Ensaio Sobre a Cegueira

Setembro 15, 2008

 

Quando soube que o Fernando Meireles iria transpôr para a tela a obra de José Saramago, “Ensaio da Cegueira, lembrei imeditamente o que eu já havia lido quanto a opinião do autor sobre a adaptação da sua obra para o cinema, afirmou que: “o cinema destrói a imaginação”. Concordo com isso, embora as vezes pense que há algumas poucas exceções em que o cinema oferece um “norte” para algumas mentes que vagueiam sem percepção.

Ainda tinha na minha memória tudo que imaginei ao ler o livro, todas as inquietações, repugnâncias e incertezas que a ficção me causou, parecia que havia sido ontem. Hoje, após assistir o filme, aquelas imagens que levava comigo já se perderam, pois com as imagens vistas na tela, tudo que criei na minha mente pouco a pouco foi substituído pela leitura do diretor, que trouxe a sua “realidade” filmada e que ao ver o filme submetemo-nos a ela.

Por isso, ratifico a minha idéia – não vale a pena assistir o filme quando imagina-se tanto uma obra lida. Permaneçamos fiel a essa nossa imaginação, creop que ela sempre poderá ser melhor.

Foi em 1997 que aconteceu a primeira tentativa de Fernando Meirelles em comprar os direitos da obra do autor português e falhou. Naquela época Saramago havia dito que não quis porque “não havia muito sentido em transformar em imagens uma história sobre a cegueira“.

 

Bem, revista a decisão, foi uma produtora canadense (Rhombus Media) em co-produção com o Brasil, o Reino Unido (Potboiler Productions) e o Japão (Bee Vine Pictures) que escolheu o nosso brasileiro – Fernando Meireles, para dirigir o filme, e que no entender de Saramago assim o filme “não cairia nas mãos de um grande estúdio de Hollywood”. Depois de todo o tempo de espera, é nesse mês de setembro, que está nos chegando as telas, em circuito nacional por todo o Brasil, o esperado filme “Ensaio da Cegueira”, lembrando que desde maio deste ano o filme teve antiestreia mundial na abertura do Festival de Cinema de Cannes.

A dificuldade de transposição do livro para as telas é exatamente pelo que o livro nos conta: a cegueira incurável e inexplicável, que começa em um homem que está a conduzir o seu carro e, lentamente, se espalha pelo país como uma praga, levando pessoas a um confinamento, cujo convívio os leva a exaustão trazendo valores e sentidos mais excrecentes do ser humano. É uma sociedade desmoronando frente a perda de um sentido vital – a visão!

Perde-se tudo que poderia ser considerado como civilização.

Afinal, qual é a nossa cegueira maior como indivíduos que vivem em coletividade, quais são os valores mais sublimes que colocamos em cheque? O que há de mais primitivo nos homens? O que é ser bom ou mal? Será que poderíamos lembrar aqui de Aristóteles, em especial sua obra Ética a Nicômacos, quando nos mostra a bipartição da alma em excelência moral e excelência intelectual, sendo a primeira a parte irracional da alma e a segunda, a racional, entendendo que apenas a conjugação das duas excelências leva-nos à ética. E será que nos dias de hoje nos, seres humanos, ainda conservamos em nós a ética – a grande virtude, ou somos meros mortais a usar apenas dos instintos da sobrevivência?

Para quem não leu o livro – vale o filme. Para quem o leu – não recomendo que assista! Essa é apenas a minha opinião!

 

2 Respostas to “Ensaio Sobre a Cegueira”

  1. Saudações.
    Eu sou um apaixonado por livros e por filmes. E meu comentário aqui se dar pelo fato desse filme ter como base o livro de Saramago. Concordo que as vezes “o cinema destrói a imaginação”. Sei também que ao recomendar a quem leu o livro, não assistir o filme, é uma demonstração de circunspeção diante do fato de que tudo que nós concebemos ao ler essa maravilhosa obra pode ser perdido quando nos expomos ao ponto de vista de outro, como por exemplo, ponto de vista apresentado por meio de um filme. Contudo, mesmo sendo prudente resolvi assisti o filme logo no sábado (uma dia após a sua estréia). Creio que muitas pessoas – que como eu, leu o livro – se deliciaram com mais um ponto de vista a respeito do que tínhamos lido.
    Para que o cinema não sirva como destruidor(pode ser também “destrutor”) da imaginação é importante que o encaremos como um amigo que vem com sua opinião – mesmo diferente da nossa – e que defende firmemente o seu ponto de vista, sem deixar dúvida de como se sente em relação ao que entendeu do livro, filme… etc.
    Esse filme embora falhe em alguns momentos em apresentar os detalhes do livro. É no geral um bom filme. Não penso que peque nos influenciando negativamente. Faltou um pouco de isenção diante de algumas verdades.
    Bom, eu – a exemplo de muitos. Inclusive da autora do blog – gostei muito mais do livro. O livro é apetitoso, verdadeiro. Causa sentimentos de repugnância, pessimismo (para não dizer realismo), execração e incertezas(roubei da autora do blog).
    Por isso minha recomendação é: leia o livro e você vai se deliciar com esse maravilhoso prato. Assistir o filme? Talvez. Cuidado para não ter a impressão de está repetindo a refeição, porque você na realidade não estará fazendo nada mais, do que comendo o mesmo prato sem alguns ingredientes.

  2. Eu também escrevi modestamente sobre esse filme no meu blog: http://falaparticular.blogspot.com

    Gostaria de dizer que Saramago também tem um blog, e é novo. Esse blog teve sua divulgação ontem. (16 de setembro de 2008)

    http://blog.josesaramago.org/

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