Num verdadeiro “mix” de acontecimentos, textos, falas, sons, celulares tocando, lep top´s ligados e muitas pessoas a minha volta, me dei conta no exato momento em que aconteceu – que tudo insiste em ser muito rápido!

Existe a nossa disposição um verdadeiro clamor convidando para uma reflexão que altera a percepção das coisas, e, por via de conseqüência, a compreensão de vida.

Assim, convido a que pensem comigo:

Inspirada numa crônica de autoria do Ferreira Gullar, publicada num domingo de Folha de São Paulo, na fala do personagem de nome “Pedro”, dita explosivamente na peça “Corte Seco” – que está fazendo parte da programação da FIAC 2010 (Festa Internacional de Artes Cênicas) e nos acontecimentos dos últimos dias que adornaram a minha vida de graça e beleza, fui convida a escrever sobre esse verdadeiro caos que captura e confunde os nossos dias.

Não raro buscamos o significado das coisas, seja para aqueles que acreditam na força divina ou não – ateu, agnóstico, deísta, etc, sem pensar em religião, inevitavelmente, em um dado momento, todos acabam por refletir diante da existência do mundo e da razão das coisas, até mesmo os mais insensíveis.

A Filosofia permanece como terreno fértil em meio às inquietações – reflexões que muitas vezes caem no vazio porque não chegamos a uma conclusão, e como narrou Marcelo Gleiser em “À Procura do Fim da Trilha” – destaque da Ilustrada da Folha desse domingo, não chegamos ao final da trilha, aliás, diga-se de passagem que essa trilha não tem um final, constantemente estamos dando a partida – para chegar aonde? Não sabemos!

O Pedro da peça disse algo que sempre toma a minha refelxão e que nos últimos tempos, quando entro em uma reunião fico a pensar porque percebo que as pessoas não conseguem se concentrar para o tema, pois a maioria delas está preocupada com o tempo cibernético, com o que passa nos seus celulares, no sms, iPOD´s, iPED´s, lep top´s Apple, Google Maps, Google Earth, facebook, twiter, orkut, hotmail, skype, são muitos meios que capturam o tempo sob o manto de “ocupação”.

Saío da reunião e as ruas estão cheias, o trânsito segue caótico e a cada dia tende a ficar pior. As avenidas estão lotadas de pessoas e carros circulando… tem fila para tudo, tem passadeiras demais pelas ruas, tem pedestres demais, e em Salvador – igrejas demais, semáforos demais, telefones demais, poluição demais, tem ruas demais, tem tarefas demais para cumprir, livros em demasia para ler e as informações que vão ficando velhas a cada segundo.

A tecnologia vai consumindo tudo, deflagrando o envelhecimento dos nossos tempos, bilhões de pessoas conectadas á rede pelo mundo afora e isso é a prova de que os servidores não dormem – e nós, dormimos?

Estamos ficando cegos – será? Num coletivo “Ensaio da Cegueira” são olhos demais, sensações demais, problemas demais, e-mails demais por responder, sites demais por acessar, jornais e livros demais para ler, notícias que se defasam a cada instante e quando tentamos aquietar ainda pensamos que não estamos conseguindo dar conta de tudo e não raro nos aparece alguma angústia.

Não se preocupem – não ficaremos fora do tempo se não estivermos acessando tudo isso! Lembremos que homens como Gilberto Freire, Carlos Drummond, Guimarães Rosa e tantas outras mentes brilhantes existiram por muito tempo numa era em que não havia os google´s, nem os iPed´s, iPod´s e nem todos os correlatos e, ainda assim, nos presentearam com obras imortais, o que nos confirma que é possível ter conhecimento e produzir raridades sem a necessidade de permanecer todo o tempo acessando tantos aparatos modernos.

Talvez estejamos demasiado loucos, nos deixando ser tragados pela vida desvairada de cada dia. Enquanto isso cresce o número de pessoas solitárias, pessoas que usam a rede para ocupar o tempo na falsa sensação de que há uma companhia real do outro lado. Não, não há!

É preciso viver a própria vida porque não estamos num ensaio, bom seria se tivéssemos primeiro um tempo de ensaio para depois o tempo de vida real, mas como já sabemos, não é assim. É preciso desligar os servidores em algum momento, voltar para casa, esquecer todos esse meios de acesso que temos, sentir o cheiro do aconchêgo, sentir o acolhimento de um abraço amplo e sincero, de um colo quentinho, de um olhar terno, de uma palavra de incentivo – é preciso permissão para um afeto verdadeiro!

Em que lugar do seu dia está alguma dessas coisas, em que lugar do seu tempo existe espaço para o STOP, para apertar o OFF e verdadeiramente desligar?

Em que lugar dentro de você poderá se livrar de tantos aparatos da tecnologia e simplesmente sair por aí e relaxar? …Vamos fazer isso enquanto não ficamos ainda mais loucos, antes que inventem um novo programa de computador que seja acessado enquanto dormimos e que nos proponha substituir tudo, até mesmo os relacionamentos, os afetos, e o pior – antes que venhamos a acreditar que isso é mesmo possível!

E nessa rede que nos consome, será que conseguiremos um dia mais feliz quando aprendermos a viver apesar dela?

Se tiver de amar, ame hoje, se tiver de sorri, sorria hoje, se tiver de chorar, chore hoje, porque tudo que temos é o HOJE e para viver é preciso que se dê permissão…”

“Um dia”

Julho 23, 2010

A vida segue insistindo em ser “um dia”…

…Um dia que encontremos coragem para fazer algo que faz parte daquela nossa “listinha” de coisas, como listinha de livros que ainda não lemos ou lugares que ainda não tivemos a chance de ir visitar. Um dia que teremos coragem de mudar algo em nossa vida que nos paralisa e impede de caminhar. Um dia em que as nossas metas e sonhos passarão para o plano da realidade.

Quero fazer dessa minha listinha um campo de possibilidades e não um campo de probabilidades, pois no provável, a meu ver, não saímos da imaginação, do que anotamos em um papel.

No futuro não pretendo me tornar aquela velinha saudosa, que fica sentada no extremo da casa ou debruçada na janela a lembrar do que poderia ter sido e não foi, como num daqueles personagens lindos de Eça de Queiroz. Esse deve ser o mais triste dos sentimentos, deve ser o mais infeliz dos instantes de um dia.

Sempre tenho essa sensação quando escuto alguém falar de um modo extremamente saudoso sobre aquilo que sonha fazer e não tem como algo realizável, mas não o tem, não porque não queira, mas porque ainda não despertou para o fato de que a intenção é um campo de possibilidades concretas, audíveis e realizáveis, que só depende de um único ser – nós mesmos!

Claro, tudo isso também se submete ao imponderável da vida, a todas aquelas coisas que já falei por aqui, que nos invade, escolhe pelo nosso dia, cujo controle não é nosso, pois há uma força divina, uma força motriz que dá conta de “deliberar” sobre tudo que se move dentro da gravidade do mundo.

E como não poderia deixar de ser, recordo-me da fala do filósofo Platão quando disse: “Uma vida não questionada não merece ser vivida”…

Mas também não questione demais, apenas se mantenha “acordado” para os dias, como diria minha amiga Aline – “keeping walking”, mantenha-se assim, caminhando, pois se questionar demais correrá o risco de viver de menos.

Ás vezes o questionar nos tira da intenção, da sensação leve e gostosa de, simplesmente, aproveitar os momentos que a vida nos contempla e nos inunda pelo seu PRESENTE, aquele que pode, de fato, nos trazer a chance de esvaziar a mente e aproveitar plenamente cada coisa.

É tão curioso, mas ás vezes o momento presente passa por nós e apenas lá na frente nos damos conta de apreciá-lo, quando ele já se tornou passado, quando já se foi, quando aquela cena, lugar, pessoa, aroma, sons e cores, todo esse conjunto sinestésico de vida já estão no longínquo passado e não nos retorna mais.

Clamo pela coragem de perseguir esses dias, a intenção consciente e plena do que me faz bem, do que acredito que posso ter no hoje, que não adiarei para um futuro e que também não me lançará de volta ao passado, sobretudo porque “o momento presente é uma dádiva“.

Façamos a despedida de todo o “lixo” que nos toma a mente – arrumemos a casa e vistamos a nossa melhor roupa. Escutemos a melhor música. Façamos o melhor ambiente. Bailemos nessa valsa da vida, nessa dança que nos convida a existência bem vivida, a troca, ao amor, aquele amor que não vem apenas do outro, mas que carregamos no nosso próprio peito como garantia de que estamos vivos, pulsantes, reluzentes de intenção e vontade.

…Ontem a alma se abriu por inteiro
O vento fez passagem
Carregou o espírito por inteiro,
Do ser, não há nada
Apenas a dança da madrugada
Uma pequena lâmpada se acendeu
Um pequeno instante: a vida e eu
!

Tentei não falar sobre esse assunto, mas como poderia não fazê-lo quando, irritantemente, a cada vez que ligo o meu televisor e deve acontecer o mesmo quando liga o seu e a perseguição da noticia é sempre a mesma – O CASO DO GOLEIRO BRUNO!!! E olha que foi parar até nos tablóides internacionais.

Sim, sim, o “CASO BRUNO”. Não me diga que você ainda não ouviu falar? Sim, o caso que conta com mais tempo nas informações do que o próprio Big Brother, o caso que vem sendo mais acompanhado que novela das oito.

Aquele caso dentre tantos outros que já foi a bola da vez e que também já foi esquecido, como o caso daquela jovem paulista que matou os pais para ficar com a herança (lembra o nome dela? também não me recordo!), como aquele do namorado de Guarulhos que manteve a namorada no cárcere privado porque não aceitava o fim da relação (lembra o nome dele? também não me recordo!). Sim, é mais um caso que a mídia sensacionalista, vazia de notícias aproveita á hora e a vez para expor á luz dos seus holofotes o famoso goleiro do Flamengo – o Bruno!

Segue a mídia roendo o osso, até o caroço, como abutres, como canibais frente a uma vasta presa e tudo isso propagado como notícia em destaque : Goleiro suspenso do Flamengo. É suspeito de ser o mandante do crime e ter presenciado a morte de Eliza. No Rio, foi indiciado por sequestro e lesão corporal em 2009. Em Minas, pode ser indiciado por sequestro, homicídio qualificado, formação de quadrilha e ocultação de cadáver (fonte: Folha.com)

A notícia perde o foco, a importância perde o corpo da razão e não temos tempo de refletir sobre a informação, não resta tempo para sensibilizarmo-nos porque tudo é banalizado, porque tudo é posto e reposto apenas sob a ótica dos olhos de quem faz a notícia.

Parece que todos esqueceram que somos seres capazes de interpretar, feitos de razão e emoção a compreender uma situação, um crime, uma catástrofe, mas não nos é dada essa oportunidade e nos põem como “marionetes”, aquelas que precisam ser conduzidas – pobres interlocutores!

Pobre de mim, de você, de todos que somos público alvo, pois não há como abrir um jornal, um site, seja que meio pretenda para está informado do que acontece aqui ou no mundo, que a perseguição permanece – O caso Bruno!

O verdadeiro bombardeamento da mídia decorre da obsessão que a “grande massa” possui pela miséria. Vive-se cercada por ela, basta olhar para o lado quando passamos de carro, do ônibus ou qualquer outro meio, simplesmente andando a pé pelas ruas do nosso país para constatar que – convivemos com a miséria lado a lado, mas essa miséria que vem da rua parece não mais interessar, não sensibiliza. Essa miséria não é dos
famosos, essa miséria parece não despertar a curiosidade, o interesse, e com ela convive-se de mãos dadas.

Claro que o caso Bruno desperta maior interesse porque nele se vê a miséria da alma, do indivíduo que, aparentemente normal, num instante da vida, deixa vir á tona a sua anomalia, e descobre-se como tal.
Nesse momento é importante saber – estamos diante de um psicopata? O conceito de Psicopata, Personalidade Psicopática e, mais recentemente, Sociopata é um tema que vem preocupando a psiquiatria, a justiça, a antropologia, a sociologia e a filosofia desde a antigüidade e esse tema seguirá sempre como pauta da vez porque sempre houve e haverá personalidades anormais como parte da população geral.(leiam: http://super.abril.com.br/ciencia/mente-mata-442855.shtml)

Platão, citado por Freud, na sua obra “A Interpretação dos Sonhos – Obras Completas de S. Freud – vol. V – Rio – Imago – 1972 – p.658, diz que o homem virtuoso se contenta em sonhar aquilo que o homem perverso realmente executa. Ou seja, os desejos inconscientes comuns a todos estão repletos de fantasias de assassinato e incesto, como se evidenciam, por exemplo, no complexo de Édipo.

A grande diferença entre o “homem virtuoso” e o “homem perverso” é que no primeiro tais desejos são reprimidos pelo superego e sublimados seguindo as exigências do ideal do ego, coisa que não acontece no segundo, cujo aparelho psiquico apresenta falhas nestas duas instâncias, devido a graves distúrbios no relacionamento com as figuras primárias.

Daí o verdadeiro show que fizeram dessa notícia. O povo precisa saber se o goleiro Bruno é o homem perverso ou o homem virtuoso. Apesar de até então parecer um ser normal, possui os seus desvios de conduta, a tal ponto de cometer um crime e agora vir a ser enquadrado como um psicopata e essa notícia é posta como algo que pode mudar a vida das pessoas – e pergunto: o que muda na vida das pessoas? Nada!

Insanos são todos os que, como verdadeiros abutres sobrevoam essas notícias e alimentam-se dela! Insanos são os que precisam manter essa informação como se fosse algo vital para se viver.

É preciso acordar para o presente, é preciso sair desse adormecimento coletivo, dessa cegueira coletiva do não pensar, do contentamento da notícia pronta.

O mundo clama por autodeterminação, clama por pessoas pensantes, por pessoas que abandonem o bizarro e lembrem de viver. O contexto não será mudado, o Bruno não voltará no tempo para desfazer o seu mal feito, e se pudesse nem sabemos se o faria, mas a mídia sim, essa seguirá sempre a mesma – ávida por suas cruéis obsessões, e nós, ocuparemos que lugar diante de tudo isso? Seguiremos nos contentando em ser marionetes dessas informações?

Vamos desenvolver o nosso senso crítico, vamos acordar para essa cegueira que diariamente nos convidam a participar porque se nos determinarmos assim, ainda confio que notícias como as do Bruno não serão tão importantes como insistem que sejam.

Passada a participação do Brasil na copa, o luto, as lágrimas e com elas a agonizante vibração brasileira na torcida pelo sexto título – tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. Nada mudou! A esperança prossegue – olha o brasileiro pensando em 2014 e já prontinho para tocar pandeiro!

Não ficamos mais pobres, não ficamos mais ricos, não tiraram o feijão da mesa brasileira e nem a cerveja acabou. O país não prosperou e nem regrediu no seu desenvolvimento.O Brasil continua a ser notícia, ainda que pelo anuncio de ter postegardo o seu título para 2014. Sim, o Brasil já não está mais na copa, as malas foram feitas e os televisores já se apagaram!…Sim, a minha vida também prossegue!

Os jogadores não ganharam os louros da fama, mas também não perderam as verdadeiras fortunas que auferem mês a mês – as contas continuam gordas, apesar das vuvuzelas que de tão gastas não tocam mais para eles – murcharam de tristeza! De mudança, apenas o Dunga deixou a seleção e agora com tempo para cuidar das suas roupas, quem sabe passa a escolher melhor as suas vestes para pousar de técnico na tv, ahararrrrrrra.

Impressionante acompanhar a movimentação que o brasileiro bem sabe fazer em dia de jogo. Futebol, suor, cerveja, samba, alegria – todos os ingredientes que nos “vendem” lá para fora e estiveram presentes nos dias de jogo.

E como não poderia ser? Tudo isso é pela copa! Tudo isso é o gostinho de ser brasileiro – sim, brasileiros, aqueles que nunca desistem! Aqueles que nunca perdem o rebolado, aqueles do rebolationnnnnnnnnn!

Será que o brasileiro não desiste mesmo? Tenho cá minhas dúvidas! Ponho aqui expor uns tais poréns!…
O brasileiro não desiste do que? O brasileiro não desiste da imagem de ser o povo mais alegre do mundo, aqueles que desfrutam do título de melhores anfitriões – tão amáveis com os que chegam de fora e anunciam bem o seu carnaval?

Na terra brasilis já temos motivos demais paras sofrer: tem “mensalão”, tem desvio de dinheiro milhonário da previdência, tem dinheiro flutuando pelas cuecas do planalto, e são tantos os golpes que se o brasileiro fosse desistir deitaria na sua própria cova, bem funda, para despedir do seu samba e do seu carnaval. Talvez o que o brasileiro venha desistindo é de ser honesto, pois os exemplos de desonestidade são sempre tantos e constante que aqui vale mais a máxima de agir como o homem produto do meio.

Talvez seja hora de pensar que em matéria de futebol tudo é possível, assim como no Brasil, nos restando cantarolar o grandioso Chico Buarque no “apesar de você amanhã há de ser outro dia…” Apesar do futebol, apesar da nossa degradante política, dos nossos vergonhosos políticos, pensemos que sempre podemos ter e fazer outro dia. Em 2014 poderemos fazer outros dias de copa!

A propósito de outro dia, seguimos agora na persistência, vamos enfrentar as eleições, e aí sim, urge a hora de não desistir, porque mais uma vez não temos muita saída e tá na hora de colocar a prova a nossa persistência – Dilma Lula ou Serra Tucana?

Ahararrrrrrrrrrrraaaaaaaaaaaaaaaaaa, passaremos por mais um carnaval, estaremos na festa do “colégio eleitoral”, e, como no futebol, lidamos com o provável e o possível, melhor presumir que ainda haveremos de assistir outros e melhores dias, pois ainda não será dessa que o Brasil terá algo de louvável para escolher.

E no mais, é isso aí, acabou a copa para os brasileiros, mas tá chegando o ritmo de festa para as eleições e queira o divino tenhamos motivos para comemorar. Se não houver motivos, haveremos de encontrar algum e que fique a certeza de que brasileiro ou não – nunca se pode desistir!

E viva a esperança de 2014 para o povo brasileiro!


Todo apego é insano!

Deixa-me explicar melhor. Aqui quero acessar várias formas de apego. Estão aqui aquelas pequenas ou grandes coisas que nos apegamos, cuja mente nos trai como simples preferências e começa por acontecimentos corriqueiros do nosso dia a dia. É o apego a banca de jornais da esquina (kiosco em Portugal), aquela que passamos todos os dias e paramos para olhar os montes de apelações visuais que faz a nossa mente saltitar meio eufórica por percorrer os olhos em tudo.

É a sorveteria (gelateria) de costume, na busca do sabor preferido, daquela casquinha crocante, e assim para alimentar o nosso doce hábito de sempre. Aquele cineminha na poltrona de sempre e que nos faz sentir em casa sem promessa de adeus. Aquela padaria de costume, do pão quentinho – branquinho ou mais torradinho (vai depender da preferência) e tudo isso sem esgotar a vasta lista que contempla o nossos tantos apegos.

Fazemos isso com tantas coisas que não nos damos conta do por que as fazemos, sobre o manto de serem meras predileções. E há algum mal nisso?

Talvez sim, talvez não! Mas o estranho em tudo isso é perceber que aí pode residir uma certa dificuldade em acessar o desapego.

O apego é também meu, é seu, é de muita gente que anda circulando nesse vasto mundo por aí – é coisa de gente, é coisa do bicho homem, é coisa de quem é “grande”.

Desenvolvemos esses apegos com coisas quase como manias, e se isso passar apenas pelas coisas – menos mal, mas e quando tudo isso atinge os sentimentos das nossas vidas e as pessoas? E aqui podemos pensar em outro tipo de “apego”, aquele que nos faz, aos poucos, ser como ostras – fechados, sem nos dar conta do quão lindo seria se mais vezes permitissemos a pérola vir á tona. O apego por crenças que criamos em nós mesmos e não sabemos sequer a razão.

Tudo isso me fez pensar num amigo que encontrei algunas anos atrás, em um café, num daqueles dias de muito frio que nos pomos a refletir mais sobre vida e filosofar sobre ela… Recordo-me quando ele disse que estava apegado ás suas crenças – naquele momento a idéia de ficar sozinho, de não dividir o espaço sagrado da sua casa, pois acreditava que deveria ser apenas seu. Não queria meias sujas espalhadas pelo cesto do banheiro, que não as suas. Não queria outros livros na mesinha de cabeceira que não os seus. Não queria alguém esperando por ele, senão ele mesmo. Sim, ele estava apegado ao limite do seu espaço que queria fosse apenas seu, mas ao mesmo tempo residia na “fala” dele um desejo latente de ser mais que um, de transpor a barreira do seu próprio isolamento e permitir a entrade de outro ser no seu espaço!

Como se não bastasse essa minha memória, ainda outro dia me deparei novamente com essa “fala”; percebi nela que por vezes estamos num bloqueio quase esquizofrênico – um apego humano de estar só, apesar do querer ser coletivo. Um grande paradoxo que nos propomos, uma dessas coisas que o ser homem cria e nem ele mesmo sabe o significado.

Rememoro aqui a frase de Oscar Wilde: “o caminho dos paradoxos é o caminho da verdade”. Penso eu que talvez um dia, quem sabe, se viermos a descobrir a razão de tantos paradoxos, possamos encontrar a verdade escondida nos tais apegos e exercitar melhor o desapego, o desprendimento de coisas e crenças, de passados e de lembranças escondidas.

As oportunidades passam muito rapidamente, mesmo para uma vida bem vivida, e nesse correr do tempo, da fugacidade de cada dia, diante de tantas coisas que temos que fazer por mera obrigação, pois, inevitavelmente, essas coisas fazem parte do nosso dia a dia, perdemos o significado plural das coisas e vamos ao singular, perdemo-nos em devaneios que a própria mente cria como senso de proteção e acreditamos muitas vezes ser a nossa melhor verdade e ficamos apegados a elas.

Será apego por proteção? Protegemo-nos do que? Será que alguém consegue responder?

O homem torna-se refém de suas próprias “covardias”, refém dos seus apegos, da inutilidade que eles possuem, e assim vai seguindo certo das suas próprias incertezas, dominado pelo inconsciente coletivo de ser só quando na outra medida da sua humanidade tudo clama e quer pelo ser COLETIVO.

Quero a coletividade contida no simples passeio de mãos dadas, o ar gostoso de um passeio pelas novas possibilidades que o outro me traz, sentir que olhar para esse espelho significa relacionar-se. Quero o desapego da solidão, desse estar só.

Quero pensar nas possibilidades novas de cada dia, banindo apegos, sem, contudo, abandonar a experiência dos momentos passados e superados. Abrir uma nova janela significa abrir espaço para contemplar novas paisagens, abandonando comportamentos passados em prol do novo, que nos é ofertado pela vida.

Em exercício dos apegos as nossas crenças individuais nos desumanizamos, passamos a condição pré-histórica dos homens que viviam sozinhos em suas cavernas e esquecemos de cuidar do “jardim coletivo” que habita as inúmeras possibilidades do ser e que inclui o outro. Pensar no apego implica abrir as possibilidades para o desapego – de crenças,conceitos, passado, remanescentes outros que nos impede de seguir adiante.

Desejo que essa “insanidade coletiva” seja pouco duradoura e que, trazendo o que há de humano em nós, possamos encontrar as nossas melhores possibilidades, banindo o apego da mente, crescendo e caminhando sempre para adiante e para melhor…

P.S.: essa reflexão desprentensiosa eu deixo como dedicatória a Aline, minha amiga, grande incentivadora da minha escrita criativa e que há meses clamava por algumas palavrinhas minhas aqui no blog.

Criança perdida

Tomado por um clamor de retorno a criança o adulto saudoso se põe a indagar: como posso retornar ao meu tempo de criança?

Hoje é momento de tempos corridos, tempos materiais, tempo de espera, tempo do compro porque quero, só não sei até quando, mas quero, seja porque o lançamento já foi anunciado na Internet, seja porque o meu vizinho já tem um.

Meu amigo me telefonou ontem avisando “você viu o novo modelo que foi lançado? Já pode consultar na Internet porque tá disponível em primeira mão…” Em tempos de crise, de plena turbulência na economia, bolsas despencando, aquecimento global, o adulto tem muito a almejar – decidir o que comprar e como o seu bolso pode sustentar os tantos brinquedos de luxo que circula no mercado de capitais. Salvamos Karl Marx de viver nesses nossos tempos tão “modernos”!!

Perde-se a prosa de viver, as relações do “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite”, “como tem passado?” – para onde foram todas essas expressões? O tempo vai sendo computado no relógio, as horas vão se perdendo em fração de segundos, me recolho muito após a meia noite e parece que não descansei – nasce-me um novo dia e parece que nem dei por ele!

É possível ser adulto e vibrar desejosamente por coisas e pessoas como uma criança? Não estou tão distante dela. Desejo tantas coisas, quero o que o dinheiro pode comprar nesse momento da apelação visual, olho e não vejo. O que faço para deixar de querer?

Preciso exercitar a minha criança, vamos, vamos lá! Quero o meu ar maroto, quero desejar o sorvete da esquina de tal forma a esquecer o troco.

Quero exercitar a criança perdida, lembrar que estou mais vivo e seguir sem pressa. Quero me deliciar com o algodão doce e colorido, girar no carrosel da vida sentindo o vento leve que lambe o meu rosto sem avisar, assanha meu cabelo e me paralisa para contemplar a pipa que corre no céu azul de primavera.

Menino, menino, anda cá, vamos correr sem parar? Olha aquela andorinha, ela vem na nossa direção, sem fazer curvas, ela vai pausar na sua, na minha, na nossa mão!

O meu adulto clama por tantas respostas. É verdade, a criança também, com a nobre diferença que a ansiedade infantil, quase pueril, tem pressa porque quer ir brincar lá fora e os adultos têm pressa porque sabem que o tempo traga as possibilidades da plenitude do fazer, do arriscar-se, do não ocultar-se.

Criança dá a cara á tapa, não tem medo e nem vergonha da resposta. Não precisa ser quem não é – existir é uma festa no seu mundo de fantasias, aquele que a mente – limpa, quase que como uma folha de papel em branco, vai pintando, a cada dia, de todas as cores que se vê ao longe no arco-irís que risca o céu de abril.

É, ser adulto dá uma canseira danada, e como diria Guimarães Rosa, “nonada”, vamos simplificar a ciranda da vida e entrar na ciranda do riso, de tudo aquilo que o dinheiro não pode comprar, vamos nos embalar numa alvorada de emoções, sentir as coisas simples da vida, correr para tomar aquele sorvete no fim de tarde sem qualquer culpa, rir de nós mesmos, rir das “loucuras” do mundo, das nossas próprias, descobrir que tem tantas coisas que nem precisamos, mas lotamos os armários, ocupando todos os espaços com a inequivoca sensação de que precisamos permanecer na moda.

Vamos ser livres, soltos como as crianças, porque a inocência de outrora permanece em nós, ainda que escondida, ainda que pareça perdida.

Dá uma olhada para os lados, para baixo, para cima e encontra a tua criança. Ela não se perdeu, ela apenas anda meio que de férias, meio que distraída, esperando ser convocada de novo para, apenas com um empurrãozinho teu, voltar a funcionar – vamos, anda lá! E quem sabe nesse frenesi possa ir assistir “Tá Chovendo Hamburger”, uma oportunidade para convocar a sua criança para entrar em festa, leve como uma pena que gira pelo ar, descomprometida, sem esperar qualquer resposta.

Essa semana começo aqui lembrando de um assunto que sempre trocávamos, eu e uma querida amiga – Angela (daquelas que para ser irmã restam apenas ausentes os laços de sangue) e  fazia parte das nossas conversas, digamos, “filosóficas”, naquela atmosfera tal do ser e do existir, que levavamos a cabo através da necessidade de compreensão, ao menos para nós – uma  reflexão que versava sobre qual o nosso lugar nesse largo mundo.

Falávamos, claro, sem desejar que isso fosse a nossa realidade, numa ironia que, em verdade, buscava  compreensão – do nosso desejo de ser uma “igual”, sair da rota da sensação “estrangeira”. Calma, eu explico melhor!

Sabe quando você não se enquadra em nenhum daqueles estereótipos da sua cidade, do seu país, talvez até mais, daquela maioria que habita o planeta chamado Terra? – Será que já deu para entender até aqui? Pois é! Ainda peço calma, pois também não somos alienígenas tipo saídas do filme “The War of the Worlds”, não descemos de nenhum disco voador para atuar como humanas aqui na terra. Ainda não!

A questão era falar como nos sentiamos  a fim de,  ao menos nos percebermos, como estrangeiras de uma mesma região. Sentir que não estávamos sozinhas, afinal de contas,  não é de hoje que já sabemos que todo ser humano necessita “pertencer”, e assim, trocando as nossas inebriantes confissões, nos sentiamos pertencentes a um mesmo mundo e nos riamos com isso.

Queríamos, quer dizer, aliás, no fundo não queriamos, mas pensávamos – como seria mais fácil viver enquadrada num mesmo “padrão da igualdade”, queriamos gostar das mesmas músicas da maioria, dos mesmos lugares da maioria, gastar o nosso “rico dinheirinho” como a maioria, dando o céu para ir a um show daquelas festas “casadinhas” da moda, me desculpem os que gostam, mas poderia ser algo como Ivete Sangalo e Jamil. Dar o reino por uma daquelas bandinhas da moda, flutuando num prazer quase delirante por frequentar o ” barzinho da moda” e lá exibir os nossos corpinhos sarados, claro,  sendo sempre da moda. Queríamos falar “ninguém merece” na língua da moda, com as expressões que me fogem agora!

Será que assim já começa a fazer sentido aonde queríamos chegar?

Não, não é nada fácil não pertencer, não entregar o reino por uma festinha da moda, não vibrar pela maioria das coisas que a maioria da pessoas ao seu redor estão vibrando, não é fácil não falar a mesma língua, não é fácil não desejar as mesmas coisas, não ir aos mesmos lugares, não participar das mesmas programações e não saber cantar a música da moda.

Quem disse que é fácil ser estrangeiro?

Calma, também não disse que somos melhores ou piores por isso, apenas quero dizer que aquela reflexão faz parte de um passado, que, permanece no nosso presente, porque não ser uma “IGUAL” é fazer parte de um mundo quase altista, em que poucos falam a sua língua, que poucos te entendem ou deixam espaço para que você, simplesmente – também seja!

Porque em meio a essa sensação, somos vistos, as vezes pelos nossos próprios amigos –  os que são da moda (claro que também tenho um amigo ou amiga da moda), como estranhos, como seres que estão concorrendo ao cargo de superior, quando na verdade, indago-me: é perciso haver alguém em condição superior?

Em verdade, o ser estrangeiro não busca nada disso, ao menos na compreensão que fazíamos, talvez tenha apenas a consciência solitária de que não deseja as mesmas coisas e que tem anseios outros pela vida, e que, simplesmente, são diferentes, e na maioria das vezes, para muitos – fora da moda!

 A questão posta não é quem tá certo ou errado, mas o divisor de águas que tudo isso gera dentro de uma coletividade – como conviver com as diferenças sem sentir-se “ESTRANGEIRO” e sem ser taxado como tal?

Não falo a sua língua, não faço parte do sua tribo, não gosto do que a maioria gosta, não leio as revistas que a maioria gasta o tempo passando as sua páginas –  trocamos Caras por Caros Amigos. Lemos do Eça de Queiroz ao Onfray, e daí? Um imenso abismo nessas diferenças?

Não vibro com a música da moda, não quero ser igual aquela moça da passarela, com as mesmas roupas e o mesmo brilho que ela, não assisto Faustão aos domingos e nem sei o que acontece e nem conheço os participantes do Big Brother, e quando encontrar essa maioria – será que eu vou ter assunto pra conversar?

Quero ser estrangeira sem parecer enfadonha, quero ser estrangeira sem ter que ser vista como superior ou alenígena, quero viver o meu mundo desigual, mas para tudo isso não quero divisores de águas, não pretendo pôr o outro à margem, porque com um “igual”, na sua condição de ser humano, e como tal – único, talvez também tenha o que trocar com ele, e como farei se ele também me põe distante do seu mundo?

A questão parece simples – mas não é! A filosofia continuará a circular nos seus inúmeros “por quês”, continuarei dando voltas pelo buraco profundo de Perséfone nos seus seis meses que contempla a vida no modo obscuro embaixo da terra.

Em verdade, esse assunto me veio, a propósito, depois da lembrança de um encontro que tive com a minha amiga Angela,  e veio para fomentar com vocês um debate, para trazer de volta essa nossa questão do passado, para talvez fazer com que você sinta que também pertence a um espaço, que pode ser ou não um estrangeiro, mas que de um ciclo ou outro, pode-se trocar, acima de tudo – idéias!

Seja no seu mundo ou no meu, continuaremos seguindo em busca de respostas, e se não for assim não tem muita graça, pois dizem que Deus gastou os 07 dias dele para fazer o mundo, e porque nós não podemos usar mais que sete vidas  para descobrir as nossas estranhezas dentro desse mundo?

Vamos todos (sejam os estrangeiros, sejam os iguais) marcar uma festinha que entre na moda? rssssss

Dedico esse texto com um abraço forte aos meus amigos, aqueles que são “estrangeiros” e aqueles que são “iguais” – e viva as diferenças porque elas estão cada vez mais na moda!

A própria Filosofia, vista como algo que tem como ponto de partida a vida, tal e qual ela é sentida e interpretada por cada um nós, nos últimos dias me remeteu a “impermanência” do nosso tempo, aquele que nos chega de modo ciclíco, sazional, apresentando-nos a vida de muitas e muitas maneiras…

Ao relacionar o tempo com a filosofia, recordei-me de Kant, filosófo que explicava que o espaço e o tempo pertenciam à condição humana sendo propriedades da consciência, e não atributos do mundo físico. Será mesmo assim? Será que fomos nós, simples mortais, que o criamos como modo de seguirmos uma rotação da vida? Platão a falar sobre o tempo, ainda a.C, nos disse que: “O tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel”. Já os físicos insistem em afirmar que o tempo não flui; ele simplesmente é. Shakespeare referiu-se ao tempo como “a ciranda do tempo”. E como esquecer de Santo Agostinho e a sua reflexão auto-biográfica sobre o tempo, expressa no Livro XI da obra “Confissões“ (recomendo a leitura) , lá os questionamentos dele, tão atuais quanto se hoje estivesse vivo, nos conduz a ver que o tempo nos escapa, que não podemos apreendê-lo, não há como medi-lo e nem mesmo como decifra-lo.

Nessa ciranda, apesar do tempo ser algo tão comum a nossa experiência de mundo físico, como pode ser ele algo tão difícil de definir?

Esses dias, em menos de 24 horas, vivenciei essa consciência do tempo, o tempo de chegar em uma cidade, realizar o trabalho que lá tinha por fazer, partir e chegar em outra cidade e, simplesmente, vivê-la na sua mobilidade. Isso trouxe-me a reflexão desse tal TEMPO – grande enigma da vida, horas é o nosso melhor amigo e horas é o nosso pior inimigo.

Quando estou em aeroportos não raro me vem essa reflexão, pois em um dado momento, quando seguimos como viajantes, a percorrer algumas cidades, por vezes chegando a cruzar outros continentes, perdemos um pouco a identidade desse tempo e de quem somos frente a ele, a noção flutua no senso de espaço e sentido, e flutuantes somos todos nós, ali, por entre as nuvens que vemos do avião.

Pensei sobre os ponteiros de um relógio que se segue a cada fração de segundo, levando consigo o nosso estado de ser, levando consigo cenas e situações que nos diz que nada poderá ser igual ao que vivemos minutos atrás, mesmo que venhamos a resconstituir a cena com o máximo de fildelidade ao quanto vivido no tempo anterior, nada poderá ser igual, simplesmente porque jamais estaremos iguais, nos também mudamos de muitas maneiras nesse TEMPO.

O nosso estado de ser, as nossas sensaçõesn- elas mudam de modo sublime, tão sublime quanto a vida, quanto toda a sua essência, que não raramente clamamos por respostas.

Mudamos em nossos estados de alegria e de tristeza, de buscas, de anseios, elegemos algo e depois, a seguir, já deixamos de o eleger, e tudo isso é belo, tão belo como saber que daqui a poucas horas, depois que tenha escrito aqui para vocês e que vocês me tenham lido, tantas e tantas outras coisas poderão acontecer a ponto de nem mesmo lembrarmos como estavámos nos tais minutos atrás desse tempo da leitura.

Já pensaram nisso? Pensaram como a impermanência da vida é algo belo e muitas vezes difícil de aceitarmos? Pensando sobre isso, para completar os cenários que vivenciei na minha imaginação de viagem através do tempo, uma música me chegou aos ouvidos – “The Scientist”, veio naquele instante em que refletia, através de um voz que gosto muito que é dos Coldply e nela um intrigante clamor: “Let´s go Back to the Start” e daí pensei – como seria voltar no tempo, como voltar ao início de algo? E na mesma música, mais a diante, há uma afirmação – “Nobody said it was easy”, não, não é mesmo fácil! O clipe dessa música é finalizado com um carro em marcha ré, o carro se desloca para o tempo passado como se fosse possível retornar a ele sob o ângulo em câmara lenta.

Como seria manusear o tempo, assim como fazemos quando acertamos um relógio? E vejam que mesmo nesse ato simples de acertar o nosso relógio, não podemos, simplesmente, registrar nele o nosso tempo, aquele que queremos – o que apenas podemos fazer é apontar o tempo cronológico da vida, aquele que nos faz mais velhos a cada aniversário.

Em meio a todas essas reflexões recordei-me da complexa e linda letra do Cateano Veloso – “Oração ao tempo”, a música é uma bela referência ao “Deus Kronos”, e para aqueles que não lembram, deixo aqui uma das minhas estrofes preferidas que diz:
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

O que seremos no amanhã desse tempo que já não terá sido? Realizaremos o “milagre” de segurar o tempo ou o tempo já nos terá tragado no que haveria de ter sido?

As reflexões do tempo, essas eu sei que sempre retornarão a memória do meu tempo, vez por outra me virá a chance de pensar melhor sobre ele, nem que seja apenas quando me perceba sentada no saguão de um aeroporto a espera de mais um vôo, na iminência de dentro de algumas horas me ver em outra cidade e perceber que o tempo passou tão rápido que não pude segurá-lo, mas na memória do tempo eu tudo terei sido e feito.

Finalizo então com a fala de Albert Einstein quando escreveu para um amigo e veio a expressar essa questão dizendo: “O passado, o presente e o futuro são apenas ilusões, ainda que tenazes”.

Agora, façamos o melhor do nosso tempo, pois ele não retorna as nossas mãos e não podemos segurá-lo, e nem guarda-lo numa caixinha, como possivelmente gostaríamos, assim como podemos, fisicamente, segurar os ponteiros de um relógio, então, para ele, nos cabe uma vida bem vivida, com o desejo e o comprometimento de sermos felizes; o fluxo pulsante realizará o melhor desse tempo, as vezes atentos a cada momento e as vezes relaxados, apenas sentindo-o passar e sabendo que, sem dúvida, ele nos trará e nos levará muito, mas, sobretudo, nos resta sempre a possibilidade de ser, ainda que não naquele tempo que gostaríamos que tenha sido…

Um ano de vida do TAXICIDADE!

Dezembro 17, 2008

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Faz hoje um ano que o nosso livro, Taxicidade, se materializou. Foi um longo percurso, as ideias nem sempre se transportam facilmente para o papel.Era uma noite de ansiedade, uma noite fria que eu quase não senti tal era a ânsia que me dominava.

O bar, Era uma vez no Porto, esteve ao rubro. Cinco autores, um livro e muitos familiares e amigos. Os pais olhavam-nos babados pelo nosso glorioso feito. Para os autores do Taxicidade era a NOSSA GRANDE NOITE, a primeira de muitas, tenho a certeza.

 

No bar; o calor, o fumo, a confusão de vozes que se sobrepunham, a constante solicitação por uns e outros, os beijos de quem nos queria cumprimentar, e dizer, eu estou aqui.

Foi uma noite única, mágica para quem, como nós, a viveu intensamente.

Hoje, passado um ano, o nosso TAXICIDADE continua à venda nas livrarias deste país.

 

Embora na caminhada de cada um dos autores outros projectos tenham tomado a maior parte do tempo, o TAXICIDADE fará sempre parte das nossas vidas como o primeiro livro, como aquele sonho que se realizou.

 Nós continuamos a encontrar-nos, pontualmente, mas sempre que o fazemos o bom humor surge com aliado natural. Daríamos uns bons “gatos fedorentos. Lembro-me dos nossos encontros sempre com um sorriso nos lábios: das piadas que trocamos, do segundo sentido das frases, das conotações das palavras. Até os elementos mais tímidos se revelam naqueles encontros.

 

Mas o TAXICIDADE ainda tem muito para dar, sob outras formas de expressão, outras artes. O prezado leitor, pode ter a certeza que o TAXICIDADE está no início de vida. Parabéns pelo 1º aniversário!

Recebi de um aluno um texto do Nelson Hoineff, cujo link é: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=508JDB002. O tema é algo que sempre e continuamente estou a refletir no meu inconformismo de quem espera chegar, quem sabe um dia, um tanto mais próxima de respostas; vim aqui “verbalizar” para vocês, convidando-os a pensar comigo, para que então cheguem as suas próprias conclusões, e se elas aparecerem, por favor, passem adiante, é o mínimo que podemos fazer para contribuir na chegada do dia em que, nós, seres humanos, compreenderemos que a nossa atitude pode mudar alguma coisa.

Aqui no Brasil, mais uma vez – “na terra do sempre e quase nunca”, o drama da vida real torna-se reality show frente as câmaras de telivisão, e a notícia é passada de modo tão sensacionalista e pleno que em dados momentos pensamos até ser ficção, diante de  produção tão bem montada e dos efeitos especiais que fazem flesh a nossa tão disputada visão, para muitos resta apenas conferir.

A “bola da vez” nesse momento, digamos assim, ilustrada pelas manchetes de televisão, jornais e revistas tem muitos títulos: “O sequestro de Santo André”, “A morte da jovem Eloá” “A tragédia que tirou a vida de uma jovem de 15 anos”, “O amor que leva a morte” e por aí vai… são inúmeras as denominações trazidas pela mídia diante de mais um caso, dentre tantos outros, tão cruel, tão violento, tão passional, tão inominado.A dificuldade maior para nós, ante todo o sensacionalismo posto pelas câmaras de televisão, antes, durante e depois do desfecho fatal, é que por falta de boas informações, somos compelidos a ver e rever, milhares e milhares de vezes, o mesmo “filme” trágico, as mesmas cenas, a mesma leitura sórdida de sempre, aquela que os meios de comunicação, visando atingir o seu lucro nos “vomitam”.

Os bandidos tornam-se “coitadinhos” e os tais “coitadinhos passam ao papel de marginais, tudo em questão de segundos; a polícia quer dar show para os espectadores ávidos por ação que estão a acompanha-los pela TV, e não só, aqueles que pretendem passar por estrela, ainda que em um breve estrelato, basta aparecer naquele limitado campo de ação e faz-se ali o seu momento de “glória” ! E  nós?

Muitos de nós estamos, como numa espécie de “deleite mórbido”, a contar presença e dar os pontos para que a audiência atinja seus picos, sem tempo para obter a informação e refletir, sem tempo de nos dar conta que ali não é ficção, mas realidade, mesmo que aquela imite a vida, estamos a espera de menos além do que o the end – o que está acontecendo com o ser humano? Podem me dizer, por favor!  Recordo-me nesse instante a conhecida frase de  Thomas Hobbes – “o homem é o lobo do próprio homem”. Como somos ferozes, ferocidade impressa de tantas formas, mas, sobretudo, posta nesse “mórbido prazer” em ser espectador de trágicas notícias, e a prova disso é o elavado indíce de audiência para aqueles programas sensacionalistas que passam o dia a mostrar os crimes ocorridos nas grandes metrópoles.

Somos os marginalizados do outro lado da cortina? Somos! Capturados por uma distorção de imagens e interpretações que ficam ao sabor do capitalismo selvagem a espera de bater os pontos de audiência e da vendagem de mais e mais revistas e jornais?  Somos! E como diz o Nelson Hoineff, nessa altura já passamos e muito de espectadores, somos, unicamente – consumidores passiveis, a espera do produto seguinte! Então vamos consumir coisas melhores, vamos ler as revistas que não são manipuladas pelos interesses políticos do nosso país, vamos assistir canais de TV que consideram que somos seres capazes de interpretar uma formação, que não somos debilóides.

Algo me causou ainda mais espanto ao terminar de ler essa matéria, foi o fato da pergunta final, que em verdade é uma resposta – A propósito: como era mesmo o nome completo daquela menina que jogaram pela janela?” Parei para pensar e como num sopro me veio – “Isabella Nardoni”. Lembram dessa outra bola da vez? Sim, a notícia já ficou velha, o show já foi transmitido, as bilheterias já lotaram, o lucro já foi auferido, e a com a mesma rapidez que toda aquela tragédia nos chegou, foi consumida. Outras também passaram e outras também chegarão, como essa do “Sequestro de Santo André”, não há tempo para processar nada, não há reflexão de nada, o importante é manipular a notícia!

Por tudo isso, penso que o texto do Nelson Hoineff, deixou de fora uma importante reflexão – e qual seria ela? Para um “jornalismo selvagem” também há um espectador que pretende ser apenas um consumidor, e esse espectador não faz parte apenas de classes sociais menos informadas, não! Vejo também nesses espectadores pessoas intituladas esclarecidas e escolarizadas, pessoas com a acesso a outras informações que não apenas essas, pessoas que poderiam utilizar do seu poder de discernir, que poderiam não colaborar para o aumento desses pontos de audiência, mas permanecem pacíficas, sentadas a assistir tudo isso como num delírio cego sem dar-se conta de nada.

Ficam as perguntas, e mesmo que elas não tenham uma imediata resposta, que nos sirva de reflexão: o que os nossos olhos, efetivamente, enxergam, são as informações que nos são passadas? Será que um dia aprendemos a ver ou desaprendemos sem nos dar conta?