Criança perdida

Tomado por um clamor de retorno a criança o adulto saudoso se põe a indagar: como posso retornar ao meu tempo de criança?

Hoje é momento de tempos corridos, tempos materiais, tempo de espera, tempo do compro porque quero, só não sei até quando, mas quero, seja porque o lançamento já foi anunciado na Internet, seja porque o meu vizinho já tem um.

Meu amigo me telefonou ontem avisando “você viu o novo modelo que foi lançado? Já pode consultar na Internet porque tá disponível em primeira mão…” Em tempos de crise, de plena turbulência na economia, bolsas despencando, aquecimento global, o adulto tem muito a almejar – decidir o que comprar e como o seu bolso pode sustentar os tantos brinquedos de luxo que circula no mercado de capitais. Salvamos Karl Marx de viver nesses nossos tempos tão “modernos”!!

Perde-se a prosa de viver, as relações do “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite”, “como tem passado?” – para onde foram todas essas expressões? O tempo vai sendo computado no relógio, as horas vão se perdendo em fração de segundos, me recolho muito após a meia noite e parece que não descansei – nasce-me um novo dia e parece que nem dei por ele!

É possível ser adulto e vibrar desejosamente por coisas e pessoas como uma criança? Não estou tão distante dela. Desejo tantas coisas, quero o que o dinheiro pode comprar nesse momento da apelação visual, olho e não vejo. O que faço para deixar de querer?

Preciso exercitar a minha criança, vamos, vamos lá! Quero o meu ar maroto, quero desejar o sorvete da esquina de tal forma a esquecer o troco.

Quero exercitar a criança perdida, lembrar que estou mais vivo e seguir sem pressa. Quero me deliciar com o algodão doce e colorido, girar no carrosel da vida sentindo o vento leve que lambe o meu rosto sem avisar, assanha meu cabelo e me paralisa para contemplar a pipa que corre no céu azul de primavera.

Menino, menino, anda cá, vamos correr sem parar? Olha aquela andorinha, ela vem na nossa direção, sem fazer curvas, ela vai pausar na sua, na minha, na nossa mão!

O meu adulto clama por tantas respostas. É verdade, a criança também, com a nobre diferença que a ansiedade infantil, quase pueril, tem pressa porque quer ir brincar lá fora e os adultos têm pressa porque sabem que o tempo traga as possibilidades da plenitude do fazer, do arriscar-se, do não ocultar-se.

Criança dá a cara á tapa, não tem medo e nem vergonha da resposta. Não precisa ser quem não é – existir é uma festa no seu mundo de fantasias, aquele que a mente – limpa, quase que como uma folha de papel em branco, vai pintando, a cada dia, de todas as cores que se vê ao longe no arco-irís que risca o céu de abril.

É, ser adulto dá uma canseira danada, e como diria Guimarães Rosa, “nonada”, vamos simplificar a ciranda da vida e entrar na ciranda do riso, de tudo aquilo que o dinheiro não pode comprar, vamos nos embalar numa alvorada de emoções, sentir as coisas simples da vida, correr para tomar aquele sorvete no fim de tarde sem qualquer culpa, rir de nós mesmos, rir das “loucuras” do mundo, das nossas próprias, descobrir que tem tantas coisas que nem precisamos, mas lotamos os armários, ocupando todos os espaços com a inequivoca sensação de que precisamos permanecer na moda.

Vamos ser livres, soltos como as crianças, porque a inocência de outrora permanece em nós, ainda que escondida, ainda que pareça perdida.

Dá uma olhada para os lados, para baixo, para cima e encontra a tua criança. Ela não se perdeu, ela apenas anda meio que de férias, meio que distraída, esperando ser convocada de novo para, apenas com um empurrãozinho teu, voltar a funcionar – vamos, anda lá! E quem sabe nesse frenesi possa ir assistir “Tá Chovendo Hamburger”, uma oportunidade para convocar a sua criança para entrar em festa, leve como uma pena que gira pelo ar, descomprometida, sem esperar qualquer resposta.

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