OS APEGOS NOSSOS DE CADA DIA…

Maio 17, 2010


Todo apego é insano!

Deixa-me explicar melhor. Aqui quero acessar várias formas de apego. Estão aqui aquelas pequenas ou grandes coisas que nos apegamos, cuja mente nos trai como simples preferências e começa por acontecimentos corriqueiros do nosso dia a dia. É o apego a banca de jornais da esquina (kiosco em Portugal), aquela que passamos todos os dias e paramos para olhar os montes de apelações visuais que faz a nossa mente saltitar meio eufórica por percorrer os olhos em tudo.

É a sorveteria (gelateria) de costume, na busca do sabor preferido, daquela casquinha crocante, e assim para alimentar o nosso doce hábito de sempre. Aquele cineminha na poltrona de sempre e que nos faz sentir em casa sem promessa de adeus. Aquela padaria de costume, do pão quentinho – branquinho ou mais torradinho (vai depender da preferência) e tudo isso sem esgotar a vasta lista que contempla o nossos tantos apegos.

Fazemos isso com tantas coisas que não nos damos conta do por que as fazemos, sobre o manto de serem meras predileções. E há algum mal nisso?

Talvez sim, talvez não! Mas o estranho em tudo isso é perceber que aí pode residir uma certa dificuldade em acessar o desapego.

O apego é também meu, é seu, é de muita gente que anda circulando nesse vasto mundo por aí – é coisa de gente, é coisa do bicho homem, é coisa de quem é “grande”.

Desenvolvemos esses apegos com coisas quase como manias, e se isso passar apenas pelas coisas – menos mal, mas e quando tudo isso atinge os sentimentos das nossas vidas e as pessoas? E aqui podemos pensar em outro tipo de “apego”, aquele que nos faz, aos poucos, ser como ostras – fechados, sem nos dar conta do quão lindo seria se mais vezes permitissemos a pérola vir á tona. O apego por crenças que criamos em nós mesmos e não sabemos sequer a razão.

Tudo isso me fez pensar num amigo que encontrei algunas anos atrás, em um café, num daqueles dias de muito frio que nos pomos a refletir mais sobre vida e filosofar sobre ela… Recordo-me quando ele disse que estava apegado ás suas crenças – naquele momento a idéia de ficar sozinho, de não dividir o espaço sagrado da sua casa, pois acreditava que deveria ser apenas seu. Não queria meias sujas espalhadas pelo cesto do banheiro, que não as suas. Não queria outros livros na mesinha de cabeceira que não os seus. Não queria alguém esperando por ele, senão ele mesmo. Sim, ele estava apegado ao limite do seu espaço que queria fosse apenas seu, mas ao mesmo tempo residia na “fala” dele um desejo latente de ser mais que um, de transpor a barreira do seu próprio isolamento e permitir a entrade de outro ser no seu espaço!

Como se não bastasse essa minha memória, ainda outro dia me deparei novamente com essa “fala”; percebi nela que por vezes estamos num bloqueio quase esquizofrênico – um apego humano de estar só, apesar do querer ser coletivo. Um grande paradoxo que nos propomos, uma dessas coisas que o ser homem cria e nem ele mesmo sabe o significado.

Rememoro aqui a frase de Oscar Wilde: “o caminho dos paradoxos é o caminho da verdade”. Penso eu que talvez um dia, quem sabe, se viermos a descobrir a razão de tantos paradoxos, possamos encontrar a verdade escondida nos tais apegos e exercitar melhor o desapego, o desprendimento de coisas e crenças, de passados e de lembranças escondidas.

As oportunidades passam muito rapidamente, mesmo para uma vida bem vivida, e nesse correr do tempo, da fugacidade de cada dia, diante de tantas coisas que temos que fazer por mera obrigação, pois, inevitavelmente, essas coisas fazem parte do nosso dia a dia, perdemos o significado plural das coisas e vamos ao singular, perdemo-nos em devaneios que a própria mente cria como senso de proteção e acreditamos muitas vezes ser a nossa melhor verdade e ficamos apegados a elas.

Será apego por proteção? Protegemo-nos do que? Será que alguém consegue responder?

O homem torna-se refém de suas próprias “covardias”, refém dos seus apegos, da inutilidade que eles possuem, e assim vai seguindo certo das suas próprias incertezas, dominado pelo inconsciente coletivo de ser só quando na outra medida da sua humanidade tudo clama e quer pelo ser COLETIVO.

Quero a coletividade contida no simples passeio de mãos dadas, o ar gostoso de um passeio pelas novas possibilidades que o outro me traz, sentir que olhar para esse espelho significa relacionar-se. Quero o desapego da solidão, desse estar só.

Quero pensar nas possibilidades novas de cada dia, banindo apegos, sem, contudo, abandonar a experiência dos momentos passados e superados. Abrir uma nova janela significa abrir espaço para contemplar novas paisagens, abandonando comportamentos passados em prol do novo, que nos é ofertado pela vida.

Em exercício dos apegos as nossas crenças individuais nos desumanizamos, passamos a condição pré-histórica dos homens que viviam sozinhos em suas cavernas e esquecemos de cuidar do “jardim coletivo” que habita as inúmeras possibilidades do ser e que inclui o outro. Pensar no apego implica abrir as possibilidades para o desapego – de crenças,conceitos, passado, remanescentes outros que nos impede de seguir adiante.

Desejo que essa “insanidade coletiva” seja pouco duradoura e que, trazendo o que há de humano em nós, possamos encontrar as nossas melhores possibilidades, banindo o apego da mente, crescendo e caminhando sempre para adiante e para melhor…

P.S.: essa reflexão desprentensiosa eu deixo como dedicatória a Aline, minha amiga, grande incentivadora da minha escrita criativa e que há meses clamava por algumas palavrinhas minhas aqui no blog.

3 Respostas to “OS APEGOS NOSSOS DE CADA DIA…”

  1. vanessa said

    Estou aqui na minha estréia neste blog! =)
    A sua crônica me fez mesmo pensar em algo que me parece tão claro, mas que eu ainda não tinha definido como tal: o quanto o dito apego pode ser apenas resultado do receio, do medo do novo, de mudanças. O apego pode não estar direcionado ao objeto-alvo, mas ao que ele representa, à todo o contexto em que está inserido e à sensação de segurança que passa.

    Viva o desapego! É um exercício que não me obrigo: muito mais, é um exercício que me permito. É saber que o desapego não é sinal de desgostar – pelo contrátio – é o saber amar deixando que as coisas aconteçam da forma que têm que acontecer.

    Gostei, gostei muito. Vejo que a cada vinda a este canto, sairá um aprendizado.
    E faço côro com Aline: não deixa de postar por muito tempo!

    Beijo grande**

  2. Aline said

    Déa,
    Que belo texto!
    É claro que não pode nos privar de ver expressa sua criatividade… mesclada com sua experiência e busca por uma vida cada vez mais autêntica, livre e desapegada.
    Tô com você nessa!!!
    Conte comigo para continuar buscando expansão de consiciência… afinal… estar junto é muito melhor!!! Com desapego… é claro!!!

  3. Tatiana (tatgon) said

    Andréa, como é bom lermos textos que nos tiram da nossa zona de conforto, nos captam em um ponto estagnado e nos catapultam … Adoro ser desafiada a pensar … e o seu texto me fez relembrar, concordar, me identificar, ressignificar … Valeu! Bjs.

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