Em tempos de verdadeira “salada mista”

Setembro 22, 2008

 

Estamos em época de eleições municipais aqui no Brasil. No próximo dia 05 de outubro os eleitores brasileiros escolherão novos prefeitos e vereadores no primeiro turno das suas eleições municipais que “reinarão” por longos 4 anos.

 O momento é para todos eleitores, de todo o Brasil, refletirem sobre o papel dos prefeitos e vereadores, uma tarefa mais que árdua tendo em vista que somos eleitores de um país que, em outubro, na sua totalidade, irá às urnas para escolher entre um total de mais de 15 mil candidatos a prefeito e quase 350 mil candidatos a vereador.

 Diante de tais números, como se pode imaginar, vivemos aqui num momento de “lixo publicitário” propagado pelas rádios, televisão, autdoors, sem contar com os insuportáveis carros de som, que além de ensurdecedores, trazem os seus letreiros que atrapalham o trânsito no meio das avenidas.

 A  apelação é total, os candidatos a prefeitos e vereadores,  literalmente, atacam a população a qualquer custo e sem qualquer pudor, as vinhetas musicais das suas campanhas publicitárias assolam os nossos ouvidos dando lugar até mesmo ao “já embalou, já embalou, deixa João…” Imaginaram isso!

 

O que se pode esperar de um canditato que na sua campanha publicitária apresenta como razão para permanecer no poder um mero “já embalou deixa ficar…” ? Não há um projeto de mais valioso a rememorar, não há resultado a apontar. A gestão valiosa e posta a prova é apenas a do “já embalou” e pelo embalo, apela-se para que o povo deixe ficar.

Em nome da tão proclamada liberdade de expressão vale tudo, vale a poluição sonora, visual, vale toda e qualquer forma de publicade para chegar até o voto. Vale candidato mudar de partido, vale candidato atacar o partido e os antigos parceiros do mesmo partido, esquecendo-se que todos têm seus telhados de vidro, mas ainda assim vale jogar pedra no telhado do outro. Vale oferta de saco de cimento, de dentadura, e tudo mais que a imaginação possa criar para “cativar” o tão carente público.

 Isso tudo me lembra um trecho da peça de teatro do Millôr Fernandes – “Computa, computador, computa”, que diz: “A única nobreza do ser humano é ser esplêndido em cinzas, faustoso em túmulos, solenizando a morte com incrível esplendor, transformando em cerimônia e pompa a estupidez de sua natureza.”

O que fazer diante desse contexto é uma resposta que não é simplista. A política está norteada por valores, estes que decorrem dos homens, e ao meu ver toda a corrupção que age e atua no nosso país é decorrente de uma sociedade marcada por crises em virtude das multicorrupções que já ocorrem no dia a dia de cada indíviduo, que também não é diferente do seu governante, e as relações nos mais diversos âmbitos torna-se amoral, anti ética, pois vive-se uma “mentalidade da facilidade nas relações”.

O que dizer das pessoas que contestam as atitudes dos políticos nepotistas, quando elas mesmas, a cada dia, em doses pequenas e homeopáticas exercitam o seu ato corruptivo – e como?  E aqui peço licença a idéia esposada por Ana Carolina de Barros, cujas idéias vimos no Café Filosófico.

Qual a diferença daquele político que utliza o seu cargo para empregar um irmão para aquela pessoa que assina uma ficha de presença em nome de outra pessoa para beneficiar um amigo no curso que não está presente? E aquele que permite que um amigo que encontra em uma fila de cinema entre a sua frente? Será que há aí alguma diferença? Percebo nessas atitudes que as duas categorias utilizam a posição que estão em nome de interesses privados, pessoais, e assim são nepotistas do mesmo modo, apenas as proporções de quem se vai lesar que são diferentes.

Praticamos pequeno  e repetitivos atos no nosso dia a dia que saem de modo quase involuntário e que colidem com os interesses coletivos, pois se defendemos um particular, seja ele nosso amigo, um parente ou algo do gênero, consequentemente fazemos isso em detrimento da coletividade, o que compromete em contrapartida a nossa moral individual, aquela de cada um.

Se quisermos construir o Brasil, não será com a espera de um político ideal, que nunca se revela, mas façamos a cada dia uma reconstrução dos nossos próprios atos, da nossa própria conduta, essa sim, que tem que ser um ideal ético do que você deseja e espera do seu político e critica que ele não tem.

Não há como deixar de dar razão a Ruy Barbosa “De tanto ver crescer a INJUSTIÇA, de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos MAUS, o homem chega a RIR-SE da honra, DESANIMAR-SE da justiça e TER VERGONHA de ser honesto!” 

Como também diria Aristóteles, o bem comum tão pregado por esse filósofo não é o que predomina na nossa mentalidade de aparentes democratas, mas sim o bem individual e pessoal, a qualquer custo e lesando quem quer que seja. A democracia não é algo que se possa manifestar senão em sua plenitude, e aqui, com as ações tão anti democráticas que vivemos, caminhado sempre para os benefícios próprios, a democracia passa ao largo da sua plenitude, e enquanto nós, individualmente falando, agirmos de modo nada coletivo não poderemos pensar em mudanças substanciais na sociedade.

Talvez seja uma boa pedida assistir o documentário  – “Crise é o nosso negócio” , título original – “Our brand is crisis”, dirigido por Rachel Boyton. É um relato surpreendente de como uma empresa de consultoria política americana (Greenberg Carville Shrum), com ampla experiência em campanhas de eleição,  é contratada para “salvar” a candidatura do ex-presidente Gozanlo “Goni” Sánchez de Lozada a um novo mandato à presidência da Bolívia.

Podemos até imaginar que não existam pontos de identifcação com a nossa política, já que o mesmo refere-se as eleições para a presidência da Bolívia em 2003, mas apesar dos pontos de identificação com a nossa política não serem imediatos, ele pode ensinar muito a nós brasileiros, sobretudo em tempo de eleições, basta um ar de sutileza, uma certa malícia e logo identificamos os “links” com a nossa política, os bastidores das campanhas, pois esse documentário é sim, um poderoso alerta de que, numa campanha política, nada é exatamente o que parece ser, e quem sabe os discursos e promessas ali apresentadas, venha a nos ajudar a identificar um possível bom representante em meio a toda essa salada mista política, desse vale tudo eleitoral.

Sejamos livres nos nossos propósitos, mas pensemos coletivo nos propósitos que envolvem o outro, em tudo que envolve viver em coletividade, pois fazemos parte de um todo que é também nosso e que diz de nós, de quem somos e para aonde iremos e o que queremos.  

Não esqueçamos das palavras de Aristóteles quando também dizia que o homem é por natureza um animal político. Pensemos coletivamente e escolhamos, dentre toda essa “salada mista” que nos vem sendo imposta, o que entendemos ser um melhor dirigente não apenas para uma classe minoritária e privilegiada, mas para todos, pois esse ideal, ao menos em cada um de nós, não pode morrer.

 

 

 

 

 

 

3 Respostas to “Em tempos de verdadeira “salada mista””

  1. Gostei muito da segunda parte do seu texto hoje, A segunda parte a que eu me refiro é a que fala a respeito do nosso comportamento nepotista, Nós temos constantemente agido de maneira inadequada e muitas vezes nem percebemos isso. É sempre importante lembrarmos que um político é essencialmente um humano e todos humanos, como mencionado por Aristóteles, são por natureza um animal político (para citar o que você citou).
    Gostei também da sua citação do documentário “Crise é o nosso negócio” (maravilhoso), é um documentário que mostra de uma forma bem claro o que acontece nos bastidores da política e mostra, principalmente, como a população pode ser manobrada para votar nesse ou naquele candidato. Muito embora ache essa reflexão apropriada e importantíssima, penso que outra reflexão deve também entrar nesse contexto, sabe qual é, A reflexão do que poderá acontecer depois que nós votarmos de forma inapropriada. Lembra-se do documentário Fahrenheit 9-11, É um documentário que mostra coisas que se passaram “por detrás das cortinas” do poder, mas também outras que simplesmente têm ocorrido aqui com gente comum, que como sempre é a que imagina ter menos voz, e a que é mais afetada pelas maquinações políticas e financeiras nos postos de comando do país, É um documentário que mostra, sobre tudo, os Estados Unidos de outro ponto de vista, Contudo, mostra, ou melhor, nos dar uma idéia de quais são as conseqüências de um voto errado.
    Tomara que nós não tornemos as idéias de Maquiavel mais verdadeiras do já são, Em seu famoso livro “O Príncipe” lá pelas tantas ele falava das qualidades que um príncipe deveria “ter”, ou melhor, deveria aparentar ter, porque logo em seguida ele disse, “A um príncipe, portanto, não é necessário que de fato possua todas as sobreditas qualidades; é necessário, porém, e muito, que ele pareça possuí-las”. Precisamos de atenção na vida e no voto!

  2. Liliana said

    O Analfabeto Político
    (Bertolt Brecht)

    “O pior analfabeto é o analfabeto político.
    Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.

    Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

    O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.

    Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”

  3. marcio said

    Apssei aqui só pra mandar um beijo.
    Tudoode bom o blog. Visistas frequentes e periódicas vem por aí, pode acreditar!!!
    Quando se fala em eleições municipais, acho que estou em ampla sintonia com as palavras de Ruy Barbosa. rs

    bjs bjs

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