Recebi de um aluno um texto do Nelson Hoineff, cujo link é: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=508JDB002. O tema é algo que sempre e continuamente estou a refletir no meu inconformismo de quem espera chegar, quem sabe um dia, um tanto mais próxima de respostas; vim aqui “verbalizar” para vocês, convidando-os a pensar comigo, para que então cheguem as suas próprias conclusões, e se elas aparecerem, por favor, passem adiante, é o mínimo que podemos fazer para contribuir na chegada do dia em que, nós, seres humanos, compreenderemos que a nossa atitude pode mudar alguma coisa.

Aqui no Brasil, mais uma vez – “na terra do sempre e quase nunca”, o drama da vida real torna-se reality show frente as câmaras de telivisão, e a notícia é passada de modo tão sensacionalista e pleno que em dados momentos pensamos até ser ficção, diante de  produção tão bem montada e dos efeitos especiais que fazem flesh a nossa tão disputada visão, para muitos resta apenas conferir.

A “bola da vez” nesse momento, digamos assim, ilustrada pelas manchetes de televisão, jornais e revistas tem muitos títulos: “O sequestro de Santo André”, “A morte da jovem Eloá” “A tragédia que tirou a vida de uma jovem de 15 anos”, “O amor que leva a morte” e por aí vai… são inúmeras as denominações trazidas pela mídia diante de mais um caso, dentre tantos outros, tão cruel, tão violento, tão passional, tão inominado.A dificuldade maior para nós, ante todo o sensacionalismo posto pelas câmaras de televisão, antes, durante e depois do desfecho fatal, é que por falta de boas informações, somos compelidos a ver e rever, milhares e milhares de vezes, o mesmo “filme” trágico, as mesmas cenas, a mesma leitura sórdida de sempre, aquela que os meios de comunicação, visando atingir o seu lucro nos “vomitam”.

Os bandidos tornam-se “coitadinhos” e os tais “coitadinhos passam ao papel de marginais, tudo em questão de segundos; a polícia quer dar show para os espectadores ávidos por ação que estão a acompanha-los pela TV, e não só, aqueles que pretendem passar por estrela, ainda que em um breve estrelato, basta aparecer naquele limitado campo de ação e faz-se ali o seu momento de “glória” ! E  nós?

Muitos de nós estamos, como numa espécie de “deleite mórbido”, a contar presença e dar os pontos para que a audiência atinja seus picos, sem tempo para obter a informação e refletir, sem tempo de nos dar conta que ali não é ficção, mas realidade, mesmo que aquela imite a vida, estamos a espera de menos além do que o the end – o que está acontecendo com o ser humano? Podem me dizer, por favor!  Recordo-me nesse instante a conhecida frase de  Thomas Hobbes – “o homem é o lobo do próprio homem”. Como somos ferozes, ferocidade impressa de tantas formas, mas, sobretudo, posta nesse “mórbido prazer” em ser espectador de trágicas notícias, e a prova disso é o elavado indíce de audiência para aqueles programas sensacionalistas que passam o dia a mostrar os crimes ocorridos nas grandes metrópoles.

Somos os marginalizados do outro lado da cortina? Somos! Capturados por uma distorção de imagens e interpretações que ficam ao sabor do capitalismo selvagem a espera de bater os pontos de audiência e da vendagem de mais e mais revistas e jornais?  Somos! E como diz o Nelson Hoineff, nessa altura já passamos e muito de espectadores, somos, unicamente – consumidores passiveis, a espera do produto seguinte! Então vamos consumir coisas melhores, vamos ler as revistas que não são manipuladas pelos interesses políticos do nosso país, vamos assistir canais de TV que consideram que somos seres capazes de interpretar uma formação, que não somos debilóides.

Algo me causou ainda mais espanto ao terminar de ler essa matéria, foi o fato da pergunta final, que em verdade é uma resposta – A propósito: como era mesmo o nome completo daquela menina que jogaram pela janela?” Parei para pensar e como num sopro me veio – “Isabella Nardoni”. Lembram dessa outra bola da vez? Sim, a notícia já ficou velha, o show já foi transmitido, as bilheterias já lotaram, o lucro já foi auferido, e a com a mesma rapidez que toda aquela tragédia nos chegou, foi consumida. Outras também passaram e outras também chegarão, como essa do “Sequestro de Santo André”, não há tempo para processar nada, não há reflexão de nada, o importante é manipular a notícia!

Por tudo isso, penso que o texto do Nelson Hoineff, deixou de fora uma importante reflexão – e qual seria ela? Para um “jornalismo selvagem” também há um espectador que pretende ser apenas um consumidor, e esse espectador não faz parte apenas de classes sociais menos informadas, não! Vejo também nesses espectadores pessoas intituladas esclarecidas e escolarizadas, pessoas com a acesso a outras informações que não apenas essas, pessoas que poderiam utilizar do seu poder de discernir, que poderiam não colaborar para o aumento desses pontos de audiência, mas permanecem pacíficas, sentadas a assistir tudo isso como num delírio cego sem dar-se conta de nada.

Ficam as perguntas, e mesmo que elas não tenham uma imediata resposta, que nos sirva de reflexão: o que os nossos olhos, efetivamente, enxergam, são as informações que nos são passadas? Será que um dia aprendemos a ver ou desaprendemos sem nos dar conta?

 

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Estou aqui, apesar de não ser o meu dia de postar no blog, exatamente para suprir a minha ausência de segunda-feira, mas creio que tenho algo interessante para lhes relatar.Essa semana li uma matéria na revista “Caros Amigos”, escrita pela jornalista Mayre Anne Brito, que muito me chamou atenção, certamente porque estive a viver por quase dois anos em Portugal, e apesar de legalizada, pude assistir um pouco mais de perto a atmosfera que paira, por exemplo, para os brasileiros, aqueles que vivem na triste ilegalidade, ao sabor da sorte, distanciando-se muitas vezes do propósito que os faz chegar ali.

 A matéria que pretendo dividir aqui com vocês é nominada – “Dos Indesejáveis Errantes” e noticia a polêmica “Diretriz de Retorno”. O que seria isso? Uma lei que já leva também um sinônimo – “Diretriz de Vergonha”, e para não deixa-los ainda mais curiosos, vamos lá saber do que estamos a falar.

Após três anos de debate, em 18 de junho, reunidos em Estrasburgo, os 27 governos do Parlamento Europeu, através dos seus deputados, com esmagadora maioria, 367 contra o “não” de 206 opositores, votaram a chamada “Diretriz de Retorno”, que contará com dois anos para ser implementada, e  multiplica os motivos para proceder à detenção e conseqüente expulsão dos imigrantes sem documentos, dos estrangeiros que entram ilegalmente para pedir refúgio político ou daqueles que, em primeira instância, não são reconhecidos como exilados e em função dessa decisão os Estados podem viabilizar pacotes específicos de medidas de segurança anti-imigração. E mais, esses  27 governos vão dividir 676 milhões de euros, algo em torno de R$ 1,7 bilhões para financiar a repressão aos imigrantes durante o período 2008 a 2013.

As medidas vão mais além, como se não bastasse, a “Diretriz da Vergonha”, obriga os 19 países restantes da União Européia, que antes disciplinavam um tempo menor, a introduzir em seu sistema penitenciário, detenção forçada de imigrantes por 18 meses, a exemplo, na França, o estrangeiro sem documentos permanecia preso somente 32 dias; na Espanha, 40; em Portugal e na Irlanda, 60 dias. A Alemanha, que não quis perder tempo, com o seu governo social democrata já oficializou a prisão para 18 meses, e mais, agora quase que não existe nenhuma distinção entre o imigrante sem documento que foge da miséria e o refugiado político pobre. Todos ficam presos nos CPT’s à espera da sentença que, em 90% dos casos, agora, será sempre de expulsão por não ter documentos originais.

Diante das medidas previstas, somente o estrangeiro que entra nos países europeus com passaporte regular de turista e dinheiro, poderá apresentar o pedido de asilo político sem ser preso e usufuir da assistência jurídica gratuita. Por outro lado, para os imigrantes ou os refugiados políticos pobres, aqueles que para desembarcarem nas praias européias e enfrentam o mar em navios sobrecarregados até morrerem sufocados, vê-se um futuro ainda mais sombrio.

Em termos gerais, a “Diretriz de Retorno” coloca fora das regras da jurisprudência os 8 milhões de imigrantes sem documentos que vivem na Europa. Assim, aquele que estiver em situação irregular e se negar a deixar o país num prazo entre 07 e 30 dias, recolher-se-á a prisão por um prazo de 06 meses, podendo prorrogar-se a pena por mais 12 meses em casos específicos, inclusive a detenção de menores que não estejam acompanhados dos pais ou responsável, mas ao menos esses terão direito a educação e jogos lúdicos.

E a repercussão de tudo isso tem sido grande, por exemplo, em declaração a  Anistia Internacional divulgou um comunicado dizendo que: ”O texto aprovado pelo Parlamento Europeu não garante o retorno com segurança e dignidade dos imigrantes irregulares a seus países e estabelece um exemplo extremamente ruim para todos os povos”

Bem, passadas todas informações quanto ao objetivo de tal medida, é importante dizer que a matéria que li na revista “Caros Amigos” traz dois enfoques que não podem e nem devem passar despercebidos em meio a tudo isso. Primeiro a Europa, tão preocupada em transmitir ao mundo a sua bandeira de apoiante incondicional dos direitos humanos, aprova uma lei que vai muito a margem de qualquer proteção as diretrizes humanistas, sobretudo porque, apesar da nova medida, ainda assim, há “brechas” no texto que permitem que as autoridades tenham a liberdade de aplicar regras mais amenas a qualquer um, ou seja, de algum modo os privilégios podem ocorrer sem qualquer critério humano, que deveria ser o considerado.

Há um paradoxo em tudo isso, porque a Europa continua a importar conhecimento, buscando profissionais qualificados de países pobres e em desenvolvimento? Será que o melhor não seria reverter verba tão alta, que vai ser utilizada a mandar de volta esses imigrantes, para educação destes em alto nível ? Estão fora dos seus países de origem há anos, pátria que nem mais a eles pertence e que um dia sairam porque não queriam pertencer, pois assim poderiam encontrar, por fim, um lugar ao sol, e qual a razão de não colaborar para permitir esse possível lugar? A opção escolhida parece ser sempre aquela de olhar essa gente com desprezo e preconceito, dificultando-lhes a vida, trantando-os de modo desigual por razão de cor, de pele, sotaque, credo ou qualquer outra diferença que lhes pareça dar na vista, pois os imigrantes “pesam” na atmosfera européia.

Outro ângulo dessa problemática toda e que também não pode ser desprezado é a parcela de responsabilidade desses imigrantes- o comportamento dessas pessoas lá fora, e me fez lembrar exatamente o que eu questionava e pensava, por exemplo, dos brasileiros que eu via em Portugal, assim como em outros países que estive, e que diz respeito ao modo, simplesmente, do “ser” estrangeiro.

Sem dúvida que a abordagem da jornalista Mayre Anne Brito é algo que merece aplausos, pois temos também de denunciar a postura desses brasileiros que mal pisam o continente europeu e reclamam do modo de “ser fechado” europeu, do frio, do povo que não sorri, da comida que lhes parece estranha, do idioma difícil de aprender, das mulheres que não depilam, em fim…as queixas são muitas, e assim, deixam-se dominar, também, pelos seus próprios preconceitos, não se deixam inserir nesse novo mundo, nessa nova cultura, que em contra-partida, para os que querem sair da pequenez dos seus mundos, tem muito a ensinar. Com essa postura esses imigrantes, sem dúvida, vão tornando-se cada vez mais marginais, sobretudo reféns dos seus próprios conceitos e preconceitos. E como isso acontece?

É verdade que os brasileiros se metem nas inúmeras comunidades verde-amarelo, passam a frequentar apenas bares e restaurantes brasileiros, vivem nos seus guetos, formados por uma imensa massa que, estando fora, vivem para dentro, e com isso esquecessem de viver o mundo lá fora, num movimento anti e que  ainda contam hoje com a ajuda do orkut, terreno fértil para a imaginação, participando de comunidades e afins, espaço que usam  para queixarem-se da vida lá fora. Falam mal muitas vezes dos países que estão a viver, que por vezes, com a ajuda social do governos até os sustenta.

Como também é citado na matéria, e também reservo-me o direito de informar aqui para vocês, na Inglaterra vivem mais de 160 mil brasileiros, estimando-se que mais de 50% detes estejam em situação ilegal, boa parte a sobreviver de faxina, e muitos dos graduados no Brasil, em situação um pouco melhor, trabalham como garçons e garçonetes, pois ao menos conseguem falar bem a língua e ganham salários melhores.

Assim, muitas das vezes também nos perguntamos – vale a pena passar por tudo isso? A resposta talvez nem eles mesmo saibam dizer… o propósito quando saem de sua pátria, a maoria das vezes é um só – o sonho de uma vida melhor! Dependendo do ponto de vista e do que por lá possam encontrar, indagamos: melhor em que?

Muito tem de ser repensado, mas de parte a parte, as fragilidades são muitas e as posturas também, e continuamos a conjecturar entre nós o que vem primeiro e torna negro todo esse percurso – será o preconceito daqueles que recebem ou a inabilidade de adaptação daqueles que lá chegam?  As responsabilidades andam de mãos dadas, e medidas como essa da “Diretrizes de Retorno” servem, e muito, para aumentar toda essa bola de neve que faz de conquistas vistas nos direitos humanos, retrocessos para a nossa frágil humanidade.