Terceiro dia de FLIP – Sexta, 06 de agosto

Agosto 18, 2010

Dia de sol em Paraty, apesar de uma brisa friazinha pelo ar, seguimos nós a caminho da Casa da Cultura para assistir, ás 10:00 horas – “bate-papo com Thereza e Tom Maia”.

Como curiosidade, conto que os ingressos para a Flip – Casa da Cultura (como podem conferir na foto) custam metade do valor dos ingressos (meia) para a Tenda dos Autores, ou seja, R$ 10 e são vendidos apenas em Paraty, durante a Flip, diferente dos demais ingressos que um mês antes do evento começar são vendidos pela Internet.

Estávamos curiosos por conhecer a casa que hospeda a FLIP – que é uma realização da Associação Casa Azul, presidida por Mauro Munhoz e a tal Casa Azul desenvolve trabalhos de revitalização em Paraty e mantém um programa educativo continuado na região, que visa transformar a cidade histórica fluminense em modelo de turismo cultural e em uma cidade de leitores e para matar essa nossa curiosidade compramos para a Casa da Cultura, o “bate-papo com Thereza e Tom Maia”, ela historiadora, ele ilustrador.

Autores de mais de 40 livros sobre a memória brasileira, alguns deles em parceria com Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e outros nomes da historiografia nacional e nessa bate-papo revelaram passagens de encontros que tiveram com o saudoso Gilberto Freyre, contando um pouco dos seus modos, dos seus gestos para com os amigos, da forma amável e cativante de recebê-los em sua casa, lançando na memória do tempo os bons momentos que desfrutaram junto a Freyre, oportunidade em que eles também falaram da relação do casal com a cidade de Paraty, numa espécie de reflexão das questões locais paratienses, além de trazerem à tona aspectos peculiares da cidade, que há mais de 40 anos faz parte da vida do casal.

Ainda descobrimos que uma das novidades deste ano que aconteceu na Casa da Cultura foi o que eles promoveram intitulando como Jogo de Ideias (com curadoria do Itaú Cultural) – uma série de encontros em que um escritor entrevistaria o outro, esse outro entrevista um terceiro, e assim sucessivamente, e para essas verdadeiras “partidas” foram escalados vários “jogadores” do primeiro time das letras: Frei Betto, Cristóvão Tezza, Luiz Ruffato, Benjamin Moser e José Castello, entre outros.

Saímos desse bate-papo com uma sensação de leveza, levando na bagagem a idéia de quem foi o homem Gilberto Freyre, que além da genialidade havia a alma de um homem humano, de relações profundas com os amigos; não só, aprendemos mais sobre a cidade de Paraty, o seu povo, a preocupação com a preservação da sua história e descobrimos que, apesar de já em processo de reconhecimento como patrimônio cultural da humanidade, a Unesco ainda não a reconheceu como tal, o que, para Thereza e Tom Maia é algo inconcebível dada a importância histórica da cidade, que é tombada como patrimônio histórico nacional pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

Logo do outro lado do rio, atravessando a bela ponte que separa a Tenda dos Autores da Tenda do Telão, a seguir, estávamos nós em busca dos convites para a Mesa 7- “Além da casa grande”, uma das mesas especificas em homenagem a Gilberto Freyre, marcada para 12:00 horas e aí, ainda na fila, à espera da nossa vez e com receio dos ingressos terminarem, eis que uma pessoa põe os seus ingressos à venda e nos oferece, mas, para nossa grande surpresa, ao mesmo tempo, acreditem, aparece um homem e, simplesmente, nos diz: não, não comprem, estou dando os meus ingressos

Sim, sim, e não pensem que fomos contemplados com os ingressos porque a Mesa 7 não era interessante, ao contrário, já não havia mais ingressos para essa mesa, mas o que acontece e descobrimos nesse instante, é que na FLIP também há coisas dessa natureza – pessoas que ganham cortesia, algumas que estão a trabalhar na FLIP e doam os seus convites assim, em cima da hora, para outros como nós, que estão ali cheios de boa intenção à espera dos convites serem postos à venda. Grata à comentada Mesa 7. Conto mais: encontramos os melhores lugares, tendo à nossa frente os chamados convidados especiais da FLIP, a exemplo da Regina Casé e do marido que marcaram presença na pletéia e ainda assistimos às poses para fotos.

A proposta da mesa 7 foi trazer três estudiosos e admiradores dos pensamentos do Gilberto Freyre e examinar a sua obra para além dos livros mais famosos, porque apesar de muito vasta, a sua obra costuma ser lembrada apenas por Casa-grande & Senzala e Sobrados e mucambos.

Nordeste foi o tema do africanista Alberto Costa e Silva; a socióloga Ângela Alonso discorreu sobre Ordem e progresso e a historiadora Maria Lúcia Pallares-Burke falou sobre Ingleses no Brasil.

Sobre os participantes dessa mesa vale lembrar que Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke é escritora e historiadora, autora de Gilberto Freyre: Um Vitoriano dos Trópicos (Unesp, 2005), e uma das responsáveis pela programação da homenagem ao sociólogo brasileiro; Ângela Alonso é socióloga e Professora do departamento de sociologia da USP, e Alberto da Costa e Silva é diplomata, ensaísta, memorialista, historiador e ocupante da Cadeira nº9 da Academia Brasileira de Letras.

Segundo Costa e Silva, o livro destaca também como o negro foi colonizador do Brasil – e na mesma proporção do branco europeu. “Os portugueses aprenderam com os africanos práticas como a agricultura, a pecuária e a cata de ouro. Aliás, Freyre deu nova dimensão ao negro, que foi totalmente ignorado por pensadores como Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Hollanda”, ressaltou.

Em “Ingleses no Brasil”, essa valorização do aparentemente periférico se repete, como demonstrou Maria Lúcia. Ao estudar a participação britânica na formação do Brasil, Freyre se debruça sobre o que chama de “revolução branca”. “Ele investiga a invasão de produtos como a lâmpada a gás, a cerveja, e hábitos como o uso de facas à mesa, procurando compreender como se deu esse encontro entre duas culturas desiguais.Encontro que envolveu subordinação, conflito, resistência e acomodação”, alertando, contudo, que o livro não é uma denúncia do imperialismo, e que Freyre registrou também as marcas do “abrasileiramento” dos “invasores” e citou as palavras do próprio sociólogo: “Os ingleses levaram mais do que exóticas borboletas, papagaios e macacos”.

Ao examinar “Ordem e progresso”, Ângela Alonso comentou a metodologia de Freyre, que recorria, em seus estudos, a anúncios, rótulos de cigarro, receitas de bolo e modinhas. “Freyre dizia fazer bisbilhotice disfarçada de investigação sociológica”, observou. Para escrever “Ordem e progresso”, ele entrevistou militares, políticos, ex-escravos, prostitutas e babalorixás. E mesmo alguns personagens que não quiseram dar entrevistas foram incluídos. São os casos do ex-presidente da República Getúlio Vargas e do escritor Monteiro Lobato, cujas cartas de recusa Freyre reproduziu no livro.

Ângela salientou que, ao abordar a desagregação da sociedade patriarcal no Brasil, “Ordem e progresso” não busca explicar a transformação política, mas refletir sobre a mudança de padrões sociais. “E para isso o que importa não é o 15 de novembro, é o 13 de maio”, sintetizou.

E a Mesa 7 foi, realmente, um deleite, seja pelo conteúdo, seja por termos sido contemplados com os convites, seja porque tivemos a chance de perceber que estavamos diante de um momento que marcava a nossa estada na FLIP! Foi a oportunidade de escutar mais sobre a obra de Gilberto Freyre por admiradores, de fato, da sua obra, estudiosos que falaram com muita propriedade sobre cada um dos livros escolhidos, mas não só, trouxeram particulariades que, para muitos que estavam ali, como nós, revelava o universo de um homem que foi admirado por muitos, mas nem sempre compreendido por todos.

Saimos FELIZES com mais um dia de FLIP!

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