Seduza-se por Roma!

Fevereiro 17, 2009

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Sabemos, e eu também sei, que toda forma de preconceito é burra, mas quem de nós vez por outra não tem alguma espécie de preconceito? Aliás, o próprio significado da palavra fala por si só, preconceito  = “juízo pré-concebido”, e assim começo esse texto, não propriamente para falar de preconceito, mas de Roma, e o que Roma tem haver com isso? 

O fato é que nesse começo de ano, desfrutando das minhas férias e do frio que fazia na Europa, um livro me despertou uma cidade – Roma. Esse livro esteve por meses no nº 1 lugar em vendas, apontado nas  revistas pela sua vendagem em torno de 4 milhões de cópias. Daí que não gosto nada de correr para ler os livros que estão no topo das vendas, isso falando do meu pré-conceito. O que penso dos livros nos topos das vendas é que aquilo que todos andam a ler não deva ser algo tão credível assim – será? Aí residia o meu pré-conceito!

Foi assim que, vivendo o meu pré-conceito e depois pondo-o de lado, deixando-me vencer pelo tema, pela oferta do livro por uma amiga e por todas as entrevistas que li sobre a autora – Elizabeth Gilbert, me rendi a leitura de – “Comer, Rezar e Amar”. Confesso que, muito prazerosamente, a leitura finalizou o meu ano de 2008 e adentrou pela esperança de 2009 aguçando a minha curiosidade por Roma, que vai além do já conhecido através da história viva que transborda pelas ruas e do que lemos nos livros e vemos nas fotografias.  

Resolvi seguir para Roma. Desde o avião algo diferente já me chamou atenção e me tomou; depois de tantos dias a escutar a “rispidez” que nos sugere o espanhol de Madrid, os ouvidos começam a agradecer a “doçura” do idioma italiano e, naquele momento, ali sentada numa poltrona de avião,  escutar, em italiano, o comissário de bordo a falar todas aquelas maçantes recomendações de segurança, foi como se uma poesia tocasse os meus sentidos, uma bella poesia vinda de uma nação inteira –  que delícia o tom das palavras em italiano!  E aí a sensação de que Roma estava a caminho preencheu a minha imaginação.

Em Roma encontrei o farto prazer da comida, o prazer das pessoas felizes, que me fez descobrir talvez um dos muitos sentidos que pode existir para o velho dito popular: “quem tem boca vai a Roma”.

Acho que agora fui eu a sacudir a  curiosidade de vocês quando falo de ter descoberto o significado desse ditado, então passo a dizer qual a razão.

Imagine-se perdido numa rua em Roma a perguntar como faria para encontrar determinada direção, caso seja uma pessoa, como eu e a maioria das mulheres, que tem uma certa dificuldade de manuseio com os mapas – imaginou? Agora imagine que  os romanos poderão ter respostas diferentes para a mesma pergunta, mas, sem dúvida, depois de variadas respostas ao exercício das suas perguntas – quem tem boca descobre Roma!

O destino desejado será alcançado, apenas não posso lhes assegurar quanto tempo depois, mas uma coisa é certa, podemos pensar em mais uma nuance ao dito popular »com boca vive-se Roma», em todos os sentidos, sobretudo porque você ainda será seduzido, com certeza, por aquela culinária deliciosa que o fará ficar com água na boca.

Para essa maravilhosa culinária, prepare-se para ser “buona forchetta” (bom de garfo), prepare-se para tropeçar nas vitrines de pizza que são vendidas ao mêtro, estas de todos os sabores que sua imaginação não consegue recomendar, nos capuccinos, nas variedades coloridas, cremosas e saborosas de vários tipos de gellatos e no aclamado menu italiano, e neste tente, ao menos tente,  dar conta do antepasto, depois do 1º prato, a seguir do 2º e por fim da sobremesa, tudo sempre acompanhado de um bom vinho.

Depois de tanta comida tome folêgo para levantar da mesa, e, praticamente, rolar pelas ruas, pois a última coisa que conseguirá é caminhar por muito tempo, no máximo alguns metros entre o restaurante e o seu hotel. Por isso, recomendo: ao enfrentar esse verdadeiro “manjar dos deuses” esteja próximo da sua zona de conforto – o seu hotel!J

Em Roma a hospitalidade das pessoas é singular, de boa vontade em boa vontade, os romanos praticamente nos acompanham pelo simples prazer de dizer: o lugar que você procura é aqui! Acho que no seu livro Elizabeth Gilbert esqueceu desse informação, o que me faz dizer que Roma é, simplesmente: o encanto das pessoas, o ar simpático, sorridente e feliz dos romanos, algo que passa das pessoas idosas aos jovens ou aos não tão jovens assim, mas lá posso dizer que senti um “calor” mesmo numa fria cidade européia, um calor que emana do astral das pessoas e que me fez feliz. Roma é feliz!

Talvez lá também, dentre as excentricidades dos italianos, corra o risco, mais do que em qualquer outro lugar, de atravessar a rua e não chegar vivo do outro lado. A nítida percepção desse fato aconteceu conosco, logo na chegada, quando o taxista (por sinal, preciso dizer, esse o o único ser não simpático e meio “trapaceiro” de Roma, e aqui, quem sabe com a leitura do Taxicidade alteramo-lhes algo no humor, rs) que nos conduzia até o hotel, quase como um kamikaze, muito certo do que fazia, lançou-se na contra-mão à frente de uma tranvia em plena circulação – pensaram nisso!! Aconteceu em Roma!

Semáforo é algo raro de se ver, o que foge a toda ordem tipicamente européia e que me fez descobrir, na prática, que, sem dúvida, a palavra “atravessiamo” (no sentido de atrevessar uma rua), inclusive, a preferida de Elizabeth Gilbert, talvez seja a que primeiro tenhamos de aprender na louca aventura de nos lançarmos a atravessar uma rua, cruzamento, seja o que for – basta que seja em Roma!

Não preciso dizer que essa foi a palavra que me segiu durante toda a viagem, foi o modo que encontrei para sinalizar a minha querida amiga – Lili, uma doce companheira de viagem, que o nosso processo de maratona pelas  avenidas de Roma estava apenas por começar e que precisavámos dar conta de vencer tudo aquilo, rs.

Como pode imaginar, o ato de atravessar uma rua em Roma requer coragem, quase tanta quanto a dos gladiadores que enfrentam uma arena cheia de feras – é preciso vencer o batalhão de carros e motos que surgem, desordenadamente, de todos os lados, e mais, não esqueçam de associar: um grito frenético (que vem da sua adrenalina que estará em alta) com a bella palavra – atravessiamo. Pensam que exagerei? Pois, sinto dizer-vos que NÃO, essa é a mais pura verdade, aquela que escolhi dividir com vocês depois de todas as belezas e prazeres felizes que vivi em Roma.

E mais uma coisa, a pedido da Elsa, que me fez recordar de uma parte que havia deixado de fora desse meu relato, venho aqui acrescentar algo que não poderia perdurar em silêncio. Quebro meu voto de silêncio, e conto um pouco mais… Numa Roma tão bella, fui compelida a dizer e como poderia deixar de fora – os  italianos são bellos! Me parece que a beleza em Roma nasceu pelos monumentos e propagou-se até os romanos para que os nossos olhos possam agradecer aos deuses uma visita a Roma e como disse a Elsa lá: “uma pessoa não sabe para onde olhar”…rss

Agora, para que os homens não protestem por aqui e me digam que nada foi anunciado  sobre as italianas, também não posso deixar de dizer – as italianas também são LINDAS!

Confesso ainda, que talvez  por conta de toda essa beleza, como bem recordou-me a Elsa, a dificuldade em atravessar a rua tenha sido ainda maior, pois além da preocupação em protegermo-nos dos carros havia um cuidado em contemplar aqueles rostos romanos – lindos, charmosos, radiantes, parecidos saídos de uma longa passarela de Giorgio Armani diretamente para as ruas, cheios de beleza e estilo; confesso ainda mais, como eles são um tanto quanto “barulhentos”, foi um tanto inevitável não escutar algo como – bella ragazza! Agora sim, cumpri boa parte do meu relato sobre Roma! rs

Para finalizar, preciso dizer que Roma reavivou em mim o sentimento de que o mundo comporta mais do que podemos imaginar, que somos fruto de todas essas culturas, senão parte de cada uma delas, independente das nossas origens, pois percebemos que essa multiplicadade de hábitos, de gestos, de modos de vida, em algum momento, de alguma forma, tocará a nós, “conversará” com algo em nós que julguemos perdido – um diálogo muito prazeroso, que pode nos renovar as forças, que nos mantém vivos e que permite que nos encontremos em muitos lugares para perdermos-nos mais uma vez e deixarmo-nos seduzir de novo – se um dia for possível, deixe-se seduzir pelo encanto de Roma!

E como diriam os bellos italianos, se assim o fizer, utilize daquele tempo que só um turista pode ter, e permita-se em Roma o “Bel far niente” – a beleza de não fazer nada! Essa parte eu bem desfrutei deitada num pequeno espaço que me foi conferido por uma fresta de sol,  esculpida ao chão da praça da Basílica de São Pedro. Bem aí , deitada, pude observar todas aquelas pessoas a cruzar aquele pedação de chão, vindas de todos os cantos do mundo para contemplar montes de história, que por alguns instantes foram só minhas,  de modo único, capaturada pelos meus olhos num pleno momento em que eu não fazia nada – apenas contemplação!

p.s.: sinto não ter uma foto que retrate a  arena “gladiadora” do trânsito, mas se isso fosse possível a minha companheira de viagem não estaria viva para registrar o momento, portanto, deixo aqui um dos raros momentos de calmaria nas ruas de Roma, rss 

7 Respostas to “Seduza-se por Roma!”

  1. Lili said

    Que alegria reviver aqueles momentos e descobertas!! A minha percepção de Roma é que é realmente uma destas cidades que surpreende e agrada a todos que a visitam e com os mais distintos e antagônicos interesses: religiosos e profanos, tradicionais e modernos, românticos e libertinos, culturais e amantes do chaos. E partilhar esta experiência com a minha querida amiga Andra foi muito especial e será sempre recordado com muita alegria. “Viva” Roma e seus miles encantos!

  2. Jonga said

    Olá, Moça!

    Estava eu mesmo aguardando sua nova crônica, e tenho o prazer e a honra de ser (talvez) o primeiro a comentar; e, quem sabe, o primeiro a “degustar”…

    Posto que não conheço Roma pessoalmente, suas (sempre bem escritas!) palavras me introduziram a esta cidade aparentemente acolhedora e atraente – é o que suas impressões indicam.

    “A beleza de não fazer nada”… Que curioso – esses dias, eu falei exatamente sobre isso com minha Cunhada (esposa de meu Irmão). Estávamos na praia, conversando sobre como é bom curtir esses momentos/paisagens com pessoas de quem gostamos; e eu falei que amo isso, mas também há momentos em que curto estar sozinho, em silêncio, numa praia ou num lugar de muito “verde” (como o terreno onde fica a casa dos meus Pais), apenas apreciando as cores e a beleza do mundo…

    Fico contente de saber que em Roma também abandonastes suas “idéias pré-concebidas” – isso abre mais a mente, dando oportunidade a novas experiências que (quase) sempre valem à pena… como comprova a sua própria experiência recente, enquanto você “adentrava pela esperança de 2009″…😉

    Um outro Irmão meu esteve na Itália recentemente, porém em Milão, onde comemorou aniversário de casamento; e os relatos dele sobre a comida, os sorvetes e os diversos tipos de café foram bastante semelhantes aos seus. Ele inclusive comprou um pequeno artefato para fazer café espresso (e não expresso, como erroneamente costumamos falar, o que aprendi há alguns meses com uma barista, aqui em Salvador mesmo) com dúzias de sachês – uma delícia!…

    Quanto ao “atravessiamo”, que bom que você sabe se cuidar e é bem atenciosa (característica que aprendi a reconhecer em você com as suas respostas a e-mails…), pois seria uma perda irreparável para a humanidade se você “não chegasse ao outro lado” sã e salva em alguma destas aventureiras e emocionantes travessias… (Como diz a música, “Eu, hein?! Nem pensar…”)

    Despeço-me aqui (por ora) agradecendo por me (nos) presentear com mais esse belo texto; e apresentar-me(nos) a Roma de forma tão sábia e encantadora.

    Beijo, abraço, aperto de mão,

    Jonga

    P.S.: Oportunamente aproveitando o tema, sempre tive certo “afeto” pela palavra Roma, pois tenho mania de (às vezes) falar/escrever invertendo as palavras; e Roma escrita de trás para frente resulta na palavra que mais me é preciosa…

  3. Edmilson Gomes Alcântara said

    Andréa,

    Você consegue passar o frescor dinâmico da estada em Roma, da para sentir como se lá estivesse.
    E eu viajando com suas viagens.

    Edmilson G. Alcântara

  4. Elsa said

    Andréa,
    Gostei do texto….e é verdade não esqueceste de nenhuma vertente: a paisagem, os monumentos, a gastronomia, os italianos, as italianas, o trânsito, os taxistas (esses que nos são tão familiares, ainda vamos montar uma empresa luso-brasileira de taxistas rsrsrsrsrs…. mas em Roma. Que te parece?), a moda…..esta crónica engloba tudo…e é bem verdade aquilo que nos dizes, ” esse sentimento de que o mundo comporta mais do que podemos imaginar”, comporta o inimaginável, tantas culturas diversas, cada qual com sua característica que se reflecte em cada modo de ser ou estar…e isso é apaixonante.
    Ter oportunidade de ver, conhecer e sentir através das viagens é só para alguns, infelizmente, porque enriquece o espírito e alarga horizontes.
    Beijos Grandes.

  5. Que saudade, viu! Fiquei muito feliz com seu novo texto. Mas, visto que meu comentário é muito pequeno, vou mandá-lo por email. Olhe o seu email.
    Abração.
    J.

  6. Está aí o texto e obrigado por sua resposta.

    Fico imensamente feliz por sua felicidade. Estava com saudade de seus textos e, é claro, de você também. Estava com tanta saudade que você ficará surpresa com o tamanho do meu comentário. rsrs
    Fico aqui imaginando que na primeira noite neste lugar mágico você talvez tenha ficado quase que durante todo tempo tresnoitando (ou meio) olhando o teto e pensando sobre a felicidade de está ali. Tenho certeza que essa felicidade lhe foi atribuída pela convicção de que estava chegando a um lugar que te faria beber sentimentos que comumente nós não conseguimos fazê-lo sem antes deixar boa parte de nossa sensibilidade ser levada pela falta de coragem. É possível imaginar que no dia seguinte à sua chegada, você foi tomada por uma sensação de alegria tão intensa, que não foi possível descrevê-la ou traduzi-la por não haver precedente em sua vida. Penso que à medida que você foi conhecendo um pouco do cheiro, dos sabores, dos sons em Itália, seus olhos não se contentaram apenas em ver, foram além, comeram todas as formas, todas as cores e toda a beleza que você conseguiu notar. O grande poeta italiano, que viveu um período da vida em Roma, Giacomo Leopardi, disse certa vez que “as crianças encontram tudo em nada. Os homens encontram nada em tudo.” É tão bom perceber, que foi diferente com você. Encontrar tudo aonde existe tudo, e ver além desse tudo, enquanto outros vêem quase nada. Você é privilegiada.
    Já Dante Aligheri na “divina comédia” confessa que “a meio caminho desta vida ele achou-se a errar por uma selva escura, longe da boa via, então perdida.” Todos nós nos perdemos em determinado momento da vida que vivemos e que imaginamos dever continuar vivendo. Todos nós somos tentados pelas estradas do preconceito e da hipocrisia, que estão escondidas atrás de nosso senso de moral. É um grande passo reconhecer que não somos perfeitos como imaginamos que devemos ser. É uma grande demonstração de humanidade aprender com o instrumento que outrora havia sido condenado por um “juízo pré-concebido”.
    Eu espero que você em algum momento tenha chorado, mesmo que tenha feito isso enquanto ninguém olhava. Tenha chorado por notar que embora a beleza seja extremamente fugaz, na maioria das vezes porque nós deixarmos de admirá-la, você se comprometeu a senti-la plenamente enquanto sua humanidade te permitia ser absorvida pela paixão. Não se pode viver plenamente sem sentir, mesmo que por um instante, o que é viver intensamente.
    Todas essas coisas que imagino terem sido feitas por você, são coisas que eu gostaria de um dia poder fazer e sentir. Beber os vinhos, visitar lugares que antes de mim foram pisados por pessoas que mudaram o mundo, ler livros em italiano, mesmo que não conheça todas as palavras, mas, que esteja predisposto a encontrar a poesia da sua sonoridade, visitar o Teatro Dell’Opera de Roma e ouvir “vesti La giubba” cantada por algum grande tenor. São sentimentos grandiosos que me impele a confessar que estou decidido a fazer isso o quanto antes.
    Concluo com as palavras de Dante Alighieri, ao concluir a sua e nossa divina comédia: “E ao brilho caminhamos das estrelas”.

    Grande abraço.
    J.

  7. Aldenor Rebouças said

    Querida Andrea,
    a propósito de sua crônica eu me lembrei de um autor Italiano que escreveu sobre o “Ocio Criativo” (Domenico de Masi). De repente nos descobrimos em terra não conhecida, em caminhos não percorridos, seja na terra, nos sentimentos, nos sonhos … Assim é a vida. A Itália é um país que reune muita beleza, natural e artística (pintores, escultores,poetas, músicos e outros tantos) acariciada pelo Mediterrâneo e pelo Adriático encanta todos que têm sensibilidade para entender e curtir o belo em suas diversas matizes. Concordo que Roma é bela, mas a costa Amalfitana é esplendorosa enquanto que Veneza e inexplicável. Milão com seu ar aristocrático, seu Duomo guardando a realização do desejo a quem lhe pede revaliza com as torres da Igreja na praça ao lado verdadeiras esculturas. “Comer, Rezar e Amar” de Elizabeth Gilbert, com suas dúvidas a quem amar e de repente desejando amar aos dois ao mesmo tempo retrata a dicotomia da Itália. Um grande abraço. Aldenor

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