

Agora, para que os homens não protestem por aqui e me digam que nada foi anunciado  sobre as italianas, também não posso deixar de dizer – as italianas também são LINDAS!

Confesso ainda, que talvez  por conta de toda essa beleza, como bem recordou-me a Elsa, a dificuldade em atravessar a rua tenha sido ainda maior, pois além da preocupação em protegermo-nos dos carros havia um cuidado em contemplar aqueles rostos romanos – lindos, charmosos, radiantes, parecidos saídos de uma longa passarela de Giorgio Armani diretamente para as ruas, cheios de beleza e estilo; confesso ainda mais, como eles são um tanto quanto “barulhentos”, foi um tanto inevitável não escutar algo como – bella ragazza! Agora sim, cumpri boa parte do meu relato sobre Roma! rs

Para finalizar, preciso dizer que Roma reavivou em mim o sentimento de que o mundo comporta mais do que podemos imaginar, que somos fruto de todas essas culturas, senão parte de cada uma delas, independente das nossas origens, pois percebemos que essa multiplicadade de hábitos, de gestos, de modos de vida, em algum momento, de alguma forma, tocará a nós, “conversará” com algo em nós que julguemos perdido – um diálogo muito prazeroso, que pode nos renovar as forças, que nos mantém vivos e que permite que nos encontremos em muitos lugares para perdermos-nos mais uma vez e deixarmo-nos seduzir de novo – se um dia for possível, deixe-se seduzir pelo encanto de Roma!

E como diriam os bellos italianos, se assim o fizer, utilize daquele tempo que só um turista pode ter, e permita-se em Roma o “Bel far niente” – a beleza de não fazer nada! Essa parte eu bem desfrutei deitada num pequeno espaço que me foi conferido por uma fresta de sol,  esculpida ao chão da praça da Basílica de São Pedro. Bem aí , deitada, pude observar todas aquelas pessoas a cruzar aquele pedação de chão, vindas de todos os cantos do mundo para contemplar montes de história, que por alguns instantes foram só minhas,  de modo único, capaturada pelos meus olhos num pleno momento em que eu não fazia nada – apenas contemplação!

p.s.: sinto não ter uma foto que retrate a  arena “gladiadora” do trânsito, mas se isso fosse possível a minha companheira de viagem não estaria viva para registrar o momento, portanto, deixo aqui um dos raros momentos de calmaria nas ruas de Roma, rss 

Estou aqui, apesar de não ser o meu dia de postar no blog, exatamente para suprir a minha ausência de segunda-feira, mas creio que tenho algo interessante para lhes relatar.Essa semana li uma matéria na revista “Caros Amigos”, escrita pela jornalista Mayre Anne Brito, que muito me chamou atenção, certamente porque estive a viver por quase dois anos em Portugal, e apesar de legalizada, pude assistir um pouco mais de perto a atmosfera que paira, por exemplo, para os brasileiros, aqueles que vivem na triste ilegalidade, ao sabor da sorte, distanciando-se muitas vezes do propósito que os faz chegar ali.

 A matéria que pretendo dividir aqui com vocês é nominada – “Dos Indesejáveis Errantes” e noticia a polêmica “Diretriz de Retorno”. O que seria isso? Uma lei que já leva também um sinônimo – “Diretriz de Vergonha”, e para não deixa-los ainda mais curiosos, vamos lá saber do que estamos a falar.

Após três anos de debate, em 18 de junho, reunidos em Estrasburgo, os 27 governos do Parlamento Europeu, através dos seus deputados, com esmagadora maioria, 367 contra o “não” de 206 opositores, votaram a chamada “Diretriz de Retorno”, que contará com dois anos para ser implementada, e  multiplica os motivos para proceder à detenção e conseqüente expulsão dos imigrantes sem documentos, dos estrangeiros que entram ilegalmente para pedir refúgio político ou daqueles que, em primeira instância, não são reconhecidos como exilados e em função dessa decisão os Estados podem viabilizar pacotes específicos de medidas de segurança anti-imigração. E mais, esses  27 governos vão dividir 676 milhões de euros, algo em torno de R$ 1,7 bilhões para financiar a repressão aos imigrantes durante o período 2008 a 2013.

As medidas vão mais além, como se não bastasse, a “Diretriz da Vergonha”, obriga os 19 países restantes da União Européia, que antes disciplinavam um tempo menor, a introduzir em seu sistema penitenciário, detenção forçada de imigrantes por 18 meses, a exemplo, na França, o estrangeiro sem documentos permanecia preso somente 32 dias; na Espanha, 40; em Portugal e na Irlanda, 60 dias. A Alemanha, que não quis perder tempo, com o seu governo social democrata já oficializou a prisão para 18 meses, e mais, agora quase que não existe nenhuma distinção entre o imigrante sem documento que foge da miséria e o refugiado político pobre. Todos ficam presos nos CPT’s à espera da sentença que, em 90% dos casos, agora, será sempre de expulsão por não ter documentos originais.

Diante das medidas previstas, somente o estrangeiro que entra nos países europeus com passaporte regular de turista e dinheiro, poderá apresentar o pedido de asilo político sem ser preso e usufuir da assistência jurídica gratuita. Por outro lado, para os imigrantes ou os refugiados políticos pobres, aqueles que para desembarcarem nas praias européias e enfrentam o mar em navios sobrecarregados até morrerem sufocados, vê-se um futuro ainda mais sombrio.

Em termos gerais, a “Diretriz de Retorno” coloca fora das regras da jurisprudência os 8 milhões de imigrantes sem documentos que vivem na Europa. Assim, aquele que estiver em situação irregular e se negar a deixar o país num prazo entre 07 e 30 dias, recolher-se-á a prisão por um prazo de 06 meses, podendo prorrogar-se a pena por mais 12 meses em casos específicos, inclusive a detenção de menores que não estejam acompanhados dos pais ou responsável, mas ao menos esses terão direito a educação e jogos lúdicos.

E a repercussão de tudo isso tem sido grande, por exemplo, em declaração a  Anistia Internacional divulgou um comunicado dizendo que: ”O texto aprovado pelo Parlamento Europeu não garante o retorno com segurança e dignidade dos imigrantes irregulares a seus países e estabelece um exemplo extremamente ruim para todos os povos”

Bem, passadas todas informações quanto ao objetivo de tal medida, é importante dizer que a matéria que li na revista “Caros Amigos” traz dois enfoques que não podem e nem devem passar despercebidos em meio a tudo isso. Primeiro a Europa, tão preocupada em transmitir ao mundo a sua bandeira de apoiante incondicional dos direitos humanos, aprova uma lei que vai muito a margem de qualquer proteção as diretrizes humanistas, sobretudo porque, apesar da nova medida, ainda assim, há “brechas” no texto que permitem que as autoridades tenham a liberdade de aplicar regras mais amenas a qualquer um, ou seja, de algum modo os privilégios podem ocorrer sem qualquer critério humano, que deveria ser o considerado.

Há um paradoxo em tudo isso, porque a Europa continua a importar conhecimento, buscando profissionais qualificados de países pobres e em desenvolvimento? Será que o melhor não seria reverter verba tão alta, que vai ser utilizada a mandar de volta esses imigrantes, para educação destes em alto nível ? Estão fora dos seus países de origem há anos, pátria que nem mais a eles pertence e que um dia sairam porque não queriam pertencer, pois assim poderiam encontrar, por fim, um lugar ao sol, e qual a razão de não colaborar para permitir esse possível lugar? A opção escolhida parece ser sempre aquela de olhar essa gente com desprezo e preconceito, dificultando-lhes a vida, trantando-os de modo desigual por razão de cor, de pele, sotaque, credo ou qualquer outra diferença que lhes pareça dar na vista, pois os imigrantes “pesam” na atmosfera européia.

Outro ângulo dessa problemática toda e que também não pode ser desprezado é a parcela de responsabilidade desses imigrantes- o comportamento dessas pessoas lá fora, e me fez lembrar exatamente o que eu questionava e pensava, por exemplo, dos brasileiros que eu via em Portugal, assim como em outros países que estive, e que diz respeito ao modo, simplesmente, do “ser” estrangeiro.

Sem dúvida que a abordagem da jornalista Mayre Anne Brito é algo que merece aplausos, pois temos também de denunciar a postura desses brasileiros que mal pisam o continente europeu e reclamam do modo de “ser fechado” europeu, do frio, do povo que não sorri, da comida que lhes parece estranha, do idioma difícil de aprender, das mulheres que não depilam, em fim…as queixas são muitas, e assim, deixam-se dominar, também, pelos seus próprios preconceitos, não se deixam inserir nesse novo mundo, nessa nova cultura, que em contra-partida, para os que querem sair da pequenez dos seus mundos, tem muito a ensinar. Com essa postura esses imigrantes, sem dúvida, vão tornando-se cada vez mais marginais, sobretudo reféns dos seus próprios conceitos e preconceitos. E como isso acontece?

É verdade que os brasileiros se metem nas inúmeras comunidades verde-amarelo, passam a frequentar apenas bares e restaurantes brasileiros, vivem nos seus guetos, formados por uma imensa massa que, estando fora, vivem para dentro, e com isso esquecessem de viver o mundo lá fora, num movimento anti e que  ainda contam hoje com a ajuda do orkut, terreno fértil para a imaginação, participando de comunidades e afins, espaço que usam  para queixarem-se da vida lá fora. Falam mal muitas vezes dos países que estão a viver, que por vezes, com a ajuda social do governos até os sustenta.

Como também é citado na matéria, e também reservo-me o direito de informar aqui para vocês, na Inglaterra vivem mais de 160 mil brasileiros, estimando-se que mais de 50% detes estejam em situação ilegal, boa parte a sobreviver de faxina, e muitos dos graduados no Brasil, em situação um pouco melhor, trabalham como garçons e garçonetes, pois ao menos conseguem falar bem a língua e ganham salários melhores.

Assim, muitas das vezes também nos perguntamos – vale a pena passar por tudo isso? A resposta talvez nem eles mesmo saibam dizer… o propósito quando saem de sua pátria, a maoria das vezes é um só – o sonho de uma vida melhor! Dependendo do ponto de vista e do que por lá possam encontrar, indagamos: melhor em que?

Muito tem de ser repensado, mas de parte a parte, as fragilidades são muitas e as posturas também, e continuamos a conjecturar entre nós o que vem primeiro e torna negro todo esse percurso – será o preconceito daqueles que recebem ou a inabilidade de adaptação daqueles que lá chegam?  As responsabilidades andam de mãos dadas, e medidas como essa da “Diretrizes de Retorno” servem, e muito, para aumentar toda essa bola de neve que faz de conquistas vistas nos direitos humanos, retrocessos para a nossa frágil humanidade.