A filha do Caníbal

Maio 16, 2008

 

 

O romance de Rosa Montero escrito em 1997 é um de seus livros premiados, ganhou o Prêmio Primavera de Narrativa, além de ter sido adaptado para o cinema pelo mexicano Antonio Serrano, om o título em português – “Aos olhos de uma mulher” não é um livro que me levaria a comprar pelo título, mas como estamos a falar de Rosa Montero, aquela que comanda a nau da narrativa, não é caso de perder tempo, e como não poderia deixar de ser a surpresa foi encantadora.

 

A narrativa é desenvolvida e Lucía Romero, escritora de livros infantis, filha de um canibal e mulher de um sequestrado, vértice de um triângulo composto por ela, Adrian e Félix, companheiros que surgiram em sua vida do nada e se tornaram a sua “família”, inicia uma surpreendente aventura a procura do marido sequestrado, quando pelo meio desse caminho também encontra a si mesma, mas o livro é marcado pelo suspense cujas peripécias resultam em uma viagem ao ápice do romance, na busca de um sentido para a própria vida.

 

Há uma mistura de lirismo e erotismo, comédia e drama, tragédia e humor, além de fantasia e realidade que se misturam, e mais, em meio a tudo isso há ainda um capítulo antológico, que valeria a pena uma distribuição para todas as mulheres do mundo, é quando ela reflete sobre a paixão de uma mulher madura por um jovem bem mais novo.

O humor irônico e sarcastico é um traço marcante da prosa dessa espanhola fantástica – Rosa Montero, que no livro A filha do Canibal retrata o caminho da juventude a maturidade, a idade que delimita a fronteira do nosso mundo e o momento onde podemos decifrar o que somos, através de um relato despretensioso de uma mulher em busca de realização pessoal.

 

Deixo-vos aqui a minha dica! Até segunda-feira e bom final de semana com o grande prazer da leitura que cura muitos dos males do mundo. Ah, uma dica de mais um dos prazeres de Rosa Montero – A Louca da Casa, simplesmente, imperdível!!

 

 

 

 

 

O dr. das armas

Fevereiro 19, 2008

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Para muitos, o nome Hugh Laurie é sinónimo de um médico simpático, bem-disposto, altruísta, IMTJ, que se dá pelo nome de Dr. Gregory House, e que pode ser visto em Portugal na TVI.

O que alguns não saberão é que este Sr., para além de fazer um sotaque americano excelente, é também escritor. Editado em Portugal com o nome de O traficante de armas, este livro é um retorcido conto de espiões, com espírito humorado e inteligente, digno de ser lido nas cortes de Charles, Príncipe de Gales.

Neste livro, Laurie conta as peripécias de Thomas Lang, um ex-polícia que se tornou mercenário. Mas não estamos perante um mercenário qualquer. Thomas Lang é um homem de escrúpulos, que perante a oferta de de 100 mil dólares para assassinar Alexandre Woolf, não só a recusa, como o tenta avisar de que o pretendem matar. A partir deste momento, Thomas Lang entra numa espiral de loucura, na qual não faltam mentiras, intrigas e mulheres fatais.

Laurie desenrola a trama do ponto de vista de Thomas Lang, personagem com uma visão cáustica do mundo, descrevendo assim as situações, já de si invulgares, de uma forma ainda mais distorcida e peculiar.

O traficante de armas, editado em Portugal pela Caderno, é uma agradável surpresa, ou talvez não, que, quase certo, agradará a muitos de vós.

Rumo aos Livros

Fevereiro 13, 2008

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Não posso dizer que sou saudosista ou uma expectante acérrima no futuro. Direi que me considero um meio-termo: vivo o presente preparando o futuro.
Mas confesso que me fascina a história; das pessoas, das nações, do planeta, do universo, das causas das coisas. E quem melhor do que os livros passa esse testemunho de geração em geração? Ninguém. São esses eternos companheiros que nos unem, a nós e aos leitores deste blog.Gosto de mergulhar no mundo dos livros, nas inúmeras prateleiras que enchem o ambiente de cor, aquele cheiro a papel e a tinta já gasta, tocar nas folhas amarelecidas pelo tempo. Sim! Estou a falar nos alfarrabistas. Numa tarde de Janeiro, levei a Andréa, uma das autoras do Taxicidade, a conhecer alfarrabistas portuenses.
Foi aí que descobrir uma deliciosa colecção juvenil sobre grandes temas e personalidades da história mundial com edição de 1958. Os motes são diversos:
História do Dinheiro, A Revolução Francesa, Descobrimentos Henriquinos, Joana d´Arc, Fernão Mendes Pinto, entre muitos outros.
Eu escolhi um sobre Cristóvão Colombo. É verdade que as imagens a preto e branca, não têm o aspecto apelativo que hoje se torna essencial neste tipo de publicação. Mas, o texto literário possui candura, as situações ficcionais apresentadas são apelativas, afectuosas e reflectem bem os valores morais da época.

Para a história fica em aberto a grande dúvida; se Cristóvão Colombo era Genovês, Português ou Espanhol.
Este livro defende a naturalidade de Colombo em Génova, descreve o seu primeiro embarque a bordo no “Bonnie Bell”, as imposições paternais para continuar com a arte da família; tecelão.
Após a fuga do reino de Portugal com o seu filho Diogo, tinha como destino a coroa francesa. Mas o inesperado acontece, um encontro casual com o Frei Juan Pérez, no mosteiro de La Rábida muda-lhe os planos. Colombo tem oportunidade de mostrar aos reis Católicos de Espanha a sua intenção de difícil entendimento para alguns: queria chegar ao Oriente pelo Ocidente. Complicado?
O irmão Bartolomeu, desenhador de mapas dizia-lhe:
– Mas é uma ideia tão absurda! Posso provar-te num mapa. A Índia fica para o Oriente. Só dobrando o continente Africano se pode lá chegar. Não há outra alternativa.
– Pensas que não? Pergunta Cristóvão………E depois? Toda a gente sabe que Cristóvão Colombo chegou às Antilhas, na América Central e não à Índia.
Mas as desventuras e aventuras deste herói ao sabor de tempestades e bons rumos, vale a pena ler neste livro de Nina Brown Baker, da Editora Civilização.

Boas Leituras!

O Passado

Dezembro 16, 2007

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Esse é o quarto livro do argentino Alan Pauls, premiado, que se tornou filme nas mãos de Babenco, e sem dúvida com razão de assim o ser. Rímini e Sofia vivem durante doze anos um amor tão perfeito que, para ser completo, precisa incluir, paradoxalmente, o momento da separação. O problema vem depois: como lidar com o que ficou para trás? O que fazer com as centenas de fotos – momentos congelados, mas ainda pulsantes, de uma história viva – que jazem em duas grandes caixas de papelão.


“Ficou para trás” é força de expressão, e das mais inadequadas no caso. Pois em “O passado” o passado não passa. Não é o remoto território proustiano a ser reconquistado com o poder da memória, mas o terreno de areia movediça em que se corre o risco de pisar a cada instante. É um pesadelo recorrente, uma corte de fantasmas, uma dívida irremissível.


Ao se transformar em “passado”, o afeto não desaparece, mas simplesmente muda de sinal: a ternura desanda em ressentimento, o que era doce se azeda, a pulsão erótica vira impulso de morte. Esse é o mundo em que o Rímini pós-Sofia tem que aprender a viver..


A leitura surge como uma grande valsa, é como montar e desmontar peças de um amor que se repete muitas e muitas vezes numa busca incessante do amor que não se cala, mas não se perfaz em si mesmo. A linguagem é extremamente metafórica, emblemática, sedutora, apaixonante. A sensação é como assistir o amor em muitas das suas assustadoras fases, fazendo-se e desfazendo-se, caindo e levantando, sem nos darmos pelo ponto de partida ou de chegada. A leitura é, ou melhor, foi, para mim, fascinante.


Vale a pena ler o livro, muito mais do que o filme, pois, ao meu ver, ainda não foi dessa vez que Babenco conseguiu demonstrar que filmes podem ser tão envolventes como o livro que os deu origem.

Confira a entrevista com o Babenco

Todas as luzes do mundo

Dezembro 5, 2007

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Ainda não tinha experimentado. Talvez pela arrogância cultural europeia, talvez por manifesta ignorância, Amin Maalouf ainda não era um nome que chamasse por mim de forma a que eu dissesse, estendendo a mão para a prateleira, “agora é que eu te vou ler”. Dessa forma, demorei cerca de dois anos a pegar em “Os Jardins de Luz”, do autor libanês, para descobrir nesse livro uma agradável temporada de leitura. Demorei uma semana a lê-lo, o que é rápido para mim – e eu sou assim, gosto de saborear as letras aos bocadinhos. Encontrei nas palavras de Maalouf uma fluência bíblica, sem o peso do livro sagrado do cristianismo. É-nos contada a história de Mani, um profeta nascido cerca de 200 anos depois de Cristo, a quem chamam “filho de Babel”, cujo papel é reunir numa religião a tolerância e o respeito por todas as outras. Claro está que numa época de expansão do império romano, a sua tarefa não é fácil. A História diz-nos precisamente isso. Mani deu origem, por distorção do seu nome, ao termo “maniqueísmo”. E Maalouf faz-nos pensar que talvez o mundo tenha andado para trás em tolerância e civilização.