A “REDE” QUE NOS CONFUNDE

Outubro 25, 2010

Num verdadeiro “mix” de acontecimentos, textos, falas, sons, celulares tocando, lep top´s ligados e muitas pessoas a minha volta, me dei conta no exato momento em que aconteceu – que tudo insiste em ser muito rápido!

Existe a nossa disposição um verdadeiro clamor convidando para uma reflexão que altera a percepção das coisas, e, por via de conseqüência, a compreensão de vida.

Assim, convido a que pensem comigo:

Inspirada numa crônica de autoria do Ferreira Gullar, publicada num domingo de Folha de São Paulo, na fala do personagem de nome “Pedro”, dita explosivamente na peça “Corte Seco” – que está fazendo parte da programação da FIAC 2010 (Festa Internacional de Artes Cênicas) e nos acontecimentos dos últimos dias que adornaram a minha vida de graça e beleza, fui convida a escrever sobre esse verdadeiro caos que captura e confunde os nossos dias.

Não raro buscamos o significado das coisas, seja para aqueles que acreditam na força divina ou não – ateu, agnóstico, deísta, etc, sem pensar em religião, inevitavelmente, em um dado momento, todos acabam por refletir diante da existência do mundo e da razão das coisas, até mesmo os mais insensíveis.

A Filosofia permanece como terreno fértil em meio às inquietações – reflexões que muitas vezes caem no vazio porque não chegamos a uma conclusão, e como narrou Marcelo Gleiser em “À Procura do Fim da Trilha” – destaque da Ilustrada da Folha desse domingo, não chegamos ao final da trilha, aliás, diga-se de passagem que essa trilha não tem um final, constantemente estamos dando a partida – para chegar aonde? Não sabemos!

O Pedro da peça disse algo que sempre toma a minha refelxão e que nos últimos tempos, quando entro em uma reunião fico a pensar porque percebo que as pessoas não conseguem se concentrar para o tema, pois a maioria delas está preocupada com o tempo cibernético, com o que passa nos seus celulares, no sms, iPOD´s, iPED´s, lep top´s Apple, Google Maps, Google Earth, facebook, twiter, orkut, hotmail, skype, são muitos meios que capturam o tempo sob o manto de “ocupação”.

Saío da reunião e as ruas estão cheias, o trânsito segue caótico e a cada dia tende a ficar pior. As avenidas estão lotadas de pessoas e carros circulando… tem fila para tudo, tem passadeiras demais pelas ruas, tem pedestres demais, e em Salvador – igrejas demais, semáforos demais, telefones demais, poluição demais, tem ruas demais, tem tarefas demais para cumprir, livros em demasia para ler e as informações que vão ficando velhas a cada segundo.

A tecnologia vai consumindo tudo, deflagrando o envelhecimento dos nossos tempos, bilhões de pessoas conectadas á rede pelo mundo afora e isso é a prova de que os servidores não dormem – e nós, dormimos?

Estamos ficando cegos – será? Num coletivo “Ensaio da Cegueira” são olhos demais, sensações demais, problemas demais, e-mails demais por responder, sites demais por acessar, jornais e livros demais para ler, notícias que se defasam a cada instante e quando tentamos aquietar ainda pensamos que não estamos conseguindo dar conta de tudo e não raro nos aparece alguma angústia.

Não se preocupem – não ficaremos fora do tempo se não estivermos acessando tudo isso! Lembremos que homens como Gilberto Freire, Carlos Drummond, Guimarães Rosa e tantas outras mentes brilhantes existiram por muito tempo numa era em que não havia os google´s, nem os iPed´s, iPod´s e nem todos os correlatos e, ainda assim, nos presentearam com obras imortais, o que nos confirma que é possível ter conhecimento e produzir raridades sem a necessidade de permanecer todo o tempo acessando tantos aparatos modernos.

Talvez estejamos demasiado loucos, nos deixando ser tragados pela vida desvairada de cada dia. Enquanto isso cresce o número de pessoas solitárias, pessoas que usam a rede para ocupar o tempo na falsa sensação de que há uma companhia real do outro lado. Não, não há!

É preciso viver a própria vida porque não estamos num ensaio, bom seria se tivéssemos primeiro um tempo de ensaio para depois o tempo de vida real, mas como já sabemos, não é assim. É preciso desligar os servidores em algum momento, voltar para casa, esquecer todos esse meios de acesso que temos, sentir o cheiro do aconchêgo, sentir o acolhimento de um abraço amplo e sincero, de um colo quentinho, de um olhar terno, de uma palavra de incentivo – é preciso permissão para um afeto verdadeiro!

Em que lugar do seu dia está alguma dessas coisas, em que lugar do seu tempo existe espaço para o STOP, para apertar o OFF e verdadeiramente desligar?

Em que lugar dentro de você poderá se livrar de tantos aparatos da tecnologia e simplesmente sair por aí e relaxar? …Vamos fazer isso enquanto não ficamos ainda mais loucos, antes que inventem um novo programa de computador que seja acessado enquanto dormimos e que nos proponha substituir tudo, até mesmo os relacionamentos, os afetos, e o pior – antes que venhamos a acreditar que isso é mesmo possível!

E nessa rede que nos consome, será que conseguiremos um dia mais feliz quando aprendermos a viver apesar dela?

Se tiver de amar, ame hoje, se tiver de sorri, sorria hoje, se tiver de chorar, chore hoje, porque tudo que temos é o HOJE e para viver é preciso que se dê permissão…”

Uma resposta to “A “REDE” QUE NOS CONFUNDE”

  1. Aline said

    Déa,
    Ainda bem que sempre damos uma “Pausa Para Respirar”!
    Até lá…
    Beijo no seu coração,
    Aline

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