Licença para comentar o filme “BUDAPESTE”

Maio 27, 2009

    O LIVRO
    Falar sobre o filme Budapeste - roteiro foi idealizado por Rita Buzzar e, por via de consequência, falar de um livro do Chico Buarque, adaptado ao cinema e cuja estréia ocorreu no Brasil no último dia 22, trazendo para as telas o longa luso-húngaro-brasileiro, dirigido por Walter Carvalho, consagrado fotógrafo brasileiro, que assina o seu primeiro trabalho sozinho, talvez seja uma grande ousadia minha, mas tomarei essa liberdade porque, tratando-se de algo que clama por Chico Buarque, também clama por minha atenção, aquela de leitora assídua e expectadora fervorosa da sua poesia e existência.

    Essa é a minha visão apaixonada por um poeta que no meu entender não precisa pedir “licença” aos críticos para escrever, pois, ainda que como escritor, a meu ver, ele seja fragmentado - não produza obras com tamanha fluência poética como as letras das suas músicas - ele já conquistou no mundo o lugar de um imortal, daquele homem único por natureza, cuja a obra vive no hoje e sempre viverá no amanhã porque, simplesmente, tem vida própria, retrata o sentimento do homem: a vida, a prosa, o verso - tudo de uma maneira tal que não é necessário ser um intelectual e/ou poeta para compreendê-la, sentir já é o suficiente, e para mim é mais do que entendê-la - sentimos Chico Buarque!

    Com essa minha declaração de amor por sua obra, creio que posso adentrar, de início, não no filme propriamente dito, que para mim não brilhou nas telas apesar de/e sendo fruto de Chico Buarque, mas no livro..
    É sabido, penso eu, que não é nada fácil narrar como escritor quando se é poeta, pois perde-se muito da narrativa pela visão poética e adentra-se num mundo da imaginação que, possivelmente, o público não consegue captar.
    Talvez o o “pecado” do escritor, no exato momento da ficção, seja trazer à tona o poeta sem descortinar na narrativa a mensagem que deveria chegar ao leitor. Assim, sinto que o Chico escritor não comunica como comunica a sua poesia musical. E o que seria para mim o ato de comunicar? - trazer à tona emoção, a inventividade, que não necessariamente carece ser poética, mas precisamente, clama por ser compreensível - a narração fluente. Os livros do Chico não me comunicam!
    Para mim foi assim com o Estorvo (1991) e Benjamim (1995), e agora, confirmo, sobretudo depois de ver o filme adpatado ao cinema - Budapeste. Nem um bom livro e nem como um bom filme! Essa é a minha opinião, respeitando a todos aqueles que encontrem no grande poeta também um grande escritor, e que eu, confesso, até os invejo por isso, pois do jeito que admiro o Chico, também gostaria de encontrar acolhida nos seus livros.
    O FILME

    Agora, para quem pretende saber um pouco do que há no longa, posso contar que é uma estória que se passa no Rio de Janeiro e em Budapeste, e, usando as declarações do próprio diretor, que foram apenas a respeito da equipe, mas que estendo-as ao próprio filme - “uma verdadeira Torre de Babel". "Torre" ainda mais curiosa quando no emaranhado da sua narrativa, deparamo-nos com uma breve apariação do Chico em cena apenas no final do filme, a falar umas 20 palavras em húngaro, o que não foge da metade do longa - que é falada nesta mesma língua e que, segundo um ditado - é a única língua que até o diabo respeita.

    A idéia central do filme, em torno do seu protagonista principal, vivido no filme pelo ator Leonardo Medeiros - é a vida do “gost-writer”, ou seja, um especialista em escrever livros para terceiros; aquele que vive entre duas cidades, duas mulheres e múltiplos conflitos internos – viver a sombra, como autor anônimo ou revelar-se para o mundo como o autor principal que assume as suas obras como tal? Mas toda a sua “complicação pessoal” vai muito além de tudo isso, o conflito é interno, é moral, é unipessoal.
    Boa parte da história é falada em húngaro e, por curiosidade, em uma das entrevistas do ator (que faz o papel do José Costa) quando indagado de como fez para dominar a língua, disse de modo sincero: "eu não dominei". "Com duas semanas de aula, vi que seria impossível aprender. O jeito foi mergulhar nas falas do meu personagem".
    Bem, podemos dizer que, no mínimo, foi uma direção de bravura - gravar entre o Rio e Budapeste, diante de uma língua jamais dominada e uma equipe tão eclética, que buscava a própria arte de comunicar para fazer chegar as telas algo comunicável – não foi tarefa fácil!
    E contando uma curiosidae, uma das cenas que levou um ponto alto das filmagens, e, sobretudo da emoção do Chico, que encantou-se com o que viu (segundo fala do autor em entrevistas), é a cena da gigantesca estátua do Lenin - pai da Revolução Russa, desmontada, descendo o Danúbio em cima de um barco ( que levou um dia inteiro a ser filmada) e mais, custou a pequena fábula de 26 mil euros. A sensação que a cena nos deixa, ao menos que senti, foi de uma cidade “libertada” do regime comunista, do Lenin gigantesco, atravessando o Danúbio, como em marcha do passado que bateu em retirada para deixar passar o presente.
    Para concluir, penso que talvez o que viveu Chico na sua imaginação para criar a “Budapeste” que vemos no filme, seja algo que a nossa percepção, de meros espectadores, não consiga alcançar, mas posso dizer, sem sombra de dúvida, que a curiosidade de muitos ele continuará a atrair porque o seu nome - Chico Buarque de Holanda, é um daqueles raros, que apenas por existir e presentear ao mundo a sua arte, não necessita de muito mais para seguir sendo, pois ele, de fato - já é!
    Ainda que não produza mais a sua música, que resolva emaranhar-se no caminho obscuro do mundo dos livros, jamais deixará de ser, pois o seu legado é o retrato€ da existência de um homem único, e assim, pelo sim e pelo não - vi Budapeste, em referência ao poeta, sem pensar no que lá encontraria do escritor e recomendo a todos o mesmo.
    Caso vejam o filme, sugiro que assistam com generosidade, sem guardar maiores expectativas, com a mesma generosidade que me peguei praticando quando me pus a “criticar” por aqui e por aí o Budapeste.
    De melhor, fiquemos com a cidade que é tão linda e nem parece que foi destruída sucessivas vezes durante sua história e reconstruída na Idade Média com o nome de Peste, que em eslavo significa “ruína” e que com o tempo, em virtude de uma outra cidade que surgiu ao redor do castelo e que foi chamada de Buda, ou “forte”, na língua eslava, as duas cidades se uniram e formaram - Budapeste.

    Eis o que tenho de melhor a lhes contar sobre o livro: aguçou a minha curiosidade sobre a cidade e sobre a razão de ser desse nome tão sonoro: BUDAPESTE!

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