O apelo a estética

Setembro 8, 2008

Estava eu no meu horário de almoço, nada convencional para o habitual, já passava das 14:00 horas, intertida com o colorido que via no meu prato e com a fome que já estava quase ultrapassada, quando os meus ouvidos começaram a ser, literalmente, bombardeados pelas falas apressadas da mesa ao lado – cinco mulheres, cada qual defendendo a sua eloquente idéia feminina e tudo começava assim: »vocês sabem que meu sonho sempre foi ter um centro de estética, não sabem? Todas as minhas amigas sabem disso. Estética para mim é tudo!! Como disse outro dia uma dessas famosas em uma entrevista na Caras, que eu já nem me lembro quem foi, se me aparecer um assaltante digo a ele – « leve tudo, só não leve meu blash!!!«

Outra escolha não me restou que não olhar a mesa do lado para descobrir quem era a dona de tamanho sonho, e, confesso, não houve muita surpresa da minha parte – cinco mulheres juntas, estilos muito parecidos e iguais, uma apenas destoava daquele mesmo padrão.

A maioria delas mais pareciam sair da mesma forma, vestidas quase do mesmo modo, muito blash, calças extremamente justas, cabelos ultra escovados, possivelmente submetidos a uma das inúmeras  variações das escovas que começam por definitiva, circulam pela progressiva e aí seguem seu curso… bolsas quase iguais, modelos quase iguais, tudo “quase igual”, digo isso porque, certamente elas devem achar que possuem estilos diferentes e que  vestem-se diferente uma das outras, mas a verdade é que pareciam saídas de uma mesma forma, todas de um mesmo bolo.

Não me restava outra opção, como estava na mesa ao lado, não havia como não ser espectadora daquela “nobre” conversa que travavam.

O assunto seguinte foi a fixação por marcas e brilhos. Marcas para tudo: calças, óculos, sapatos, maquiagem, bolsas – a fixação pela etiqueta! O brilho, sempre e para quase tudo, mais uma vez o “quase”, pois uma delas confessava que até para uma praia ela quase veste algo que brilha mais que o sol, na variação do oncinha ao pink brilhoso.

Uma delas dizia: »Deus não dá mesmo asas a cobra, pois se ele me desse eu voava por aí comprando tudo! Ah, se eu tivesse dinheiro para tudo que quero!«

A que destoava e fazia a linha  consciente ou tipo “inquisitora- provocadora”, me dou o direito de assim chama-la ( afinal fui eu a espectadora da conversa), dizia a outra em tom de provocação: »mas essa coisa de você dizer aí que só compra a calça ou os óculos de marca pela durabilidade, fala a verdade, você só quer a calça de marca para sair exibindo a etiqueta, não é mesmo? Não engulo essa de durabilidade não pô!!!«  A “estético-maníaca-declarada” respondia: «bem, penso nas duas coisas, mas é claro que é mais pela marca do que pela durabilidade, eu gosto mesmo é da marca, quero mesmo o que é caro, e daí? Desde pequena, sempre fui assim, quando minha mãe queria me dar mais de uma boneca que não estava na moda, eu preferia ter apenas uma, mas ter aquela que estava na moda e era a mais cara, e se não fosse assim eu não queria«

Me vi ali, presenciando o relato daquelas mulheres – escravas das marcas e da estética. Pensei sobre a fala delas. Não queria entrar no julgamento, mas foi inevitável para mim, como não pensar para aonde foram os valores delas. Em que momento perderam o trem da vida, o percurso natural das coisas? Será que no mundo que as cerca existe algo além da aclamada estética? Para além das roupas, dos quilos de maquiagem, para aonde estarão essas pessoas na apelação da moda, da beleza, do que o seu consumismo pode comprar?

Sinceramente, a comida foi quase indigesta, já que foi impossível para mim não refletir sobre essas coisas, pois também sou mulher, estou no mesmo  mundo que elas, e estava na mesa ao lado, embora sentisse que um oceano imenso nos separava naquele instante, os valores que vivemos também, e me bateu um sentimento nostálgico, pois imaginei as mulheres da década de 60, aquelas que tanto lutaram e clamaram pela liberdade feminina queimando os seus sutiãs em praça pública, frente as câmaras de televisão, e hoje nos podem ver assim, mulheres, reféns da estética que o dinheiro pode consumir em questão de segundos.

Uma mulher pode ser elegante, vestir-se bem, ter cuidado com a sua aparência, mas com fluência, sem ser escrava do que é ditado como padrão de beleza, pois o que a diferenciará será exatamente a sua postura frente aos tais “padrões”, não sofrer para acompanha-los, não tornar-se obsessiva por eles, pois cada uma de nós tem o seu próprio “que” individual que nos faz destinguir uma das outras, já que cada ser é único, não existe ninguém igual a ninguém, existem apenas pessoas querendo tornar-se o que não são e insatisfeitas porque não conseguirão essa meta, exatamente porque cada uma de nós somos – ÚNICAS!

As mulheres de hoje pensam que andam livre e mal sabem o quanto refém estão da imagem que necessitam exibir como realização do belo. Escravas da beleza e protagonistas de novos modelos e exigências que elas mesmas submetem-se sem saber a razão, e enquanto isso não pensam, não expõem idéias, ajudam a propagar o mundo do “eu quero” distanciando-se do mundo do “eu sinto”.

As mulheres andam levando a sério e para outros caminhos a frase do “poetinha camarada” – Vinícius de Moraes – “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”.

Vivemos o tempo das revistas como “Caras”, “Quem”, e todas as suas derivações… vivemos o tempo de tudo que vai sendo ditado pela moda, pelo o jet set que anda ditando padrões de beleza e consumismo, pelos rostos novos que surgem e que como relâmpago desaparecem. O tempo é de muito brilho e holofotes, e quem não o acompanha parece ficar para trás, talvez como alienígena do seu próprio tempo, mas que tempo é esse que nos mantém sempre na ansia de acompanha-lo? Que mulheres são essas, quase clones umas das outras, a perder seu estilo próprio em prol de um padrão de beleza ? Que mundo é esse que nos empurra para frente enquanto damos tantos passos para trás?

O que será de nós, mulheres?  Quem somos nós hoje?

 Vale uma reflexão!

p.s.: Desculpe-me pela ausência no blog, mas o acúmulo de trabalho e as aulas para ministrar me deixaram fora do ar por esse tempo – estou de volta! 

 

9 Respostas to “O apelo a estética”

  1. Sinto-me absurdamente livre para comentar este artigo…
    Sabe pq? lol
    Primeiramente pq nada tenho para acrescentar neste artigo, Andrea Menezes conseguiu relatar em poucos paragrafos a minha propria visao sobre o assunto… a verdadeira escravidao do nosso mundo globalizado!
    Pessoas que acham que ter “style” é o mais importante, enquanto que o ser verdadeiro, o ser original – é o que nos faz efectivamente unicos, e nada tem a ver com a verdadeira ditadura atual da moda!
    Vejo raparigas, rapazes, homens e mulheres que ainda vivem numa epoca quase salarazista! Sim!!!!
    Sao completamente dependentes, escravos de tendencias e moditas, marcas grifes e tudo o mais… o TER é o mais importante!
    Tambem eu gosto de comprar tops novos vez por outra…lol, até ai tudo bem… o problema é quando as tendencias da moda sao capazes de fazer escravos e escravas por muitas e variadas estaçoes…
    Sinto que a palavra indumentaria ate poderia servir para “fatos” “uniformes” ultimamente…🙂
    Bem, mas só para fechar meu breve raciocinio acerca deste artigo gostaria de dizer: Adoro ser livre! Meu estilo é unico!
    Se eu quiser ser hermitâ e isto p mim significar felicidade… quero la saber se os estilistas estao com os bolsos cheios ou nao!
    A felicidade vem de dentro e nao de fora

  2. Não sei se você conhece o poema Eu, etiqueta de Drummond. Quando li seu post a primeira coisa que me veio a mante foi esse poema de Drummond. Vou disponibilizá-lo para que todos que não conhecem, possam conher, e os que conhece, possam lembrar.

    Eu, etiqueta

    (…)
    Com que inocência demito-me de ser

    Eu que antes era e me sabia

    Tão diverso de outros, tão mim mesmo,

    Ser pensante sentinte e solitário

    Com outros seres diversos e conscientes

    De sua humana, invencível condição.

    Agora sou anúncio

    Ora vulgar ora bizarro.

    (…)

    E nisto me comparo, tiro glória

    De minha anulação.

    Não sou – vê lá – anúncio contratado.

    Eu é que mimosamente pago

    Para anunciar, para vender

    Em bares festas praias pérgulas piscinas,

    E bem à vista exibo esta etiqueta

    Global no corpo que desiste

    De ser veste e sandália de uma essência

    Tão viva, independente,

    Que moda ou suborno algum a compromete.

    Onde terei jogado fora

    Meu gosto e capacidade de escolher,

    Minhas idiossincrasias tão pessoais,

    Tão minhas que no rosto se espelhavam

    E cada gesto, cada olhar

    Cada vinco da roupa

    Sou gravado de forma universal,

    Saio da estamparia, não de casa, (…)

    Ainda comentando essa questão.

    Terminei recentemente de ler o livro “Diário de um ano ruim” de Coetzee. Nesse livro nós notamos que o Señor C (personagem principal) é um pensador livre. A bela Anya (personagem secundária) é uma jovem cheia de orgulho do seu próprio corpo e satisfeita com a visão machista que os homens têm em relação a ela. Ela vive em função do orgulho que sente. O armário dela é lotado de roupa e ela ainda quer comprar mais. Para sentir-se melhor. (te lembra alguma coisa [pergunta]) Além, é claro, de Alan (personagem terciário, mas que mora com a bela Anya) um homem de meia idade cheio de pragmatismo e muitas vezes incongruente com sua essência. Esse livro ressalta, entre outras coisas a necessidade de “sermos”. A luta constante entre esses três personagens em defesa daquilo que eles acreditam, mostra que além do que podemos exibir, existe uma vida cheia de necessidades para que nos possa levar a um lugar que todos nós imaginamos existir. Lugar este que nos fará deixar de ser projetos de seres humanos, para nos tornar de fato, seres humanos. (vestidos, é claro)

    No livro “A caverna” de Saramago, nós notamos uma visão profunda e viril a respeito de como o consumismo nos leva a uma anulação, in-conciente. Gostei de seu post e espero que continue usando sempre essa visão livre para comentar os humores da vida.

    Visite meu blog:

    http://olharlonge.blogspot.com

  3. fabiola said

    Lindas palavras Andréa.

  4. Andréa Menezes said

    Joubert, será sempre um prazer tê-lo aqui a comentar no nosso blog. Agradeço a sua colaboração tão enriquecedora que contribui com dados importantes ante ao que me propus com essa crônica. Visitarei teu blog e com muito gosto!
    Beijos, e boa semana!

  5. Andréa Menezes said

    Dany, também não posso deixar de fala do teu comentário e agradece, pois, igualmente, com a tua exposição de mulher, também contribuiu e muito para o tema que escolhi, acim de tudo é o reforço de que podemos e queremos, mulheres – sermos livres, sem precisar de contornos ou estigamas que nos prendam! LIVRES como qualquer outro ser humano!
    Beijão e te aguardo sempre por aqui!

  6. Liliana said

    Como dizia Oscar Wilde: “para ser popular é preciso, antes de tudo, ser medíocre”…

    Adorei o artigo “Apelo à estética”!

    Lembrei de um lugar onde trabalhei em que o que importava não era “o que você era”, mas “o que você aparentava ser” ou “aparentava ter”… Medido principalmente pela sua aparência física, pelo seu cabelo, pela marca da sua roupa! Fora a futilidade e a superficialidade embutidas nisso.

    Lembro da DIRETORA do setor, que não sabia quais eram as atribuições da sua função, tampouco sabia diferenciar LINHAS de COLUNAS, dizendo que eu era inteligente e responsável, mas que ainda me faltava o ESSENCIAL: saber bajular as pessoas, me “enturmar” mais (o que, em outras palavras, significava exatamente o que você falou – saber conversar sobre marcas de bolsas, sapatos, enfim, aspectos fundamentais da existência humana rsrsrs). E quando me dei conta, já estava mudando o meu jeito para não perder o emprego!

    Infelizmente, essa é a nossa realidade. Essas cinco garotas que você citou são apenas o reflexo de um País que tem como ícones os jogadores de futebol e as “modelos-atrizes-apresentadoras” .
    Todos nós, a depender da situação, nos tornamos escravos de alguma maneira. Quando estamos mais “arrumados”, aparentamos maior poder – poder aquisitivo mesmo, porque, no final das contas, é isso que importa na nossa pobre sociedade – e nos sentimos mais “aceitos” socialmente.

    Sem falar do preconceito contra os negros… empresas exigem que seus funcionários tenham “boa aparência”,ou seja, “sejam brancos”; pessoas vêem um negro dirigindo um carrão e dizem: “deve ser roubado!”

    E o mais absurdo é que a maioria da população brasileira é pobre e/ou negra! Ou talvez esteja aí a explicação pra tudo isso… não queremos ver os nossos problemas, nos envergonhamos de nós mesmos e do país em que vivemos e, então, nos alienamos, nos entupindo de maquiagem e de roupas caras para “camuflar” a realidade. As maquiagens viram máscaras e as roupas, nossos “escudos”!

    Beijos, parabéns pelo Blog!

  7. Maravilhoso o artigo!
    Ri muito no início, pois parecia não acreditar que uma conversa como essa realmente existiu, por outro lado sei que isso é mais comum do que parece.

    ESCRAVAS, essa é a palavra que para mim melhor define “as mulheres da mesa ao lado”. É inacreditável como nós mulheres, nos achamos tão modernas, independentes, donas de si, conquistamos tantas coisas e não fazemos idéia do quando ainda somos ESCRAVAS de uma cultura machista e que nós mesmas alimentamos sem nem perceber.
    Com certeza seu artigo vai ajudar o meu ( com as devidas citações é claro rsrsrs).
    Assim que ele nascer( rsrsrs), mando para vc!

  8. Jonga said

    Que maravilha, que delícia a forma como se expressa, Moça…

  9. Lopes said

    Tenho 14 anos, e a descrição que fez dessas mulheres, é exactamente aquilo que eu não me quero tornar.
    Encontrei este blog não sei bem como, mas estou a adorar lê-lo🙂

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