O Prêmio Camões 2008

Julho 28, 2008

O Prêmio Camões criado pelos governos do Brasil e de Portugal em 1988 é o mais importante reconhecimento a autores da língua portuguesa, para os autores que, pelo conjunto de sua obra, tenham contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa.

Nesta 20ª edição do Prêmio Camões em 2008, no último dia 26, o eleito foi o escritor brasileiro João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro, sendo ele o oitavo brasileiro a ganhar o prêmio mais importante da língua portuguesa.

Este ano o júri foi formado por Maria de Fátima Marinho (catedrática da Faculdade de Letras da Universidade do Porto), Maria Lúcia Lepecki (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), o brasileiro Marco Lucchesi (escritor e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ), Ruy Espinheira Filho (escritor, jornalista e professor da Universidade Federal da Bahia, UFBA), João Meio (poeta e jornalista angolano) e Corsino Fortes (diplomata e presidente da Associação de Escritores Cabo-Verdianos). Os jurados  destacaram “o alto nível da obra literária” do escritor, “especialmente densa das culturas portuguesa, africanas e dos habitantes originais do Brasil”.

Nascido na Ilha de Itaparica, na Bahia, em 1941, João Ubaldo, portanto hoje com 67 anos,  passou a infância em Aracaju, Sergipe, retornando à Bahia na década de 1950. Em 1958 ingressou no curso de Direito da Universidade Federal da Bahia, sendo que um ano antes, já havia iniciado sua carreira de jornalista no Jornal da Bahia e posteriormente em A Tribuna da Bahia.

Entre suas obras mais conhecidas estão os romances: Sargento Getúlio, de 1971, Viva o Povo Brasileiro, de 1984 e O Sorriso do Lagarto, de 1989, além do ensaio Política, Quem Manda, Por que Manda, Como Manda, de 1981.

O Prêmio Camões 2007 foi entregue ao escritor português Antonio Lobo Antunes, Antes de João Ubaldo, valendo destacar que outros escritores brasileiros receberam o Prêmio Camões. O primeiro foi João Cabral de Melo Neto, em 1990, seguido por Rachel de Queiroz (1993), Jorge Amado (1994), Antonio Candido (1998) – o primeiro ensaísta brasileiro a ser contemplado -, Autran Dourado (2000), Rubem Fonseca ( 2003) e Lygia Fagundes Telles ( 2005).

Miguel Torga foi o primeiro autor distinguido, em 1989, e desde então o prêmio foi atribuído a: nove portugueses, Lobo Antunes foi o vencedor da última edição, – oito brasileiros, dois angolanos e um moçambicano.

Os portugueses já estavam a questionar a razão pela qual apenas brasileiros foram avaliados para essa 20ª edição do Prêmio Camões,  pois, fatalmente esqueceram-se de obter informações quanto ao prêmio, que cada ano traz uma das nacionalidades, ou seja, na edição passada, a 19ª edição, coube lugar a um português, e assim, esse ano, na 20ª edição, o júri estava voltado mais uma vez aos brasileiros,  portanto, necessário que seja dito, urgentemente, ao povo português a razão pela qual estiveram sob análise neste ano apenas os brasileiros, para que essa não seja mais uma razão para batalha de nacionalidades que vez por outra acontece entre Brasil e Portugal, pois tal prêmio não anda a margem dos preconceitos que existem na cabeça de muitos e que perduram ao longo dos séculos da nossa história entre esses países.

E como curiosidade, fica o fato de que “A Casa dos Budas Ditosos”, grande sucesso editorial no Brasil e diversos outros países, em Portugal, o seu lançamento causou polémica pelo fato de dois estabelecimentos comerciais terem proibido a venda do romance, em razão do seu extenso conteúdo erótico, mas a primeira edição, de 5.000 exemplares, foi vendida em poucos dias e novas edições estão no prelo. Já em janeiro/2000 o escritor brasileiro esteve em Portugal para ser homenageado pelos escritores portugueses com um desagravo a tal procedimento, foi quando participou da Semana de Estudos Lusófonos, na Universidade de Coimbra.

Não podemos esquecer que João Ubaldo foi, também, citado em diversas antologias, nacionais e estrangeiras, inclusive numa sobre futebol, publicada pelo jornal “Le Monde”, na França. Saíram várias reedições de seus livros na Alemanha, incluindo uma nova edição de bolso de “Sargento Getúlio”. “O sorriso do lagarto” foi publicado na França. “A casa dos Budas ditosos” traduzido para o inglês, nos Estados Unidos. 

Para esse distinto homem brasileiro, de talento único, só podemos reafirmar aqui o que foi dito por ele próprio – não foi surpresa! E são esses caros momentos que nos faz sentir orgulho do “ser brasileiro”, não pela vaidade, mas pela simplicidade, pois o SIMPLES é o seu retrato marcante – VIVA ESSE GRANDE BRASILEIRO!!!!!!!! E deixo-vos aqui um pouco de João Ubaldo, o que fala por ele:

 “Se não entendo tudo, devo ficar contente com o que entendo. E entendo que vejo estas árvores e que tenho direito a minha língua e que posso olhar nos olhos dos estranhos e dizer: não me desculpe por não gostar do que você gosta; não me olhe de cima para baixo; não me envergonhe de minha fala; não diga que minha fala é melhor do que a sua; não diga que eu sou bonito, porque sua mulher nunca ia ter casado comigo; não seja bom comigo, não me faça favor; seja homem, filho da puta, e reconheça que não deve comer o que eu não como, em vez de me falar concordâncias e me passar a mão pela cabeça; assim poderei matar você melhor, como você me mata há tantos anos”                 (VILA REAL)

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Nesse mês de JULHO parece que houve um tema da vez, abordado por algumas revistas,  e mesmo que em prismas diferentes, a meu ver trouxe contribuições interessantes para uma reflexão, e eu, como leitora das revistas – “Vida Simples” e “Super Interessante”, resolvi fazer uma livre associação entre as matérias que me chamaram atenção e peço licença para assim o fazer, diante mão desculpem-me caso as minhas ideias não coadunem com as vossas, mas cada um é livre no seu associar.

A começar pela matéria que me chamou atenção na revista “Vida Simples” o tema clama: “Você não é perfeito. Por que desejamos (e raramente conseguimos) ter um corpo irretocável, um casamento de novela e um emprego de sonhos? A resposta pode estar na forma como nos relacionamos com o mundo à nossa volta”.

Nessa minha livre associação de temas, li a revista “Super Interessante” que touxe o seguinte título : “Terapia Funciona?”. Pensei na relação que um tema, efetivamente, tem com o outro, pensei nesses nossos tempos apressados, esse em que o eficientismo absorve a pessoa. A pessoa que só conta enquanto gera lucro e oferece vantagem.Talvez daí a grande necessidade dos nossos tempos em buscar na terapia um modo de cura para as anomalias da vida moderna, das ansiedades criadas pelos nossos desejos de conseguir isso ou aquilo, de ter sucesso frente a nós mesmo e ao outro. São as lacunas que vão eclodindo dentro de cada um e que nos faz cair num grande abismo, que muitas vezes não cuidado, não falado, não resolvido, pode trazer enorme estrago para a vida.

Na matéria da revista “Vida Simples” há uma abordagem muito interessante, trazida pelo educador Rubem Alves que indaga: como nasce a percepção dos nossos defeitos e limitações e o desejo de querer ser e ter mais? No prisma do olharmos para o outro, o educador vê na comparação um exercício dos olhos: “Vejo-me; estou feliz. Vejo o outro. Vejo-me nos olhos do outro. Ele tem mais do que eu. Ele é mais do que eu. Vendo-me nos olhos dos outros eu me sinto humilhado. Tenho menos. Sou menos. Ele mesmo só descobriu que era pobre quando deixou o interior de Minas para morar no Rio e foi parar num colégio de cariocas ricos. Então começou a se sentir diferente, falava com sotaque caipira, não pertencia ao mundo elegante dos colegas, sentiu vergonha da sua pobreza.”.

Bem, é para descobrir essas respostas, ou ao menos chegar num caminho mais próximo de as tê-las que a terapia é uma necessidade que surge como algo emergente dos nossos novos tempos, e com ela o encontro da escuta como um espaço de acolhida, como santuário silencioso e eloqüente. A escuta: uma terapia de cura do espírito e também do corpo!  Ansiosos por encontrar um respaldo para a própria vida acompanha o homem a constante preocupação do bem-estar, a preocupação da cura, a preocupação das doenças.

Diante da terapia o que nos cabe notar é que Freud inaugurou novos tempos: o tempo da palavra como forma de acesso por parte do homem ao desconhecido em si mesmo e o tempo da escuta que ressalta a singularidade de sentidos da palavra enunciada. Ocupou-se, em suas produções teóricas e em seu trabalho clínico, de palavras que desvelam e velam; que produzem primeiro descargas e depois associações. Palavras que evidenciam a existência de um outro-interno, mas que também proporcionam vias de contato com um outro-externo quando qualificado na sua escuta.

Esses tempos em Freud inauguram a singularidade de uma situação de comunicação entre paciente e analista. Um chega com palavras que demandam um desejo de ser compreendido em sua dor, o outro escuta as palavras por ver nestas as vias de acesso ao desconhecido que habita o paciente. A situação analítica é, por excelência, uma situação de comunicação: nela circulam demandas nem sempre lógicas ou de fácil deciframento, mas as quais, em seu cerne, comunicam o desejo e a necessidade de serem escutadas.

A capacidade de ir além da ciência de sua época está intimamente ligada à possibilidade de Freud de buscar nas palavras de seus pacientes e em suas próprias – mais do que padrões de adaptação à moral e costumes vigentes – uma fala atravessada pelo inconsciente e pela sexualidade: mensagens cifradas e enigmáticas que demandaram outra qualidade de escuta para serem compreendidas.

Ao se deparar com o sofrimento histérico, Freud põe-se a escutar um corpo que fala; nos sonhos descobre a capacidade dos elementos se condensarem e se deslocarem, criando uma outra cena; nos lapsos percebe a expressão de algo, via uma inesperada inabilidade na execução de atos ou falas até então exitosas. Ao dar cada vez mais espaço para o que escutava de forma diferente, no contato com seus pacientes, Freud pôde construir “tanto um novo ramo do conhecimento quanto um método terapêutico”.

A psicanálise surge e se desenvolve na escuta. A partir da escuta singular à qual se propõe fica a indagação que insiste e não cala: “A terapia funciona?”  A meu ver não resta dúvida que SIM, que falar é um método de crescer, é o escutar a si mesmo, e quando muitas vezes trazemos à tona o que sozinhos não conseguimos perceber.

Curar é outra face da evolução, que certamente pode ser confirmada, por exemplo, com a cura de pacientes com síndrome de pânico, mas a caminhada em si mesma já é o grande convite feito pela terapia, seja qual o método utilizado, o clássico – psicanalise ou os mais modernos, apontados como existintes em mais de 400 modelos para quem os procura e o alerta  importante não é o tipo de tratamento, mas a vontade do paciente em amadurecer, associado com a habilidade do terapeuta e da relação que será estabelecida entre ambos.

Fica aqui a minha pequena contribuição para a sua semana, a minha associação de temas para aqueles que gostam de divagar no pensamento. Quem sabe pensar como andamos a nos relacionar com o mundo a nossa volta e quais as necessidades que, naturalmente, temos, e quais aquelas que são criadas por nós, apenas por sermos frutos massificados do meio. O mundo não é todo o tempo cor de rosa para mim e nem para você, mas certamente também não o é para a moça e o moço da capa da revista de semblante sempre feliz e ar moderno.

Boa semana para todos!!!

“Travessia é tudo que existe” (Guimarães Rosa)

 

Lei seca no Brasil

Julho 7, 2008

O Brasil é um país marcado por exageros, isso muitas pessoas já sabem, sejam elas brasileiras ou não, mas por vezes esses excessos chegam assim, repentinamente, com ares de moralidade, e foi o que aconteceu na sexta-feira do dia 20 de junho, quando foi publicada no Diário Oficial da União a Lei nº 11.705, que altera o Código de Trânsito Brasileito, e trata, entre outras questões, do consumo de bebida alcoólica por condutor de veículo.

Antes, era permitida a ingestão de até 0,6 gramas de álcool por litro de sangue (o equivalente a dois copos de cerveja) e com a nova Lei  haverá tolerância até 0,3 grama de álcool. Segundo a referida Lei o condutor que for flagrado dirigindo sob a influência de álcool ou de qualquer substância psicoativa terá a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) suspensa por doze meses, além de ser compelido ao pagamento da multa de R$ 957,70, mais a retenção do veículo até a apresentação de condutor habilitado e o recolhimento do documento de habilitação.

O que a nova lei atesta, sem dúvida, é incompetência das autoridades brasileiras, que não são capazes de punir aqueles que consomem álcool de forma excessiva e conduzem na direção perigosa, e resolvem intimidar a todos agindo indiscriminadamente. Numa mesma condição estão: seja aquele que comeu um chocolate recheado com licor, seja aquele que ingeriu vários copos de cerveja. Diante de toda a confusão que a nova lei vem causando, o certo é que, mais uma vez, estamos a frentar a típica “indústria da multa de trânsito” no Brasil, que pretende arrecadar só neste ano oitenta milhões de reais, segundo declarações já prestadas pelos departamentos de trânsito no país.

Educar no Brasil só de modo autoriário e compulsório, pois esse parece ser o único jeito que o brasileiro aprende a respeitar uma lei e o descaso histórico com as nossas leis torna o Brasil a “bagunça” que insiste em ser. Nos demais países as leis funcionam porque existe fiscalização e punição efetiva para quem não as cumpre, o que exatamente nos falta aqui, pois as leis no Brasil são muito bem escritas, perfeitamente compassadas, muitas delas exemplo para outros povos, como o nosso Código de Defesa do Consumidor, mas a grave questão é a sua aplicabilidade.

Nos Estados Unidos, a lei permite o consumo de até oito decigramas de álcool por litro de sangue. As penalidades, no entanto, variam. Na Califórnia, por exemplo, a carteira de motorista é suspensa para menores de 21 anos. No Mississsippi, se o motorista se recusar a fazer o teste ao ser parado, sua permissão é invalidada por 90 dias. Os ingleses também tem o mesmo limite de álcool permitido nos EUA: oito decigramas de álcool, mas as conseqüencias são diferentes, pois caso o motorista seja pego bêbado,  enfrentará, no mínimo, uma acusação formal, a suspensão da licença por um ano e seu nome numa ficha criminal e a depender do grau de bebida e dos danos causados, o autuado pode ter que pagar multa de até 5 mil libras (cerca de R$ 16 mil) e ficar mais seis meses na prisão. Assim, constatamos que a maioria dos países da União Européia, assim como os Estados Unidos e Canadá, tem uma legislação mais flexível em relação ao tema.

 

No mais, a grande polêmica da nova lei que os penalistas estão a debater no momento, constitucionalmente falando, é que: “Ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo”. A lei desrespeita também os princípios de Razoabilidade, Proporcionalidade, Individualização e Isonomia, previstos na Constituição Federal. Devido à polêmica, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) já intentou ação de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (STF) contra a nova lei, em vigor há duas semanas. A Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo também planeja questionar a legislação.

 

Assim, o motorista pode se negar a fazer o teste do bafômetro ou de sangue, para identificar a presença de álcool no organismo, que não será preso e o prório Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), declarou em nota, que nenhum condutor é obrigado a se submeter aos exames para a aplicação da nova lei de tolerância zero ao álcool no trânsito, e assim o policial só poderá punir o motorista que estiver visivelmente embriagado, e assim aplicar-lhe a multa de R$ 955 e apreender a sua carteira de habilitação por um ano, em caso de acidente.

 

 No caso de não haver acidente e diante da recusa do condutor de fazer o exame no etilômetro, não há como comprovar índice superior a 0,3 mg de álcool por litro de ar expelido, suficiente para levar o infrator à prisão. Só são obrigados a fazer o teste de alcoolemia no Instituto Médico-Legal motoristas que se envolveram em acidente.

Na hipótese do condutor se recusar a realizar os exames, o agente de trânsito poderá identificar a infração por meio dos notórios sinais de embriaguez, excitação ou torpor apresentados pelo condutor. Nesse caso serão aplicadas ao motorista as sanções administrativas previstas no artigo 165 do CTB.  

Não sabemos até o momento como será resolvida toda a polêmica que a nova Lei vem causando no país, mas algo fica claro em tudo isso: necessitamos primeiro radicalizar para depois aprender a organizar, mas acima de tudo o que o Brasil precisa mesmo é  mudar a mentalidade do seu povo, e essa sim – tarefa mais árdua que temos por aqui! 

Até a próxima semana!