A mídia roendo o osso até o caroço – “O caso do goleiro Bruno”

Julho 13, 2010

Tentei não falar sobre esse assunto, mas como poderia não fazê-lo quando, irritantemente, a cada vez que ligo o meu televisor e deve acontecer o mesmo quando liga o seu e a perseguição da noticia é sempre a mesma – O CASO DO GOLEIRO BRUNO!!! E olha que foi parar até nos tablóides internacionais.

Sim, sim, o “CASO BRUNO”. Não me diga que você ainda não ouviu falar? Sim, o caso que conta com mais tempo nas informações do que o próprio Big Brother, o caso que vem sendo mais acompanhado que novela das oito.

Aquele caso dentre tantos outros que já foi a bola da vez e que também já foi esquecido, como o caso daquela jovem paulista que matou os pais para ficar com a herança (lembra o nome dela? também não me recordo!), como aquele do namorado de Guarulhos que manteve a namorada no cárcere privado porque não aceitava o fim da relação (lembra o nome dele? também não me recordo!). Sim, é mais um caso que a mídia sensacionalista, vazia de notícias aproveita á hora e a vez para expor á luz dos seus holofotes o famoso goleiro do Flamengo – o Bruno!

Segue a mídia roendo o osso, até o caroço, como abutres, como canibais frente a uma vasta presa e tudo isso propagado como notícia em destaque : Goleiro suspenso do Flamengo. É suspeito de ser o mandante do crime e ter presenciado a morte de Eliza. No Rio, foi indiciado por sequestro e lesão corporal em 2009. Em Minas, pode ser indiciado por sequestro, homicídio qualificado, formação de quadrilha e ocultação de cadáver (fonte: Folha.com)

A notícia perde o foco, a importância perde o corpo da razão e não temos tempo de refletir sobre a informação, não resta tempo para sensibilizarmo-nos porque tudo é banalizado, porque tudo é posto e reposto apenas sob a ótica dos olhos de quem faz a notícia.

Parece que todos esqueceram que somos seres capazes de interpretar, feitos de razão e emoção a compreender uma situação, um crime, uma catástrofe, mas não nos é dada essa oportunidade e nos põem como “marionetes”, aquelas que precisam ser conduzidas – pobres interlocutores!

Pobre de mim, de você, de todos que somos público alvo, pois não há como abrir um jornal, um site, seja que meio pretenda para está informado do que acontece aqui ou no mundo, que a perseguição permanece – O caso Bruno!

O verdadeiro bombardeamento da mídia decorre da obsessão que a “grande massa” possui pela miséria. Vive-se cercada por ela, basta olhar para o lado quando passamos de carro, do ônibus ou qualquer outro meio, simplesmente andando a pé pelas ruas do nosso país para constatar que – convivemos com a miséria lado a lado, mas essa miséria que vem da rua parece não mais interessar, não sensibiliza. Essa miséria não é dos
famosos, essa miséria parece não despertar a curiosidade, o interesse, e com ela convive-se de mãos dadas.

Claro que o caso Bruno desperta maior interesse porque nele se vê a miséria da alma, do indivíduo que, aparentemente normal, num instante da vida, deixa vir á tona a sua anomalia, e descobre-se como tal.
Nesse momento é importante saber – estamos diante de um psicopata? O conceito de Psicopata, Personalidade Psicopática e, mais recentemente, Sociopata é um tema que vem preocupando a psiquiatria, a justiça, a antropologia, a sociologia e a filosofia desde a antigüidade e esse tema seguirá sempre como pauta da vez porque sempre houve e haverá personalidades anormais como parte da população geral.(leiam: http://super.abril.com.br/ciencia/mente-mata-442855.shtml)

Platão, citado por Freud, na sua obra “A Interpretação dos Sonhos – Obras Completas de S. Freud – vol. V – Rio – Imago – 1972 – p.658, diz que o homem virtuoso se contenta em sonhar aquilo que o homem perverso realmente executa. Ou seja, os desejos inconscientes comuns a todos estão repletos de fantasias de assassinato e incesto, como se evidenciam, por exemplo, no complexo de Édipo.

A grande diferença entre o “homem virtuoso” e o “homem perverso” é que no primeiro tais desejos são reprimidos pelo superego e sublimados seguindo as exigências do ideal do ego, coisa que não acontece no segundo, cujo aparelho psiquico apresenta falhas nestas duas instâncias, devido a graves distúrbios no relacionamento com as figuras primárias.

Daí o verdadeiro show que fizeram dessa notícia. O povo precisa saber se o goleiro Bruno é o homem perverso ou o homem virtuoso. Apesar de até então parecer um ser normal, possui os seus desvios de conduta, a tal ponto de cometer um crime e agora vir a ser enquadrado como um psicopata e essa notícia é posta como algo que pode mudar a vida das pessoas – e pergunto: o que muda na vida das pessoas? Nada!

Insanos são todos os que, como verdadeiros abutres sobrevoam essas notícias e alimentam-se dela! Insanos são os que precisam manter essa informação como se fosse algo vital para se viver.

É preciso acordar para o presente, é preciso sair desse adormecimento coletivo, dessa cegueira coletiva do não pensar, do contentamento da notícia pronta.

O mundo clama por autodeterminação, clama por pessoas pensantes, por pessoas que abandonem o bizarro e lembrem de viver. O contexto não será mudado, o Bruno não voltará no tempo para desfazer o seu mal feito, e se pudesse nem sabemos se o faria, mas a mídia sim, essa seguirá sempre a mesma – ávida por suas cruéis obsessões, e nós, ocuparemos que lugar diante de tudo isso? Seguiremos nos contentando em ser marionetes dessas informações?

Vamos desenvolver o nosso senso crítico, vamos acordar para essa cegueira que diariamente nos convidam a participar porque se nos determinarmos assim, ainda confio que notícias como as do Bruno não serão tão importantes como insistem que sejam.

Uma resposta to “A mídia roendo o osso até o caroço – “O caso do goleiro Bruno””

  1. Olhe eu de volta.
    Gostei bastante do texto. Achei-o extremamente sóbrio e direto.
    A mídia tem feito quase que todos de marionetes. Muitas vezes me sinto sendo tratado como um idiota diante coisas apresentadas pela tevê. Não suporto mais me sentir como idiota e optei por assistir somente filmes.
    Constatei que as pessoas gostam do mais fácil. Quase ninguém que pensar, meditar. Acham uma perda de tempo.
    E a sim eles (mídia corrosiva) vão se alimentando da carne podre que contribuem para existir.
    Abrigado Andréa pelo maravilhoso texto.
    Depois dê uma passada em meu blog também. Falei um pouco sobre o caso: http://falaparticular.blogspot.com/2010/07/tenho-pensado-que-felicidade-e-um-mal.html

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s