Quarto dia de FLIP – sábado, 07 de agosto

Agosto 25, 2010

Sábado, possível tenha sido o dia mais quente de Paraty, de céu azul, claro e límpido. As ruas pareciam brilhar de um modo diferente e o movimento, dado ser o final de semana, era algo típico de FESTA, havia uma astral contagiante na cidade marcado pelo vai e vem das pessoas que passavam de um lado a outro, com olhos ávidos por descobrir, afinal, o que se passava na FLIP 8? Mas ao mesmo tempo, ao menos para nós, nesse terceiro dia já havia um sentimento melancólico no ar, talvez uma sensação de despedida tomava um pouco dos nossos sentidos.

O dia imensamente azul era um convite a um passeio pela linda baía de Paraty – repleta de ilhotas pequeninas tomadas por vegetação, daquelas paisagens típicas do Rio de Janeiro, daquelas que logo identificamos ao pisar no estado do Rio de Janeiro e sermos surpreendidos pela sua beleza.

Foi assim que decidimos caminhar até a margem do rio em busca de um daqueles barquinhos estacionados para um contemplativo passeio de barco. Ficamos por uns trinta minutos a espera de um barco até que um, que acabava de chegar de um passeio, nos levou para uma hora de navegação por aquela linda baía: um grupo de 06 pessoas, um custo de R$ 10,00 (dez reais) por pessoa e lá fomos nós a celebrar a vida em Paraty e sentimos que aquele até poderia ser o último dia das nossas vidas, pois tudo estaria muito bem – o momento era uma dádiva!

Navegar pela baía de Paraty – em dia de sol e brisa leve, é como ser saudados pela imensidão do azul do mar. A Serra do Mar é o pano de fundo que deixa um clima de mistério que é refletido na luz do mar e nos deixa encantados, meio que deslumbrados, meio que sem palavras, num daqueles momentos em que não há o que dizer porque o momento existe para ser tão somente contemplado.

Quando terminamos, ao voltar para margem do rio perequê-açu ainda nos foi reservada a surpresa de ver o famoso Amyr Link que estava ali, diretamente dos oceanos para os palcos, no barco “Piloto Pardo” já que havia sido convocado como curador do show de abertura da FLIP 8.

Depois desse passeio nos coube um almoço corrido num daqueles restaurantes deliciosos de Paraty, porque ainda tivemos que encontrar tempo para passar na Livraria da FLIP e comprar o livro “Alguma Poesia” – primeiro livro de poemas de Carlos Drummond de Andrade, que completa 80 anos em 2010, organizado por Eucanaã Ferraz e ás 15:00 horas o nosso compromisso era na Tenda dos Autores para assistir a Leitura de tal livro – um tributo a Carlos Drummond com uma leitura de Alguma poesia, pelos poetas Antônio Cícero, Ferreira Gullar, Chacal e Eucanaã Ferraz, que também assinou a direção do evento e queríamos acompanhar essa leitura com o livro em mãos.

Nossa, que tarde linda! Foi uma emoção assistir aqueles quarto escritores a ler Drummond, cada um deles lia um poema e assim todos os poemas foram lidos, um a um, para o deleite de todos que estavam ali e, em alguns momentos, ainda éramos arrebatados com algum comentário sobre o grande poeta Carlos Drummond, uma espécie de declaração do que o poeta representa no sentir de cada um.

Ferreira Gullar, como sempre, surpreendeu tanto quanto o poeta homenageado e acabou sendo, juntamente com os poemas de Drummond – a estrela do momento. Disse que Drummond é atual, contemporâneo e do quanto perplexo ficou, quando, pela primeira vez, pensou na “lua diurética” e indagou: “há algo mais inovador que isso?”…

A sensação que ficou em nós é que essa tarde poderia durar tantas outras horas e que tantas outras poesias de Drummond ainda poderiam ser lidas porque a alma estava sendo alimentada, se enchendo de alegria, de um sentimento verdadeiro do que é participar de uma festa como aquela, de tanta celebração á literatura. Foi o ápice da festa para nós! Saímos dali sorrindo, com a alma amplamente preenchida – e viva a Flip!

E como se não bastasse, logo a seguir, ás 17:15 Ferreira Gullar era o poeta homenageado na mesa 13 da Tenda dos Autores. No dia 10 de setembro o poeta completará 80 anos e será lançado seu novo livro de poesias “Em Alguma Parte Alguma“, com o particular que esteve 11 anos sem publicar e após receber o prêmio “Camões”, o mais importante prêmio da língua portuguesa, foi ali na Flip que ele aportou. Na conversa Gullar passou em revista a sua trajetória e trechos do seu novo livro de poemas.

Figura singular, única, presente ainda nos nossos tempos e que nos faz sentir orgulho do “ser brasileiro”. Gullar é um homem criativo, inteligente, simples, único e de uma simpatia contagiante, que arrancou muitas gargalhadas e a atenção especial do público e sobre a poesia, dentre outras coisas disse “falar de poesia é sempre gratificante.”A poesia para mim, nasce do espanto. Quando ela vem, não respeita nenhuma lei. Nem sei se poesia é literatura. Não faço poesia na hora que quero. Não posso determinar: hoje vou fazer poesia.”
Filosofando ainda mais sobre a poesia afirmou que “A arte existe porque a vida não basta.” “…Escrever poesia não é sofrimento, como muitos poetas dizem. É mentira. Você faz porque quer, ninguém manda você fazer.” ”…O poeta transforma o sofrimento em beleza (estética). Transforma a dor em alegria.”

Gullar fez um passeio ainda sobre o início de sua carreira, quando iniciou suas poesias pelo Parnasianismo, depois aderiu ao Modernismo, passando pelo Concretismo. Falou também sobre o exílio em Buenos Aires e sobre o livro que lá escreveu, “Poema Sujo”. No final, após ser aplaudido durante 02 minutos pelo público emocionado e de pé, disse: “É bom saber que a poesia ainda provoca isso nas pessoas.”

De toda tarde e nascer da noite, poéticos como esse que tivemos, talvez possamos resumir a marcante figura do poeta Ferreira Gullar e sua pessoa numa única frase proferida por ele na Flip 2006:”Não quero ter razão, quero ser feliz”.Pensam que a nossa noite terminou por ai? Ainda não! Ás 20:00 horas nos restou fôlego para ir até a Casa da Cultura assistir um documentário sobre a vida e obra do Gilberto Freyre – “O Cabral moderno”, realizado pelo cineasta Nelson Pereira dos Santos e nele o professor Edson Nery da Fonseca – amigo e biógrafo de Freyre – personifica o sociólogo e faz as vezes de narrador e um dos trunfos do documentário superdidático e muito bem elaborado é a participação da Companhia Teatro Seraphim do Recife.

Esse foi aquele último suspiro que nos faltava para arquivar na memória todo o acervo que adquirimos nessa Flip quanto ao grande Gilberto Freyre.

Por fim tivemos o nosso merecido jantar no restaurante Bartolomeu (que recomendo) – cheio de graça, aconchegante, charmoso, cuidadosamente decorado, em meia luz, móveis antigos e um lindo quintal cuidadosamente decorado, de muito verde, árvore lindas que dão um toque todo especial e uma comida de aroma e sabor fantástico. Preciso dizer mais?

O sábado de FLIP foi verdadeira festa!

2 Respostas to “Quarto dia de FLIP – sábado, 07 de agosto”

  1. Estou de volta. Já havia lido suas novas postagens há tempo, mas, não pude comentar. Para não esquecer deixei seu blog aberto em meu navegador durante todos esses dias.hehe

    Mas, falando sobre o texto – como sempre – gostei muito. Fiquei triste e alegre. Triste porque não pude ir e não sentir tudo que poderia sentir se estivesse lá.E fiquei alegre por você ter ido e ter tirado tanto proveito. Se eu pudesse te espremia para tirar tudo que você absorveu por lá. rsrsrs

  2. Jonga (Ok... João...) said

    Déa… Sempre uma delícia de leitura… Sempre querida…

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