Num verdadeiro “mix” de acontecimentos, textos, falas, sons, celulares tocando, lep top´s ligados e muitas pessoas a minha volta, me dei conta no exato momento em que aconteceu – que tudo insiste em ser muito rápido!

Existe a nossa disposição um verdadeiro clamor convidando para uma reflexão que altera a percepção das coisas, e, por via de conseqüência, a compreensão de vida.

Assim, convido a que pensem comigo:

Inspirada numa crônica de autoria do Ferreira Gullar, publicada num domingo de Folha de São Paulo, na fala do personagem de nome “Pedro”, dita explosivamente na peça “Corte Seco” – que está fazendo parte da programação da FIAC 2010 (Festa Internacional de Artes Cênicas) e nos acontecimentos dos últimos dias que adornaram a minha vida de graça e beleza, fui convida a escrever sobre esse verdadeiro caos que captura e confunde os nossos dias.

Não raro buscamos o significado das coisas, seja para aqueles que acreditam na força divina ou não – ateu, agnóstico, deísta, etc, sem pensar em religião, inevitavelmente, em um dado momento, todos acabam por refletir diante da existência do mundo e da razão das coisas, até mesmo os mais insensíveis.

A Filosofia permanece como terreno fértil em meio às inquietações – reflexões que muitas vezes caem no vazio porque não chegamos a uma conclusão, e como narrou Marcelo Gleiser em “À Procura do Fim da Trilha” – destaque da Ilustrada da Folha desse domingo, não chegamos ao final da trilha, aliás, diga-se de passagem que essa trilha não tem um final, constantemente estamos dando a partida – para chegar aonde? Não sabemos!

O Pedro da peça disse algo que sempre toma a minha refelxão e que nos últimos tempos, quando entro em uma reunião fico a pensar porque percebo que as pessoas não conseguem se concentrar para o tema, pois a maioria delas está preocupada com o tempo cibernético, com o que passa nos seus celulares, no sms, iPOD´s, iPED´s, lep top´s Apple, Google Maps, Google Earth, facebook, twiter, orkut, hotmail, skype, são muitos meios que capturam o tempo sob o manto de “ocupação”.

Saío da reunião e as ruas estão cheias, o trânsito segue caótico e a cada dia tende a ficar pior. As avenidas estão lotadas de pessoas e carros circulando… tem fila para tudo, tem passadeiras demais pelas ruas, tem pedestres demais, e em Salvador – igrejas demais, semáforos demais, telefones demais, poluição demais, tem ruas demais, tem tarefas demais para cumprir, livros em demasia para ler e as informações que vão ficando velhas a cada segundo.

A tecnologia vai consumindo tudo, deflagrando o envelhecimento dos nossos tempos, bilhões de pessoas conectadas á rede pelo mundo afora e isso é a prova de que os servidores não dormem – e nós, dormimos?

Estamos ficando cegos – será? Num coletivo “Ensaio da Cegueira” são olhos demais, sensações demais, problemas demais, e-mails demais por responder, sites demais por acessar, jornais e livros demais para ler, notícias que se defasam a cada instante e quando tentamos aquietar ainda pensamos que não estamos conseguindo dar conta de tudo e não raro nos aparece alguma angústia.

Não se preocupem – não ficaremos fora do tempo se não estivermos acessando tudo isso! Lembremos que homens como Gilberto Freire, Carlos Drummond, Guimarães Rosa e tantas outras mentes brilhantes existiram por muito tempo numa era em que não havia os google´s, nem os iPed´s, iPod´s e nem todos os correlatos e, ainda assim, nos presentearam com obras imortais, o que nos confirma que é possível ter conhecimento e produzir raridades sem a necessidade de permanecer todo o tempo acessando tantos aparatos modernos.

Talvez estejamos demasiado loucos, nos deixando ser tragados pela vida desvairada de cada dia. Enquanto isso cresce o número de pessoas solitárias, pessoas que usam a rede para ocupar o tempo na falsa sensação de que há uma companhia real do outro lado. Não, não há!

É preciso viver a própria vida porque não estamos num ensaio, bom seria se tivéssemos primeiro um tempo de ensaio para depois o tempo de vida real, mas como já sabemos, não é assim. É preciso desligar os servidores em algum momento, voltar para casa, esquecer todos esse meios de acesso que temos, sentir o cheiro do aconchêgo, sentir o acolhimento de um abraço amplo e sincero, de um colo quentinho, de um olhar terno, de uma palavra de incentivo – é preciso permissão para um afeto verdadeiro!

Em que lugar do seu dia está alguma dessas coisas, em que lugar do seu tempo existe espaço para o STOP, para apertar o OFF e verdadeiramente desligar?

Em que lugar dentro de você poderá se livrar de tantos aparatos da tecnologia e simplesmente sair por aí e relaxar? …Vamos fazer isso enquanto não ficamos ainda mais loucos, antes que inventem um novo programa de computador que seja acessado enquanto dormimos e que nos proponha substituir tudo, até mesmo os relacionamentos, os afetos, e o pior – antes que venhamos a acreditar que isso é mesmo possível!

E nessa rede que nos consome, será que conseguiremos um dia mais feliz quando aprendermos a viver apesar dela?

Se tiver de amar, ame hoje, se tiver de sorri, sorria hoje, se tiver de chorar, chore hoje, porque tudo que temos é o HOJE e para viver é preciso que se dê permissão…”

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