O LIVRO
    Falar sobre o filme Budapeste - roteiro foi idealizado por Rita Buzzar e, por via de consequência, falar de um livro do Chico Buarque, adaptado ao cinema e cuja estréia ocorreu no Brasil no último dia 22, trazendo para as telas o longa luso-húngaro-brasileiro, dirigido por Walter Carvalho, consagrado fotógrafo brasileiro, que assina o seu primeiro trabalho sozinho, talvez seja uma grande ousadia minha, mas tomarei essa liberdade porque, tratando-se de algo que clama por Chico Buarque, também clama por minha atenção, aquela de leitora assídua e expectadora fervorosa da sua poesia e existência.

    Essa é a minha visão apaixonada por um poeta que no meu entender não precisa pedir “licença” aos críticos para escrever, pois, ainda que como escritor, a meu ver, ele seja fragmentado - não produza obras com tamanha fluência poética como as letras das suas músicas - ele já conquistou no mundo o lugar de um imortal, daquele homem único por natureza, cuja a obra vive no hoje e sempre viverá no amanhã porque, simplesmente, tem vida própria, retrata o sentimento do homem: a vida, a prosa, o verso - tudo de uma maneira tal que não é necessário ser um intelectual e/ou poeta para compreendê-la, sentir já é o suficiente, e para mim é mais do que entendê-la - sentimos Chico Buarque!

    Com essa minha declaração de amor por sua obra, creio que posso adentrar, de início, não no filme propriamente dito, que para mim não brilhou nas telas apesar de/e sendo fruto de Chico Buarque, mas no livro..
    É sabido, penso eu, que não é nada fácil narrar como escritor quando se é poeta, pois perde-se muito da narrativa pela visão poética e adentra-se num mundo da imaginação que, possivelmente, o público não consegue captar.
    Talvez o o “pecado” do escritor, no exato momento da ficção, seja trazer à tona o poeta sem descortinar na narrativa a mensagem que deveria chegar ao leitor. Assim, sinto que o Chico escritor não comunica como comunica a sua poesia musical. E o que seria para mim o ato de comunicar? - trazer à tona emoção, a inventividade, que não necessariamente carece ser poética, mas precisamente, clama por ser compreensível - a narração fluente. Os livros do Chico não me comunicam!
    Para mim foi assim com o Estorvo (1991) e Benjamim (1995), e agora, confirmo, sobretudo depois de ver o filme adpatado ao cinema - Budapeste. Nem um bom livro e nem como um bom filme! Essa é a minha opinião, respeitando a todos aqueles que encontrem no grande poeta também um grande escritor, e que eu, confesso, até os invejo por isso, pois do jeito que admiro o Chico, também gostaria de encontrar acolhida nos seus livros.
    O FILME

    Agora, para quem pretende saber um pouco do que há no longa, posso contar que é uma estória que se passa no Rio de Janeiro e em Budapeste, e, usando as declarações do próprio diretor, que foram apenas a respeito da equipe, mas que estendo-as ao próprio filme - “uma verdadeira Torre de Babel". "Torre" ainda mais curiosa quando no emaranhado da sua narrativa, deparamo-nos com uma breve apariação do Chico em cena apenas no final do filme, a falar umas 20 palavras em húngaro, o que não foge da metade do longa - que é falada nesta mesma língua e que, segundo um ditado - é a única língua que até o diabo respeita.

    A idéia central do filme, em torno do seu protagonista principal, vivido no filme pelo ator Leonardo Medeiros - é a vida do “gost-writer”, ou seja, um especialista em escrever livros para terceiros; aquele que vive entre duas cidades, duas mulheres e múltiplos conflitos internos – viver a sombra, como autor anônimo ou revelar-se para o mundo como o autor principal que assume as suas obras como tal? Mas toda a sua “complicação pessoal” vai muito além de tudo isso, o conflito é interno, é moral, é unipessoal.
    Boa parte da história é falada em húngaro e, por curiosidade, em uma das entrevistas do ator (que faz o papel do José Costa) quando indagado de como fez para dominar a língua, disse de modo sincero: "eu não dominei". "Com duas semanas de aula, vi que seria impossível aprender. O jeito foi mergulhar nas falas do meu personagem".
    Bem, podemos dizer que, no mínimo, foi uma direção de bravura - gravar entre o Rio e Budapeste, diante de uma língua jamais dominada e uma equipe tão eclética, que buscava a própria arte de comunicar para fazer chegar as telas algo comunicável – não foi tarefa fácil!
    E contando uma curiosidae, uma das cenas que levou um ponto alto das filmagens, e, sobretudo da emoção do Chico, que encantou-se com o que viu (segundo fala do autor em entrevistas), é a cena da gigantesca estátua do Lenin - pai da Revolução Russa, desmontada, descendo o Danúbio em cima de um barco ( que levou um dia inteiro a ser filmada) e mais, custou a pequena fábula de 26 mil euros. A sensação que a cena nos deixa, ao menos que senti, foi de uma cidade “libertada” do regime comunista, do Lenin gigantesco, atravessando o Danúbio, como em marcha do passado que bateu em retirada para deixar passar o presente.
    Para concluir, penso que talvez o que viveu Chico na sua imaginação para criar a “Budapeste” que vemos no filme, seja algo que a nossa percepção, de meros espectadores, não consiga alcançar, mas posso dizer, sem sombra de dúvida, que a curiosidade de muitos ele continuará a atrair porque o seu nome - Chico Buarque de Holanda, é um daqueles raros, que apenas por existir e presentear ao mundo a sua arte, não necessita de muito mais para seguir sendo, pois ele, de fato - já é!
    Ainda que não produza mais a sua música, que resolva emaranhar-se no caminho obscuro do mundo dos livros, jamais deixará de ser, pois o seu legado é o retrato€ da existência de um homem único, e assim, pelo sim e pelo não - vi Budapeste, em referência ao poeta, sem pensar no que lá encontraria do escritor e recomendo a todos o mesmo.
    Caso vejam o filme, sugiro que assistam com generosidade, sem guardar maiores expectativas, com a mesma generosidade que me peguei praticando quando me pus a “criticar” por aqui e por aí o Budapeste.
    De melhor, fiquemos com a cidade que é tão linda e nem parece que foi destruída sucessivas vezes durante sua história e reconstruída na Idade Média com o nome de Peste, que em eslavo significa “ruína” e que com o tempo, em virtude de uma outra cidade que surgiu ao redor do castelo e que foi chamada de Buda, ou “forte”, na língua eslava, as duas cidades se uniram e formaram - Budapeste.

    Eis o que tenho de melhor a lhes contar sobre o livro: aguçou a minha curiosidade sobre a cidade e sobre a razão de ser desse nome tão sonoro: BUDAPESTE!

O Mistério do Samba

Setembro 29, 2008

 

 

Dirigido por Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor, a união resultou numa num projeto bem interessante e original – rememorar na tela dos cinemas as histórias peculiares da Velha Guarda da Portela, uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro, formada por antigos integrantes da escola de samba Portela. O conjunto original da Velha Guarda era composto por Ventura, Aniceto, Alberto Lonato, Francisco Santana, Antônio Rufino dos Reis, Mijinha, Manacea, Alvaiade, Alcides Dias Lopes, Armando Santos e Antônio Caetano. 

 

O documentário fez parte da seleção oficial da 61ª edição do Festival Internacional de Cannes, conta em 88 minutos o cotidiano, a história de raiz da comunidade carnavalesca da Velha Guarda da Portela, rememorando sambas que estavam na história, praticamente esquecidos, garimpados através do filme na memória de pessoas que navegaram ao longo de todos os esses anos como um arquivo vivo do que representa um referencial de vida tipicamente brasileiro, genuinamente carioca.

 

À frente da pesquisa musical contamos com o encanto e talento de Marisa Monte, uma das mais importantes cantoras e compositoras da MPB contemporânea, que há 10 anos atrás teve a idéia do filme quando começou a resgatar junto a Velha Guarda da Portela os sambas esquecidos. O documentário assim, é o resultado da sua extensa pesquisa musical, que recupera composições dos anos 40 e 50 ainda não gravadas, muitas delas gravadas em 1999 no cd da cantora de título Tudo Azul.

 

Algumas músicas que aparecem no documentário já são conhecidas do público – como Esta Melodia, que Marisa Monte gravou no CD Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão, por sugestão de Paulinho da Viola. Apesar de essa música ter um significado especial, a cantora declara não ter uma composição preferida e diz: “Esses sambas são fonte de sabedoria, de filosofia de vida. A gente aprende muito com as músicas. A experiência de vida que esse compositores passam pra gente por meio das canções traduz muito o que estamos querendo dizer num determinado momento e não sabemos como. É uma fonte de auto-conhecimento e isso ajuda a viver. ” E diz mais, que para ela “a certeza de que a vida seria melhor com esses sambas”

 

O documentário revela a poesia, a musicalidade e a intimidade de sambistas, senhores e senhoras, desvendadas por meio do cotidiano simples de um pequeno bairro da Zona Norte do Rio – Oswaldo Cruz, com o objetivo de recuperar canções perdidas. É a Marisa Monte que também conduz a maioria das entrevistas gravadas na casa dos sambistas e nas rodas de samba e na sua conversa com Paulinho da Viola vai revelando muito das suas descobertas. No transcorrer do filme os integrantes da Velha Guarda da Portela vão contando histórias que mesclam vida particular com a vida da agremiação, alegria e nostalgia daquele passado que não volta mais.

 

Os depoimentos dos sambistas que dedicaram a sua vida ao samba comovem. Pessoas simples, cheias de sentimentos, dotadas de amor pela vida e pelo samba. Nos vemos ali, como cada um deles, pessoas comuns, dotadas de sensibilidade, saudosos de tudo que já foi vivido e na ânsia de saber o que ainda há por viver. Num dos depoimentos, Argemiro, sambista simples, cujo documentário é dedicado a ele, já que faleceu antes mesmo de chegar as telas dos cinemas, confirmamos que independente de classe social a dor do amor foi e continuará sendo o grande combustível de inspiração do compositor da música brasileira, é o momento em que o homem “celebra” o sofrimento através da música como forma de resgatar o amor perdido, por vezes proibido, por vez apenas apenas esquecido, e na fala de Argemiro “o compositor passeia na imaginação.

 

Numas das conversas entre Marisa Monte e Paulinho da Viola, que me chamou atenção, esse sambista declara que o homem necessita saber a origem das coisas, e com o samba não seria diferente, o que é uma verdade, pois são nesses resgaste que podemos entender quais as motivações ideológicas de cada época. É a importância desse retorno as raízes do samba da Velha da Guarda da Portela, quiçá na tentativa de entender como o samba movimentou e movimenta até hoje a vida das pessoas, num ritmo tão forte, esfuziante, que sentimos uma das identidades do Brasil – o samba ; referência nacional propagada pelo mundo afora.

 

Para mim o documentário disse muito, quem sabe também diga algo para você – e viva a alegria do samba!

 

 

 

 

 

 

Ensaio Sobre a Cegueira

Setembro 15, 2008

 

Quando soube que o Fernando Meireles iria transpôr para a tela a obra de José Saramago, “Ensaio da Cegueira, lembrei imeditamente o que eu já havia lido quanto a opinião do autor sobre a adaptação da sua obra para o cinema, afirmou que: “o cinema destrói a imaginação”. Concordo com isso, embora as vezes pense que há algumas poucas exceções em que o cinema oferece um “norte” para algumas mentes que vagueiam sem percepção.

Ainda tinha na minha memória tudo que imaginei ao ler o livro, todas as inquietações, repugnâncias e incertezas que a ficção me causou, parecia que havia sido ontem. Hoje, após assistir o filme, aquelas imagens que levava comigo já se perderam, pois com as imagens vistas na tela, tudo que criei na minha mente pouco a pouco foi substituído pela leitura do diretor, que trouxe a sua “realidade” filmada e que ao ver o filme submetemo-nos a ela.

Por isso, ratifico a minha idéia – não vale a pena assistir o filme quando imagina-se tanto uma obra lida. Permaneçamos fiel a essa nossa imaginação, creop que ela sempre poderá ser melhor.

Foi em 1997 que aconteceu a primeira tentativa de Fernando Meirelles em comprar os direitos da obra do autor português e falhou. Naquela época Saramago havia dito que não quis porque “não havia muito sentido em transformar em imagens uma história sobre a cegueira“.

 

Bem, revista a decisão, foi uma produtora canadense (Rhombus Media) em co-produção com o Brasil, o Reino Unido (Potboiler Productions) e o Japão (Bee Vine Pictures) que escolheu o nosso brasileiro – Fernando Meireles, para dirigir o filme, e que no entender de Saramago assim o filme “não cairia nas mãos de um grande estúdio de Hollywood”. Depois de todo o tempo de espera, é nesse mês de setembro, que está nos chegando as telas, em circuito nacional por todo o Brasil, o esperado filme “Ensaio da Cegueira”, lembrando que desde maio deste ano o filme teve antiestreia mundial na abertura do Festival de Cinema de Cannes.

A dificuldade de transposição do livro para as telas é exatamente pelo que o livro nos conta: a cegueira incurável e inexplicável, que começa em um homem que está a conduzir o seu carro e, lentamente, se espalha pelo país como uma praga, levando pessoas a um confinamento, cujo convívio os leva a exaustão trazendo valores e sentidos mais excrecentes do ser humano. É uma sociedade desmoronando frente a perda de um sentido vital – a visão!

Perde-se tudo que poderia ser considerado como civilização.

Afinal, qual é a nossa cegueira maior como indivíduos que vivem em coletividade, quais são os valores mais sublimes que colocamos em cheque? O que há de mais primitivo nos homens? O que é ser bom ou mal? Será que poderíamos lembrar aqui de Aristóteles, em especial sua obra Ética a Nicômacos, quando nos mostra a bipartição da alma em excelência moral e excelência intelectual, sendo a primeira a parte irracional da alma e a segunda, a racional, entendendo que apenas a conjugação das duas excelências leva-nos à ética. E será que nos dias de hoje nos, seres humanos, ainda conservamos em nós a ética – a grande virtude, ou somos meros mortais a usar apenas dos instintos da sobrevivência?

Para quem não leu o livro – vale o filme. Para quem o leu – não recomendo que assista! Essa é apenas a minha opinião!

 

De volta ao nosso blog depois dessas duas semanas de férias, retorno aproveitando para cumprir a promessa feita quanto a revelação do filme, fruto da inspiração que me levou ao tema dos “Padrões Sociais”. Trata-se do filme sueco, que aqui no Brasil levou o título “A vida começa aos 40”, cujo título original é “Schwedisch für Fortgeschrittene”, ou aindaHeartbreak Hotel”.

Bem, vindo da Suécia o diretor Colin Nutley pode ser visto como um diretor de inusitada caminhada, pois firma-se como um dos mais importantes realizadores contemporâneos do país escandinavo mesmo sem falar sueco fluente, pois é um britânico radicado na Suécia. Há ainda uma curiosidade maior na técnica adotada por Nutlley, um método de trabalho simples, no qual o elenco só tem conhecimento sobre como será a cena três minutos antes da mesma ser rodada, quando o diretor discute com o elenco como seria a reação deles àquela situação na vida real e todo o restante vai por conta dos atores. Assim, vale observar através desse filme quais são os pontos positivos e negativos do tal método.

No mais, o dito é que Nutley já foi procurado por Hollywood, mas até o momento tem resistido a “venda da sua alma”, já que seu gosto é mesmo  trabalhar na Suécia e fazer os filmes a seu modo, tão peculiar, com pouco de roteiro e muito de improviso e que, a meu ver, faz uma boa diferença quanto ao que estamos mais acostumados a ver nos cinemas.

Gosto, particularmente, desse improviso, que nesse filme, nos rende muitas gargalhadas. Divirtam-se vocês também, não deixem de assistir ao improviso sueco, se assim podemos dizer, que, acredito eu, os levará a pensar nos tais padrões sociais e cada um terá o seu – ponto de vista! Vale a reflexão divertida e emergente, mas valem ainda mais as risadas inesperadas. O filme é, sobretudo, muito divertido!

A estória centra-se numa médica ginecologista  Elisabeth Staf, que indo ao casamento do filho, como se fosse um batizado enfadonho e meramente obrigatório, estaciona o carro as pressas em um local proibido e segue em direção à igreja, mas a pressa não a impede de argumentar com a fiscal de trânsito – Gudrun. para evitar a multa, mas o seu vocabulário com fiscal transforma-se num bate-boca com direito a tapa e xingamentos, e é assim as protagonistas do filme são logo de início apresentadas.

O encontro dessas duas personagens, Elizabeth – a médica, e Gudrun – fiscal de trânsito, que, na verdade, aparentam bem mais que 40 anos, não termina por aí. As duas, de personalidades opostas, se encontram novamente numa consulta ginecológica, situação ainda mais inusitada, que proporciona muitos risos no cinema, e a partir daí a desavença inicial será esquecida em prol de uma amizade avassaladora, totalmente irresistível, do tipo que não acontece muitas vezes, ainda mais para duas mulheres acima dos 40 anos, numa cidade fria como a Suécia. Além da idade, as personagens descobrem muitas coisas em comum, e tudo isso é revelado na animada pista de dança do  Heartbreak Hotel, discoteca que passam a frequentar juntas dissipando a solidão das geladas noites suecas.

O tema não necessita de desenvolvimento mais profundo, pois os diálogos e situações em que as duas se metem mostra com clareza qual a proposta do filme, e vale questionar o padrão social que as duas estão a romper. Vale observar o que seria o nosso conceito do permissível naquela idade e do desejoso, sem que haja uma necesidade de julgamento interno ou permissão para tanto. Fico com a felicidade! Em prol desta, presumo que vale tudo, e o que os outros vão pensar, isso parece sem importância tamanha a grandiosidade do sentimento em questão – a vida clama por ser vivida e para ela não há idade!

Agora corram para assistir e acredito que terão direito a boas risadas!

 

Um dos diretores mais festejados da atualidade, Wong Kar-Wai, que vem acontecendo nas estréias esperadas no Festival de Cannes, em “My Blueberry Nights”, no Brasil com o título de “Um Beijo Roubado”, não deixa de seguir a regra, e mesmo não arrebatando os corações dos seus espectadores como em “Felizes Juntos”, “Amor a Flor da Pele” e ainda “2046”, sempre é clara a sua opção pelo amor como tema, em um tom extremamente sensorial, com contrastes marcantes, feitos de sons e cores fortes e realçadas em “My Blueberry Nights” com letras das vitrines de um bar e os reflexos nos capôs de carros, parece a sua versão ocidental do retrô ao modo chinês, no seu primeiro longa falado todo em inglês.

 

Por ser um diretor estrangeiro, sem interferências de Hollywood, traça um verdadeiro balé de imagens, valendo-se ainda da bela trilha sonora do habitual colaborador de Win Wenders, Ry Cooder. O estilo de  Wai é  próprio em audio e movimentos marcados de imagem refuscantes, que nesse filme encontra nas janelas, vidros e nos neons da Grande Maçã um correlato perfeito para sua idéia.

 

Em My Blueberry Nights vemos uma entrega melancólica que nasce de um desamor, no qual a personagem Elizabeth (Norah Jones – que nos prova que é bem melhor continuar na música do que nas telas de cinema) é uma jovem que após o término de um caso de amor, onde ela parece ser a única machucada, procura abrigo onde possa ancorar suas mágoas deixando a chave da casa, que marca o “luto” desse amor no bar de Jeremy (Jude Law), que “coleciona” tantas outras chaves em sigificados diversos como aquela, também é um solitário que recebe a dor abstrata de Elizabeth e desse encontro, em contra-partida, fica um sabor da torta de mirtilo (a ‘blueberry’ do título original) especialidade de Jeremy.  

 

O filme vai percorrendo a trajetória de Elizabeth que pefere sumir pelo mundo, partindo de New York, cujos dias e os milhares de quilomêtros percorridos são marcados pelo filme a fim de retratar a busca de si mesma, aquela que ela julgava perdida com o fim da relação.

 

No elenco, no desenrolar dessa viagem aparecem atores do nível de David Strathairn, Rachel Weisz  e Natalie Portman em interpretações que valem a nossa atenção. Fica claro com o trabalho de  Wai que ele é um cineasta de obsessões e assim, transfere essa paixão aos seus personagens, apresentando tipos incorrigíveis, condenados a amar, e no desenvolver do enredo é assim que Elizabeth aparece, com o seu próprio desamor refletido em estórias de outras pessoas e ela passa a ser mera coadjuvante daqueles quadros pintados por Wai, em dialogos que sugerem possibilidades diversas de visão do seu público.

  

Para alguns pode ser que não estejam diante de um dos grandes filmes do ano, mas a meu ver não é por isso que podemos deixar de conferi-lo,  pois apesar da falta de carisma e talento de Norah Jones, como já dito, que não se comunica com o seu público, vale a doçura do beijo para o final do filme, e se contei muito por aqui, permitam-me, não encontrei outra forma de os fazer perceber que Wong Kar-Wai, apesar de ainda “estreante”, é talentoso e consegue comunicar o tal beijo com pano para muitas interpretações e para quem gosta de uma carga dramática ao amor, na atualidade, ele consegue passar o seu peso…

 

 

Ah, já estava a esquecer de algo, o beijo é o melhor dos sabores que saímos do cinema, e não digam que Wai não conseguiu arrancar um forte desejo na platéia – qual será? rss  Até a próxima segunda, ou quem sabe, antes disso! See you!

 

 

Escutei em algum lugar que “Once” é um daqueles “contos de fada urbano”. Depois de assistir o filme tenho certeza que essa afirmação é verdadeira, saimos do cinema com a sensação de não querer entrar na realidade da vida, ao menos não tão rapidamente, pois, para aqueles que são encantados por música, como eu, vale a apresentação musical.

 

Apesar de ser um filme comum, não é para um público comum, mas para os amantes da música, pois os seus personagens concentram a atuação na relação com a música que é desenvolvida por todo o filme.

 

E mais, para aqueles que ficaram, como eu, por horas a acompanhar a cerimônia do Oscar na edição de 2008, ali tomaram conhecimento da vitória da canção “Falling Slowly”, despertaram a curiosidade para o casal que compôs a música e que apareceu na cerimônia levantando a estueta e levando-a para casa, vale a revelação dos atores desconhecidos, que fazem entre suas vozes um lindo espétaculo.

 

 

Ele é Glen Hansard, o ator principal do filme, irlandês, de 37 anos, com o seu violão rachado e ela, Markéta Irglová, da República Tcheca com de apenas 19 anos, com o seu piano, convidada por ele a participar do filme que foi rodado em 17 dias nas ruas de Dublin, na Irlanda, com orçamento de 150. 000,00 dólares.

 

 

O filme é dirigido por John Carney, valendo como curiosidade ser essa um história parcialmente autobiográfica – baseada em alguns fatos da vida do diretor. E outra curiosidade é que os dois músicos-atores têm um sintonia que não é do acaso, eles já fizeram um álbum juntos, e no filme, embora sem experiência como atores, os dois interpretam os personagens com muita naturalidade, o que dá mais força ao filme e a trilha sonora é inteiramente realizada pela dupla, com boas canções como: “When Your Mind Made Up” e “Lies”, além da vencedora do Oscar – “Falling Slowly”.

 

No filme Glen Hansard é um talentoso músico, que ganha a vida com seu violão nas ruas de Dublin e ajuda o pai em uma loja de aspiradores de pó e Markéta Irglová, que anda pelas mesmas ruas, vendendo rosas para sustentar sua família e tem como hobby o piano.

 

O cenário do encontro entre Glen e Markéta é o das frias ruas de Dublin, aonde eles se encontram e a paixão pela música permite que vivam uma experiência marcante, com uma história de amor a nascer, embalada por muitas canções que começam por percorrem o sentimento deles, mas há uma realização em tudo isso, pois eles, juntamente com alguns músicos de rua que conhecem ao acaso, após um empréstimo tomado junto a um banco, partem para um estúdio e registram as canções durante um final de semana, nascendo ali uma banda talentosa, cujas músicas são marcadas por letras de sentimentos desiludidos, amores perdidos, mas há também esperança de dias melhores nessa jornada sentimental que a música retrata.

 

É importante saber que Glen Hansard, já fez parte de outra grande produção irlandesa sobre música – o classico The Commitments, de Alan Parker – e sua banda, The Frames, tem grande repercussão na Irlanda e o diretor de “Once” – John Carney, já foi baixista da banda.

 

Vale conferir “ONCE”, e apesar de em dados momentos parecer um filme vazio, isso não é verdade, há uma poesia que acabamos por encontra-la mais a fundo, na trilha sonora maravilhosa que faz com que todo o resto seja esquecido, pois a meu ver, as músicas que chegam aos nossos ouvidos, embalada com as imagens que retratam o fluir do filme, é, de fato, o ponto alto para essa farta “oferta” musical.

 

Este pa�s não é para velhos

“Este país não é para velhos” (“No Country for old men“, no original), não é um filme para todos. Tendo sido o grande vencedor dos Óscares deste ano, este brilhante filme dos irmãos Cohen transporta-nos para um jogo de gato e rato em passo lento, mas que nos cola ao ecrã sem vontade de pestanejar.

Javier Bardem, vencedor do Óscar para melhor actor secundário, faz o papel do caçador com fortes problemas mentais, ou, pelo menos, com escolhas morais que não encaixam muito bem nos normais conceitos de vivência em sociedade. As suas atitudes, de uma naturalidade e calma sobre-humanas, deixam o espectador num limbo de incerteza inquietante, e perante as quais dificilmente alguém ficará indiferente.

O papel de rato é interpretado por Josh Brolin, que tem a (in)felicidade de encontrar uma mala cheia de dinheiro durante o que aparentava ser um normal dia de caça. Até onde é que ele será capaz de ir para proteger o seu achado, e como é que ele se irá safar, são as perguntas que nos assolam a cabeça desde o início.

Sem meios a medir, o nosso caçador vai deixando um longo rastro de sangue que vai sendo seguido pelo xerife de serviço, interpretado por Tommy Lee Jones. Velho e cansado, o xerife vê o mundo a que estava habituado transforma-se num pandemónio do qual já não sabe se quer fazer parte, ou se tem forças sequer para o combater.

Para “alegrar” ainda mais a caçada, aparecem os “amigos” mexicanos que trazem um pouco mais de cor (vermelha) ao enredo.

Os sentimentos de urgência, demência e incapacidade estão muito bem retratados neste filme, que apenas aconselho a quem tenha estômago e coração resistente. Mas se for esse o caso, é um filme a não perder.

The Bucket List

Março 24, 2008

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Esse é o longa de roteiro simples, sem maiores furos, mas que nos oferece uma forte carga dramática e irreverente através da associação perfeita de interpretação entre Jack Nicholson e Morgan Freeman, “parceiros” que nos faz repensar a vida, que nos deixa interrogações sublimes, as quais aparecem logo nos primeiros minutos de filme nos levando a pensar a respeito da morte -qual a lembrança que deixaremos na memória das pessoas? 

O filme trata de dois homens idosos, de mundos totalmente adversos, personagens opostos, que passam a ter em comunhão uma doença terminal que nos leva a olhar a vida de muitos ângulos. 

Decidem, depois do convívio no mesmo quarto de hospital, em que ambos podem dar início a uma leitura pessoal sobre o outro, realizar uma lista de desejos antes de morrerem, e boa parte da realização dessa lista é possível graças ao milionário Edward Cole, personagem vivido por Jack Nicholson, que proporcionará a si próprio e ao seu parceiro Carter Chambers, interpretado por Morgan Freeman, uma viagem rumo a muitas emoções e trocas. 

Assim, Edward – com o seu estado de urgência de vida, o que nos impressiona a todo momento, convence Carter, que deixa de lado a sua postura sempre firme e racional, a partir do hospital onde recebiam tratamento, abrindo mão de seguir como os tratamentos experimentais de pesquisa,  a embarcar rumo a uma viagem que os levará a muitas aventuras que vão desde a corrida de alta velocidade, visitas a lugares únicos a partidas de pôquer e horas de avião a contemplar a vida. 

A idéia da produção surgiu de Freeman, que sugeriu o filme após ler o roteiro, escrito por Justin Zackham (’Calouros em Apuros’). 

Não esqueçamos ainda que Antes de Partir, título recebido no Brasil, lembra-nos a todo momento a situação pela qual os personagens estão a passar, não nos deixando esquecer o quão dramático é o momento de ambos, o que inviabiliza o chamado estilo água-com-açucar, pois são apenas as palavras que denunciam a carga dramática, mas visualmente, sente-se o quanto duro e irreversível o quadro de uma doença terminal. 

O filme nos prova que simplicidade, uma boa dose de criatividade, bom humor extremamente inteligente e uma carga dramática elevada, associada a interpretação de dois grandes nomes do cinema, são receitas infalíveis para o público rir, chorar, pensar e sair do cinema, talvez, com a nítida  sensação de que, ao fim e ao cabo, precisamos de muito pouco para atingir a tal felicidade, mas não vivemos atentos para esse fato. 

Se vale a pena passar 97 minutos sentados a frente da tela a ocupar o seu tempo com esse filme – não tenha dúvida que sim! Jack Nicholson e Morgan Freeman são homens opostos que se completam numa “mistura” improvável de erro. Para os mais emotivos, vale levar um lenço de papel e esquecer por esses minutos que estamos diante de um filme e seguir a emoção, afinal, a arte imita a vida. 

URSO DE OURO EM BERLIM

Fevereiro 25, 2008

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O fulgor do Tropa de Elite, filme de José Padilha, inspirado na obra literária “Elite da Tropa” de Roberto Pimentel e o sociólogo Luis Eduardo Soares, já passou aqui no Brasil, pois de algum modo apesar da violência ser algo que não se deva acostumar, infelizmente, com o correr dos nossos dias, nós, brasileiros, nos acostumamos a ela e ao filme também, já que o lançamento a nivel nacional ocorreu no Brasil em 12 de Outubro de 2007, mas no dia 16 de Fevereiro de 2008, para “orgulho” do Brasil, voltamos a sentir o peso do filme com o prêmio do Urso de Ouro do Festival de Berlim, que para surpresa de muitos, o filme não foi apresentado no circuito alternativo como se poderia imaginar, mas sim, no circuito comercial.

O orgulho vem um tanto quanto maculado pelo tema que ele nos denuncia nas telas, pois nenhum cidadão brasileiro tem orgulho do que ocorre no sub-mundo da cidade maravilhosa, o Rio de Janeiro – uma guerra que vai muito além do que a nossa vãn imaginação pode alcançar, mas que Tropa de Elite vem nos “rememorar”.

Em meio a tantos encantos há o desencanto, esse com a mais pouca valia dada a vida das pessoas. O que Tropa de Elite nos revelou foi os bastidores da violência, tanto do tráfico como da polícia, da corrupção policial, a qual, até para nós, brasileiros, não deixou de surpreender pela realistica abordagem, e não só, denunciou mais – o papel da sociedade no tráfico de drogas, que muito fomenta o crime organizado no Rio de Janeiro, passando pela análise do contexto social que há em tudo isso.

A grande repercussão do filme aqui no Brasil ocorreu meses antes de chegar aos cinemas, pois o filme já flutuava no mercado da pirataria e na Internet, e até os atores do filme não chegaram a repudiar tal ato, pois houve um aspecto positivo em tudo isso, apesar do aspecto negativo da pirataria, foi por causa da pirataria que o filme chegou até o grande público que assiste televisão no Brasil, estimando-se que mais de 11 milhões de brasileiros viram o filme de forma ilegal, o que também não impediu que o filme brilhasse nas telas dos cinemas brasileiros com grande sucesso de bilheteria, alcançando mais de 1000 espectadores por sala na primeira semana, ainda que seu lançamento inicial tenha ocorrido apenas nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. E outra curiosidade que vale a pena lembrar é que, pasmem – em novembro de 2006, traficantes do morro Chapéu Mangueira, aonde as filmagens ocorreram, sequestraram parte da equipe de filmagem e roubaram as armas cenográficas, paralisando as filmagens por duas semanas e tudo isso culminou com a cópia pirata, que ainda não era a versão final do filme, mas já estava circulando antes da estréia do filme no cinema. E esse foi o cenário da movimentação do Tropa de Elite no Brasil!

Também há uma coisa que não posso esquecer de vos dizer aqui: algo vai muito mal com o nosso sistema, e como sabemos que o câncer é uma doença que instala-se sem pedir lincença e cuja a cura é uma luta diária, os policias, oficiais mal remunerados, estão instalados no nosso país nos cabendo torcer que na escolha entre se tornar corrupto, negligente ou entrar na guerra, eles escolham a dignidade do homem que assume um compromisso com a sociedade, ainda que essa sociedade muitas vezes não faça por merecer.

Vale a pena assistir. Não há dúvida que estamos diante de um bom filme, aquele que leva ao mundo a chance de começar a perceber como vai sendo deflagrada a “guerra” nas favelas do Rio de Janeiro. Mas é preciso dizer ainda mais uma coisa: a “guerra” que vemos no filme, aquela entre o tráfico de drogas e polícia do Rio de Janeiro acontece apenas nessa cidade, não vivenciamos isso nas demais capitais do Brasil, pois o que ocorre no Rio é algo particular, tão peculiar que o restante do Brasil assisti a tudo isso com a devida “distância”, sempre por indagar o que estão a fazer com os seres humanos dessa cidade – uma das maravilhas não apenas do Brasil, mas do mundo.


Um musical em sangue maior

Fevereiro 12, 2008

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Ao longo dos anos, Tim Burton tem-nos vindo a presentear com pequenos apontamentos musicais nos seus filmes, e com musicais animados. Eis que chegou o momento de um verdadeiro musical, e a qualidade a que Tim Burton já nos habituou não foi, de modo algum, defraudada.

Baseado num musical da Broadway, Sweeney Todd conta-nos a história de um barbeiro perdidamente apaixonado pela sua mulher, a quem um juiz ganancioso e sem escrúpulos condena à deportação e vida em alto-mar. Anos mais tarde, o barbeiro volta a Londres, onde jura vingança a todos aqueles a quem ele condena pela vida de miséria e lamentações a que foi sujeito, e pela perda da mulher e filha.

Mais um vez, a mestria de Tim Burton alia-se à capacidade interpretativa de Johnny Depp, que já deu provas de ser uma dupla de sucesso. O ar misterioso e sombrio da personagem enquadra-se bem nas características performativas de Johnny Depp, que nos mostra um barbeiro amargurado e sequioso de vingança, mesmo nos momentos de musical.

Mas o filme não vive só de Johnny Depp e do mundo imaginado por Tim Burton. Helena Bonham Carter, como Ms Lovett, Alan Rickman, como Judge Turpin e Sacha Baron Cohen, como Signor Adolfo Pirelli, dão a este musical sangrento, um toque de loucura e genialidade, que faz deste filme uma ida ao cinema obrigatória.

Um pequeno aviso. O público mais sensível poderá achar a quantidade de sangue um pouco exagerada. Verdade seja dita que talvez desse para encher uma pequena piscina, daquelas que se compram para as crianças se refrescarem no verão, mas mesmo esse, discutível, pequeno exagero, contribui para o ambiente do filme de uma forma decisiva.