O Mistério do Samba

Setembro 29, 2008

 

 

Dirigido por Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor, a união resultou numa num projeto bem interessante e original – rememorar na tela dos cinemas as histórias peculiares da Velha Guarda da Portela, uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro, formada por antigos integrantes da escola de samba Portela. O conjunto original da Velha Guarda era composto por Ventura, Aniceto, Alberto Lonato, Francisco Santana, Antônio Rufino dos Reis, Mijinha, Manacea, Alvaiade, Alcides Dias Lopes, Armando Santos e Antônio Caetano. 

 

O documentário fez parte da seleção oficial da 61ª edição do Festival Internacional de Cannes, conta em 88 minutos o cotidiano, a história de raiz da comunidade carnavalesca da Velha Guarda da Portela, rememorando sambas que estavam na história, praticamente esquecidos, garimpados através do filme na memória de pessoas que navegaram ao longo de todos os esses anos como um arquivo vivo do que representa um referencial de vida tipicamente brasileiro, genuinamente carioca.

 

À frente da pesquisa musical contamos com o encanto e talento de Marisa Monte, uma das mais importantes cantoras e compositoras da MPB contemporânea, que há 10 anos atrás teve a idéia do filme quando começou a resgatar junto a Velha Guarda da Portela os sambas esquecidos. O documentário assim, é o resultado da sua extensa pesquisa musical, que recupera composições dos anos 40 e 50 ainda não gravadas, muitas delas gravadas em 1999 no cd da cantora de título Tudo Azul.

 

Algumas músicas que aparecem no documentário já são conhecidas do público – como Esta Melodia, que Marisa Monte gravou no CD Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão, por sugestão de Paulinho da Viola. Apesar de essa música ter um significado especial, a cantora declara não ter uma composição preferida e diz: “Esses sambas são fonte de sabedoria, de filosofia de vida. A gente aprende muito com as músicas. A experiência de vida que esse compositores passam pra gente por meio das canções traduz muito o que estamos querendo dizer num determinado momento e não sabemos como. É uma fonte de auto-conhecimento e isso ajuda a viver. ” E diz mais, que para ela “a certeza de que a vida seria melhor com esses sambas”

 

O documentário revela a poesia, a musicalidade e a intimidade de sambistas, senhores e senhoras, desvendadas por meio do cotidiano simples de um pequeno bairro da Zona Norte do Rio – Oswaldo Cruz, com o objetivo de recuperar canções perdidas. É a Marisa Monte que também conduz a maioria das entrevistas gravadas na casa dos sambistas e nas rodas de samba e na sua conversa com Paulinho da Viola vai revelando muito das suas descobertas. No transcorrer do filme os integrantes da Velha Guarda da Portela vão contando histórias que mesclam vida particular com a vida da agremiação, alegria e nostalgia daquele passado que não volta mais.

 

Os depoimentos dos sambistas que dedicaram a sua vida ao samba comovem. Pessoas simples, cheias de sentimentos, dotadas de amor pela vida e pelo samba. Nos vemos ali, como cada um deles, pessoas comuns, dotadas de sensibilidade, saudosos de tudo que já foi vivido e na ânsia de saber o que ainda há por viver. Num dos depoimentos, Argemiro, sambista simples, cujo documentário é dedicado a ele, já que faleceu antes mesmo de chegar as telas dos cinemas, confirmamos que independente de classe social a dor do amor foi e continuará sendo o grande combustível de inspiração do compositor da música brasileira, é o momento em que o homem “celebra” o sofrimento através da música como forma de resgatar o amor perdido, por vezes proibido, por vez apenas apenas esquecido, e na fala de Argemiro “o compositor passeia na imaginação.

 

Numas das conversas entre Marisa Monte e Paulinho da Viola, que me chamou atenção, esse sambista declara que o homem necessita saber a origem das coisas, e com o samba não seria diferente, o que é uma verdade, pois são nesses resgaste que podemos entender quais as motivações ideológicas de cada época. É a importância desse retorno as raízes do samba da Velha da Guarda da Portela, quiçá na tentativa de entender como o samba movimentou e movimenta até hoje a vida das pessoas, num ritmo tão forte, esfuziante, que sentimos uma das identidades do Brasil – o samba ; referência nacional propagada pelo mundo afora.

 

Para mim o documentário disse muito, quem sabe também diga algo para você – e viva a alegria do samba!

 

 

 

 

 

 

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Feira do livra da Amadora

Setembro 26, 2008

Interrompemos a emissão para anunciar que os autores do livro estarão no próximo dia 28 de Setembro, pelas 18:00, na feira do livro da Amadora, Pavilhão da Contra Margem, para uma sessão de autógrafos.

Os autores convidam todos os leitores deste blog, e os demais, a comparecerem no evento.

 

Estamos em época de eleições municipais aqui no Brasil. No próximo dia 05 de outubro os eleitores brasileiros escolherão novos prefeitos e vereadores no primeiro turno das suas eleições municipais que “reinarão” por longos 4 anos.

 O momento é para todos eleitores, de todo o Brasil, refletirem sobre o papel dos prefeitos e vereadores, uma tarefa mais que árdua tendo em vista que somos eleitores de um país que, em outubro, na sua totalidade, irá às urnas para escolher entre um total de mais de 15 mil candidatos a prefeito e quase 350 mil candidatos a vereador.

 Diante de tais números, como se pode imaginar, vivemos aqui num momento de “lixo publicitário” propagado pelas rádios, televisão, autdoors, sem contar com os insuportáveis carros de som, que além de ensurdecedores, trazem os seus letreiros que atrapalham o trânsito no meio das avenidas.

 A  apelação é total, os candidatos a prefeitos e vereadores,  literalmente, atacam a população a qualquer custo e sem qualquer pudor, as vinhetas musicais das suas campanhas publicitárias assolam os nossos ouvidos dando lugar até mesmo ao “já embalou, já embalou, deixa João…” Imaginaram isso!

 

O que se pode esperar de um canditato que na sua campanha publicitária apresenta como razão para permanecer no poder um mero “já embalou deixa ficar…” ? Não há um projeto de mais valioso a rememorar, não há resultado a apontar. A gestão valiosa e posta a prova é apenas a do “já embalou” e pelo embalo, apela-se para que o povo deixe ficar.

Em nome da tão proclamada liberdade de expressão vale tudo, vale a poluição sonora, visual, vale toda e qualquer forma de publicade para chegar até o voto. Vale candidato mudar de partido, vale candidato atacar o partido e os antigos parceiros do mesmo partido, esquecendo-se que todos têm seus telhados de vidro, mas ainda assim vale jogar pedra no telhado do outro. Vale oferta de saco de cimento, de dentadura, e tudo mais que a imaginação possa criar para “cativar” o tão carente público.

 Isso tudo me lembra um trecho da peça de teatro do Millôr Fernandes – “Computa, computador, computa”, que diz: “A única nobreza do ser humano é ser esplêndido em cinzas, faustoso em túmulos, solenizando a morte com incrível esplendor, transformando em cerimônia e pompa a estupidez de sua natureza.”

O que fazer diante desse contexto é uma resposta que não é simplista. A política está norteada por valores, estes que decorrem dos homens, e ao meu ver toda a corrupção que age e atua no nosso país é decorrente de uma sociedade marcada por crises em virtude das multicorrupções que já ocorrem no dia a dia de cada indíviduo, que também não é diferente do seu governante, e as relações nos mais diversos âmbitos torna-se amoral, anti ética, pois vive-se uma “mentalidade da facilidade nas relações”.

O que dizer das pessoas que contestam as atitudes dos políticos nepotistas, quando elas mesmas, a cada dia, em doses pequenas e homeopáticas exercitam o seu ato corruptivo – e como?  E aqui peço licença a idéia esposada por Ana Carolina de Barros, cujas idéias vimos no Café Filosófico.

Qual a diferença daquele político que utliza o seu cargo para empregar um irmão para aquela pessoa que assina uma ficha de presença em nome de outra pessoa para beneficiar um amigo no curso que não está presente? E aquele que permite que um amigo que encontra em uma fila de cinema entre a sua frente? Será que há aí alguma diferença? Percebo nessas atitudes que as duas categorias utilizam a posição que estão em nome de interesses privados, pessoais, e assim são nepotistas do mesmo modo, apenas as proporções de quem se vai lesar que são diferentes.

Praticamos pequeno  e repetitivos atos no nosso dia a dia que saem de modo quase involuntário e que colidem com os interesses coletivos, pois se defendemos um particular, seja ele nosso amigo, um parente ou algo do gênero, consequentemente fazemos isso em detrimento da coletividade, o que compromete em contrapartida a nossa moral individual, aquela de cada um.

Se quisermos construir o Brasil, não será com a espera de um político ideal, que nunca se revela, mas façamos a cada dia uma reconstrução dos nossos próprios atos, da nossa própria conduta, essa sim, que tem que ser um ideal ético do que você deseja e espera do seu político e critica que ele não tem.

Não há como deixar de dar razão a Ruy Barbosa “De tanto ver crescer a INJUSTIÇA, de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos MAUS, o homem chega a RIR-SE da honra, DESANIMAR-SE da justiça e TER VERGONHA de ser honesto!” 

Como também diria Aristóteles, o bem comum tão pregado por esse filósofo não é o que predomina na nossa mentalidade de aparentes democratas, mas sim o bem individual e pessoal, a qualquer custo e lesando quem quer que seja. A democracia não é algo que se possa manifestar senão em sua plenitude, e aqui, com as ações tão anti democráticas que vivemos, caminhado sempre para os benefícios próprios, a democracia passa ao largo da sua plenitude, e enquanto nós, individualmente falando, agirmos de modo nada coletivo não poderemos pensar em mudanças substanciais na sociedade.

Talvez seja uma boa pedida assistir o documentário  – “Crise é o nosso negócio” , título original – “Our brand is crisis”, dirigido por Rachel Boyton. É um relato surpreendente de como uma empresa de consultoria política americana (Greenberg Carville Shrum), com ampla experiência em campanhas de eleição,  é contratada para “salvar” a candidatura do ex-presidente Gozanlo “Goni” Sánchez de Lozada a um novo mandato à presidência da Bolívia.

Podemos até imaginar que não existam pontos de identifcação com a nossa política, já que o mesmo refere-se as eleições para a presidência da Bolívia em 2003, mas apesar dos pontos de identificação com a nossa política não serem imediatos, ele pode ensinar muito a nós brasileiros, sobretudo em tempo de eleições, basta um ar de sutileza, uma certa malícia e logo identificamos os “links” com a nossa política, os bastidores das campanhas, pois esse documentário é sim, um poderoso alerta de que, numa campanha política, nada é exatamente o que parece ser, e quem sabe os discursos e promessas ali apresentadas, venha a nos ajudar a identificar um possível bom representante em meio a toda essa salada mista política, desse vale tudo eleitoral.

Sejamos livres nos nossos propósitos, mas pensemos coletivo nos propósitos que envolvem o outro, em tudo que envolve viver em coletividade, pois fazemos parte de um todo que é também nosso e que diz de nós, de quem somos e para aonde iremos e o que queremos.  

Não esqueçamos das palavras de Aristóteles quando também dizia que o homem é por natureza um animal político. Pensemos coletivamente e escolhamos, dentre toda essa “salada mista” que nos vem sendo imposta, o que entendemos ser um melhor dirigente não apenas para uma classe minoritária e privilegiada, mas para todos, pois esse ideal, ao menos em cada um de nós, não pode morrer.

 

 

 

 

 

 

Ensaio Sobre a Cegueira

Setembro 15, 2008

 

Quando soube que o Fernando Meireles iria transpôr para a tela a obra de José Saramago, “Ensaio da Cegueira, lembrei imeditamente o que eu já havia lido quanto a opinião do autor sobre a adaptação da sua obra para o cinema, afirmou que: “o cinema destrói a imaginação”. Concordo com isso, embora as vezes pense que há algumas poucas exceções em que o cinema oferece um “norte” para algumas mentes que vagueiam sem percepção.

Ainda tinha na minha memória tudo que imaginei ao ler o livro, todas as inquietações, repugnâncias e incertezas que a ficção me causou, parecia que havia sido ontem. Hoje, após assistir o filme, aquelas imagens que levava comigo já se perderam, pois com as imagens vistas na tela, tudo que criei na minha mente pouco a pouco foi substituído pela leitura do diretor, que trouxe a sua “realidade” filmada e que ao ver o filme submetemo-nos a ela.

Por isso, ratifico a minha idéia – não vale a pena assistir o filme quando imagina-se tanto uma obra lida. Permaneçamos fiel a essa nossa imaginação, creop que ela sempre poderá ser melhor.

Foi em 1997 que aconteceu a primeira tentativa de Fernando Meirelles em comprar os direitos da obra do autor português e falhou. Naquela época Saramago havia dito que não quis porque “não havia muito sentido em transformar em imagens uma história sobre a cegueira“.

 

Bem, revista a decisão, foi uma produtora canadense (Rhombus Media) em co-produção com o Brasil, o Reino Unido (Potboiler Productions) e o Japão (Bee Vine Pictures) que escolheu o nosso brasileiro – Fernando Meireles, para dirigir o filme, e que no entender de Saramago assim o filme “não cairia nas mãos de um grande estúdio de Hollywood”. Depois de todo o tempo de espera, é nesse mês de setembro, que está nos chegando as telas, em circuito nacional por todo o Brasil, o esperado filme “Ensaio da Cegueira”, lembrando que desde maio deste ano o filme teve antiestreia mundial na abertura do Festival de Cinema de Cannes.

A dificuldade de transposição do livro para as telas é exatamente pelo que o livro nos conta: a cegueira incurável e inexplicável, que começa em um homem que está a conduzir o seu carro e, lentamente, se espalha pelo país como uma praga, levando pessoas a um confinamento, cujo convívio os leva a exaustão trazendo valores e sentidos mais excrecentes do ser humano. É uma sociedade desmoronando frente a perda de um sentido vital – a visão!

Perde-se tudo que poderia ser considerado como civilização.

Afinal, qual é a nossa cegueira maior como indivíduos que vivem em coletividade, quais são os valores mais sublimes que colocamos em cheque? O que há de mais primitivo nos homens? O que é ser bom ou mal? Será que poderíamos lembrar aqui de Aristóteles, em especial sua obra Ética a Nicômacos, quando nos mostra a bipartição da alma em excelência moral e excelência intelectual, sendo a primeira a parte irracional da alma e a segunda, a racional, entendendo que apenas a conjugação das duas excelências leva-nos à ética. E será que nos dias de hoje nos, seres humanos, ainda conservamos em nós a ética – a grande virtude, ou somos meros mortais a usar apenas dos instintos da sobrevivência?

Para quem não leu o livro – vale o filme. Para quem o leu – não recomendo que assista! Essa é apenas a minha opinião!

 

O apelo a estética

Setembro 8, 2008

Estava eu no meu horário de almoço, nada convencional para o habitual, já passava das 14:00 horas, intertida com o colorido que via no meu prato e com a fome que já estava quase ultrapassada, quando os meus ouvidos começaram a ser, literalmente, bombardeados pelas falas apressadas da mesa ao lado – cinco mulheres, cada qual defendendo a sua eloquente idéia feminina e tudo começava assim: »vocês sabem que meu sonho sempre foi ter um centro de estética, não sabem? Todas as minhas amigas sabem disso. Estética para mim é tudo!! Como disse outro dia uma dessas famosas em uma entrevista na Caras, que eu já nem me lembro quem foi, se me aparecer um assaltante digo a ele – « leve tudo, só não leve meu blash!!!«

Outra escolha não me restou que não olhar a mesa do lado para descobrir quem era a dona de tamanho sonho, e, confesso, não houve muita surpresa da minha parte – cinco mulheres juntas, estilos muito parecidos e iguais, uma apenas destoava daquele mesmo padrão.

A maioria delas mais pareciam sair da mesma forma, vestidas quase do mesmo modo, muito blash, calças extremamente justas, cabelos ultra escovados, possivelmente submetidos a uma das inúmeras  variações das escovas que começam por definitiva, circulam pela progressiva e aí seguem seu curso… bolsas quase iguais, modelos quase iguais, tudo “quase igual”, digo isso porque, certamente elas devem achar que possuem estilos diferentes e que  vestem-se diferente uma das outras, mas a verdade é que pareciam saídas de uma mesma forma, todas de um mesmo bolo.

Não me restava outra opção, como estava na mesa ao lado, não havia como não ser espectadora daquela “nobre” conversa que travavam.

O assunto seguinte foi a fixação por marcas e brilhos. Marcas para tudo: calças, óculos, sapatos, maquiagem, bolsas – a fixação pela etiqueta! O brilho, sempre e para quase tudo, mais uma vez o “quase”, pois uma delas confessava que até para uma praia ela quase veste algo que brilha mais que o sol, na variação do oncinha ao pink brilhoso.

Uma delas dizia: »Deus não dá mesmo asas a cobra, pois se ele me desse eu voava por aí comprando tudo! Ah, se eu tivesse dinheiro para tudo que quero!«

A que destoava e fazia a linha  consciente ou tipo “inquisitora- provocadora”, me dou o direito de assim chama-la ( afinal fui eu a espectadora da conversa), dizia a outra em tom de provocação: »mas essa coisa de você dizer aí que só compra a calça ou os óculos de marca pela durabilidade, fala a verdade, você só quer a calça de marca para sair exibindo a etiqueta, não é mesmo? Não engulo essa de durabilidade não pô!!!«  A “estético-maníaca-declarada” respondia: «bem, penso nas duas coisas, mas é claro que é mais pela marca do que pela durabilidade, eu gosto mesmo é da marca, quero mesmo o que é caro, e daí? Desde pequena, sempre fui assim, quando minha mãe queria me dar mais de uma boneca que não estava na moda, eu preferia ter apenas uma, mas ter aquela que estava na moda e era a mais cara, e se não fosse assim eu não queria«

Me vi ali, presenciando o relato daquelas mulheres – escravas das marcas e da estética. Pensei sobre a fala delas. Não queria entrar no julgamento, mas foi inevitável para mim, como não pensar para aonde foram os valores delas. Em que momento perderam o trem da vida, o percurso natural das coisas? Será que no mundo que as cerca existe algo além da aclamada estética? Para além das roupas, dos quilos de maquiagem, para aonde estarão essas pessoas na apelação da moda, da beleza, do que o seu consumismo pode comprar?

Sinceramente, a comida foi quase indigesta, já que foi impossível para mim não refletir sobre essas coisas, pois também sou mulher, estou no mesmo  mundo que elas, e estava na mesa ao lado, embora sentisse que um oceano imenso nos separava naquele instante, os valores que vivemos também, e me bateu um sentimento nostálgico, pois imaginei as mulheres da década de 60, aquelas que tanto lutaram e clamaram pela liberdade feminina queimando os seus sutiãs em praça pública, frente as câmaras de televisão, e hoje nos podem ver assim, mulheres, reféns da estética que o dinheiro pode consumir em questão de segundos.

Uma mulher pode ser elegante, vestir-se bem, ter cuidado com a sua aparência, mas com fluência, sem ser escrava do que é ditado como padrão de beleza, pois o que a diferenciará será exatamente a sua postura frente aos tais “padrões”, não sofrer para acompanha-los, não tornar-se obsessiva por eles, pois cada uma de nós tem o seu próprio “que” individual que nos faz destinguir uma das outras, já que cada ser é único, não existe ninguém igual a ninguém, existem apenas pessoas querendo tornar-se o que não são e insatisfeitas porque não conseguirão essa meta, exatamente porque cada uma de nós somos – ÚNICAS!

As mulheres de hoje pensam que andam livre e mal sabem o quanto refém estão da imagem que necessitam exibir como realização do belo. Escravas da beleza e protagonistas de novos modelos e exigências que elas mesmas submetem-se sem saber a razão, e enquanto isso não pensam, não expõem idéias, ajudam a propagar o mundo do “eu quero” distanciando-se do mundo do “eu sinto”.

As mulheres andam levando a sério e para outros caminhos a frase do “poetinha camarada” – Vinícius de Moraes – “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”.

Vivemos o tempo das revistas como “Caras”, “Quem”, e todas as suas derivações… vivemos o tempo de tudo que vai sendo ditado pela moda, pelo o jet set que anda ditando padrões de beleza e consumismo, pelos rostos novos que surgem e que como relâmpago desaparecem. O tempo é de muito brilho e holofotes, e quem não o acompanha parece ficar para trás, talvez como alienígena do seu próprio tempo, mas que tempo é esse que nos mantém sempre na ansia de acompanha-lo? Que mulheres são essas, quase clones umas das outras, a perder seu estilo próprio em prol de um padrão de beleza ? Que mundo é esse que nos empurra para frente enquanto damos tantos passos para trás?

O que será de nós, mulheres?  Quem somos nós hoje?

 Vale uma reflexão!

p.s.: Desculpe-me pela ausência no blog, mas o acúmulo de trabalho e as aulas para ministrar me deixaram fora do ar por esse tempo – estou de volta!