Fora de horas

Maio 28, 2008

 

 Ia eu fora de horas, como sempre, numa estrada que ultimamente frequento muito, ali para o lado de Santa Maria da Feira.

A chuva não parava de cair, impiedosa, persistente, chata, imprópria de um mês de Maio. Aquela chuva que chateia, mas não larga, não pára. O piso fica perigoso, os pneus fazem aquele estilhaçar próprio da areia e das pedrinhas que cobrem a calçada.  

 

Junto a uma quinta de traça antiga, meia abandonada, desconsertada e de ar agoirento. Tem do lado esquerdo uma vasta mata que se acentua num decline. No outro lado da estrada, em direcção a norte, o arvoredo continua até ao cume de uma pequena colina.

 

Ali só há estrada, as margens são valas cheias de lama.    

 Só o luar ilumina aquele espaço, onde as árvores de grande copa se tocam nos extremos, como se entrelaçassem as mãos à nossa passagem.

Ali perdida e perto dos muros de betão que homem criou, e,  por vezes, devasta os habitats naturais.

 

 Mesmo ao alcance de um passo, numa curva apertada, diante dos meus olhos surge uma raposa. Primeiro pensei que fosse um cão assustado, mas depois um olhar mais atento por entre as sombras do chão não deixaram dúvidas. Apavorada, como só a presença humana é capaz de o fazer.

 

Parou no meio da estrada encandeada pelos faróis, desliguei as luzes rapidamente antes que outro carro avançasse. Sorrateira como uma raposa, corre pinhal abaixo. Eu permaneci quieta, sem fazer o mínimo barulho.

A janela aberta deixou-me ouvir os galhos que se partem e o ruído das folhas secas à sua passagem.  

Aquela casa de quinta semi destruída guarda o último reduto de uma reserva natural, que em breve dará lugar a mais uns metros quadrados de betão com aquecimento, jacuzzi e aspiração central.

 A raposa*, essa, terá que procurar um novo espaço ou ficar com o que lhe resta.

 

 

*Normalmente a raposa vive em grupos, formados por um macho adulto e várias fêmeas.

Em Portugal, esta espécie pode ser caçada sem qualquer restrição durante o período estipulado. Não é favorecida com nenhuma protecção legal. A caça à raposa já foi proibida na Inglaterra por ser considerada cruel, e, Portugal, para variar, nada é feito a favor do bem-estar animal.

Saliento que “a sua carne não tem qualquer aproveitamento, esta caça serve apenas como troféu para o caçador”.

Mórbido, não é?

Ate quarta….pensem nisto!

Uma resposta to “Fora de horas”

  1. Van said

    “Proibir…proibir…proibir…

    Porquê proibir a caça á raposa?
    Porque não, sómente, regulamentar na base do consenso?
    Porque não inteira-nos do que é feito, na verdade, pelos Caçadores devidamente organizados, em prol da Caça?
    Quem, melhor do que eles, luta pelo equilibrio e preservação das espécies?
    Exemplos negativos de pseudo-caçadores?
    Infelizmente os há realmente,mas temos de ser objectivos quando “apontamos pistolas”.
    E os “defensores da natureza”?
    Os que defendem o Lobo sem que façam defender os pastores;
    Os defensores da Gaivota que indo contra o tradicional controlo “natural” provocaram o desiquilibrio tendo depois tomado medidas nefastas que essas sim passíveis de julgar;
    Outros exemplos poderia descrever.
    Mas, para que possamos pensar que o bom senso é indispensável para uma boa vivencia em comunidade, julgo ter dado o meu modesto contributo. ”

    Van bf

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