Nós – “marionetes do jornalismo”

Outubro 22, 2008

Recebi de um aluno um texto do Nelson Hoineff, cujo link é: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=508JDB002. O tema é algo que sempre e continuamente estou a refletir no meu inconformismo de quem espera chegar, quem sabe um dia, um tanto mais próxima de respostas; vim aqui “verbalizar” para vocês, convidando-os a pensar comigo, para que então cheguem as suas próprias conclusões, e se elas aparecerem, por favor, passem adiante, é o mínimo que podemos fazer para contribuir na chegada do dia em que, nós, seres humanos, compreenderemos que a nossa atitude pode mudar alguma coisa.

Aqui no Brasil, mais uma vez – “na terra do sempre e quase nunca”, o drama da vida real torna-se reality show frente as câmaras de telivisão, e a notícia é passada de modo tão sensacionalista e pleno que em dados momentos pensamos até ser ficção, diante de  produção tão bem montada e dos efeitos especiais que fazem flesh a nossa tão disputada visão, para muitos resta apenas conferir.

A “bola da vez” nesse momento, digamos assim, ilustrada pelas manchetes de televisão, jornais e revistas tem muitos títulos: “O sequestro de Santo André”, “A morte da jovem Eloá” “A tragédia que tirou a vida de uma jovem de 15 anos”, “O amor que leva a morte” e por aí vai… são inúmeras as denominações trazidas pela mídia diante de mais um caso, dentre tantos outros, tão cruel, tão violento, tão passional, tão inominado.A dificuldade maior para nós, ante todo o sensacionalismo posto pelas câmaras de televisão, antes, durante e depois do desfecho fatal, é que por falta de boas informações, somos compelidos a ver e rever, milhares e milhares de vezes, o mesmo “filme” trágico, as mesmas cenas, a mesma leitura sórdida de sempre, aquela que os meios de comunicação, visando atingir o seu lucro nos “vomitam”.

Os bandidos tornam-se “coitadinhos” e os tais “coitadinhos passam ao papel de marginais, tudo em questão de segundos; a polícia quer dar show para os espectadores ávidos por ação que estão a acompanha-los pela TV, e não só, aqueles que pretendem passar por estrela, ainda que em um breve estrelato, basta aparecer naquele limitado campo de ação e faz-se ali o seu momento de “glória” ! E  nós?

Muitos de nós estamos, como numa espécie de “deleite mórbido”, a contar presença e dar os pontos para que a audiência atinja seus picos, sem tempo para obter a informação e refletir, sem tempo de nos dar conta que ali não é ficção, mas realidade, mesmo que aquela imite a vida, estamos a espera de menos além do que o the end – o que está acontecendo com o ser humano? Podem me dizer, por favor!  Recordo-me nesse instante a conhecida frase de  Thomas Hobbes – “o homem é o lobo do próprio homem”. Como somos ferozes, ferocidade impressa de tantas formas, mas, sobretudo, posta nesse “mórbido prazer” em ser espectador de trágicas notícias, e a prova disso é o elavado indíce de audiência para aqueles programas sensacionalistas que passam o dia a mostrar os crimes ocorridos nas grandes metrópoles.

Somos os marginalizados do outro lado da cortina? Somos! Capturados por uma distorção de imagens e interpretações que ficam ao sabor do capitalismo selvagem a espera de bater os pontos de audiência e da vendagem de mais e mais revistas e jornais?  Somos! E como diz o Nelson Hoineff, nessa altura já passamos e muito de espectadores, somos, unicamente – consumidores passiveis, a espera do produto seguinte! Então vamos consumir coisas melhores, vamos ler as revistas que não são manipuladas pelos interesses políticos do nosso país, vamos assistir canais de TV que consideram que somos seres capazes de interpretar uma formação, que não somos debilóides.

Algo me causou ainda mais espanto ao terminar de ler essa matéria, foi o fato da pergunta final, que em verdade é uma resposta – A propósito: como era mesmo o nome completo daquela menina que jogaram pela janela?” Parei para pensar e como num sopro me veio – “Isabella Nardoni”. Lembram dessa outra bola da vez? Sim, a notícia já ficou velha, o show já foi transmitido, as bilheterias já lotaram, o lucro já foi auferido, e a com a mesma rapidez que toda aquela tragédia nos chegou, foi consumida. Outras também passaram e outras também chegarão, como essa do “Sequestro de Santo André”, não há tempo para processar nada, não há reflexão de nada, o importante é manipular a notícia!

Por tudo isso, penso que o texto do Nelson Hoineff, deixou de fora uma importante reflexão – e qual seria ela? Para um “jornalismo selvagem” também há um espectador que pretende ser apenas um consumidor, e esse espectador não faz parte apenas de classes sociais menos informadas, não! Vejo também nesses espectadores pessoas intituladas esclarecidas e escolarizadas, pessoas com a acesso a outras informações que não apenas essas, pessoas que poderiam utilizar do seu poder de discernir, que poderiam não colaborar para o aumento desses pontos de audiência, mas permanecem pacíficas, sentadas a assistir tudo isso como num delírio cego sem dar-se conta de nada.

Ficam as perguntas, e mesmo que elas não tenham uma imediata resposta, que nos sirva de reflexão: o que os nossos olhos, efetivamente, enxergam, são as informações que nos são passadas? Será que um dia aprendemos a ver ou desaprendemos sem nos dar conta?

 

3 Respostas to “Nós – “marionetes do jornalismo””

  1. Elsa said

    Estou de volta.
    Beijos

  2. Saudações,
    Que texto maravilhoso. Me penalizei bastante enquanto lia-o. Como fico tanto tempo sem me nutrir de pensamentos livres e claros como esses? Andréa você tem uma visão privilegiada da vida e do mundo, além é claro, das pessoas. Isso é uma coisa que bem poucos de nós temos.
    Falando agora especificamente do texto: Penso que nós durante muitos anos temos sido bombardeados com filmes da vida real que a mídia luta arduamente para fazer ter as maiores “bilheterias”. O grande Rubem Braga numa crônica que não lembro agora o nome condenou essa luta desacertada da mídia para nos fazer engolir essas histórias trágicas que nos entristece, mas, que se tornam cansativas.

    Que bom que você pensa como eu.

    Grande abraço de J.

  3. Jonga said

    Oi, Andréa.

    Passei aqui pra conhecer seu blog, e me identifiquei muito com esse seu texto; essa crítica à manipulação das informações pela mídia pobremente sensacionalista de que dispomos no nosso País, usando tragédias para se vender…

    Tenho as mesmas sensações que você a respeito desse desrespeito. Em verdade, essas “matérias” me enojam e as evito. Busco apenas tomar conhecimento do que julgo necessário, mas não gasto meu tempo (e o meu astral) “curtindo” esses filmes da vida real.

    Parabéns pela forma como se exprime – como eu já havia desconfiado (e “pré-anunciado”), você possui rara inteligência.

    Beijo, abraço, aperto de mão…😉

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