A ALMA IMORAL

Junho 29, 2009

Um monólogo teatral em cartaz há quase três anos; em São Paulo no teatro Eva Herz, na Livraria Cultura, dirigido por Amir Haddad, vista por mais de 75.000 pessoas, cuja a atriz e dramaturga Clarice Niskier foi vencedora do prêmio Shell e apresenta ao público o seu olhar diante da obra do rabino Nilton Bonder – “A Alma Imoral”.

Os questionamentos e impressões da atriz ao ler o livro, logo nos primeiros minutos de peça,  são expostos no palco numa espécie de conversa introdutória com o seu público, e como ela mesma diz, o texto pode ser visto como a leitura dos ensinamentos cabalísticos de uma “judia budista” do século XXI, que na maior parte do tempo permanece no palco nua, despida, mas não damos por isso, pois, literalmente, a nudez aparece no corpo como expressão da alma, numa interpretação, digamos, acima de tudo simples, dentro de toda complexidade que o tema pontua.

Contrariando um amigo intelectual, que chegou a me dizer que não passava de um tema de auto-ajuda – e nada contra temas de auto-ajuda,  deixo por aqui o meu registro do quanto a ALMA IMORAL foi muito além da auto-ajuda e movimentou algo em mim, tanto e tanto que indico para  todos  – vejam a Alma Imoral!!!

Por certo o tema não é algo tão novo, mas vale um olhar mais curioso para ela, uma oportunidade de olharmos mais para dentro de nós mesmos (algo que vai se tornando cada vez mais raro nos dias turbulentos do nosso cotidiano) trazendo a tona um olhar mais compassivo para com a vida e como a vivemos, questionando-a, e entre os designios do corpo e os da alma – qual dos dois nos cabe escolher?

O roteiro é baseado em conceitos bíblicos e filosóficos, instigante em diversos conceitos como “tradição” e “traição”, que segundo encontramos expresso na obra, “são duas palavras de escrita e fonética tão semelhantes em nossa língua quanto o são interligadas em seu significado mais profundo”. Nem sempre o certo é exatamente o certo e o errado é exatamente o errado, o certo pode ser o errado e o errado pode ser o certo – o elo de ligação estará na forma e necessidade do seu sujeito, do quanto persegue, seja em seu corpo ou em sua alma, ou em ambos, e, muitas vezes, não carecemos fazer uma opção.

A finitude da vida é o questionamento que aparece e desaparece a todo momento do seu contexto, é um modo que nos faz  refletir, conflituar, indagar : o quanto fariamos ou não se essa finitude não nos fosse perene?

A filosofia segue os seus meadros, o homem em pleno questionamento, sempre em busca de respostas, talvez as questões sejam bem mais simples do pareçam ser, talvez essas respostas estejam unicamente no clamor de uma vida de alma, a que nos diz o que é bom e que vai além da moral ditada pelo corpo. A uninamidade como a “acomodação da verdade absoluta”,  os dogmas, as convenções, opinião pública, moralidade e tradições, aspectos que em muitos momentos podem querer representar uma “unanimidade” que nos “desqualifica como determinadores do que é justo, saudável ou construtivo“.

Na necessidade de mortais que somos, seguimos os caminhos traçados pelo que deve ser moral, pelo que esperam da nossa moralidade, sem muito questionar o que a alma espera de nós;  em meio a tudo isso esbarramos na ética, conceito vasto e profundo, mas que deveria ser o único a oferecer os paramêtros, no mais, o que não estiver dentro disso é ditado pelo bom da alma, pelo que ela clama e que muitas vezes deixamos , mediocremente, escondido em prol sabe-se lá do que e de quem, mas seguimos nos sentindo justos, enquadrados com o que a sociedade espera de nós e, talvez, bem distante do que nós esperamos de nós mesmos.

Parábolas são contadas ao longo da peça e questionadas ao público, questionamentos com e sem respostas. O paraíso de Adão e Eva e o encontro com a serpente é posto ao olhar de todos, expondo o pecado original como um pecado da alma e não do corpo, assim como o Tratado de Sanhedrin, que trata de casos de julgamento de penas capitais, o sentido de tal lei. A posição do traidor e do traído. Quais os reflexos de tudo isso na alma que clama por respostas?

Não digo mais, apenas que vale a pena assistir a Alma Imoral, prestar a sua alma a homenagem de estar, ao menos pelo tempo em que a peça é encenada, com a alma em suspenso, olhando um pouco mais de perto para o ser moral, dentro de toda a “imoralidade” e clamores da alma – vejam!

Se posso escolher aqui uma parte da obra que pode falar diante da curiosidade que pretendi plantar em vós, deixo-vos essa:

Entre uma moral e outra o ser humano volta a se despir e, desperto, se recorda da sua alma. A esse despertar se referia o maguid de Mezeridz: um cavalo que se sabe cavalo não o é. Este é o árduo trabalho do ser humano:aprender que não é um cavalo”

 

P.s.: Aline, deixo aqui para você a minha observação do quanto foi importante as nossas trocas e leituras filosóficas, sobretudo pós peça – valeu por esse momento especial de encontro em pensamentos e sensações!

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