Fora de horas

Maio 28, 2008

 

 Ia eu fora de horas, como sempre, numa estrada que ultimamente frequento muito, ali para o lado de Santa Maria da Feira.

A chuva não parava de cair, impiedosa, persistente, chata, imprópria de um mês de Maio. Aquela chuva que chateia, mas não larga, não pára. O piso fica perigoso, os pneus fazem aquele estilhaçar próprio da areia e das pedrinhas que cobrem a calçada.  

 

Junto a uma quinta de traça antiga, meia abandonada, desconsertada e de ar agoirento. Tem do lado esquerdo uma vasta mata que se acentua num decline. No outro lado da estrada, em direcção a norte, o arvoredo continua até ao cume de uma pequena colina.

 

Ali só há estrada, as margens são valas cheias de lama.    

 Só o luar ilumina aquele espaço, onde as árvores de grande copa se tocam nos extremos, como se entrelaçassem as mãos à nossa passagem.

Ali perdida e perto dos muros de betão que homem criou, e,  por vezes, devasta os habitats naturais.

 

 Mesmo ao alcance de um passo, numa curva apertada, diante dos meus olhos surge uma raposa. Primeiro pensei que fosse um cão assustado, mas depois um olhar mais atento por entre as sombras do chão não deixaram dúvidas. Apavorada, como só a presença humana é capaz de o fazer.

 

Parou no meio da estrada encandeada pelos faróis, desliguei as luzes rapidamente antes que outro carro avançasse. Sorrateira como uma raposa, corre pinhal abaixo. Eu permaneci quieta, sem fazer o mínimo barulho.

A janela aberta deixou-me ouvir os galhos que se partem e o ruído das folhas secas à sua passagem.  

Aquela casa de quinta semi destruída guarda o último reduto de uma reserva natural, que em breve dará lugar a mais uns metros quadrados de betão com aquecimento, jacuzzi e aspiração central.

 A raposa*, essa, terá que procurar um novo espaço ou ficar com o que lhe resta.

 

 

*Normalmente a raposa vive em grupos, formados por um macho adulto e várias fêmeas.

Em Portugal, esta espécie pode ser caçada sem qualquer restrição durante o período estipulado. Não é favorecida com nenhuma protecção legal. A caça à raposa já foi proibida na Inglaterra por ser considerada cruel, e, Portugal, para variar, nada é feito a favor do bem-estar animal.

Saliento que “a sua carne não tem qualquer aproveitamento, esta caça serve apenas como troféu para o caçador”.

Mórbido, não é?

Ate quarta….pensem nisto!

Interrompemos a emissão para dar conta das últimas evoluções no caso que tem escandalizado o país, já conhecido como o “Caso das águas com gás”.

Já foi conhecido o acórdão do tribunal no processo instaurado a Joaquim Sousa, empregado de mesa de Viseu, que na passada sexta-feira terá inadvertidamente servido uma garrafa de água com gás fresca a Cristiano Ronaldo, quando o pedido da jovem estrela do futebol português terá sido por uma garrafa de água com gás, mas natural.

O colectivo de juízes decidiu, tal como esperado por toda a comunidade, pela erradicação de Joaquim Sousa de qualquer actividade hoteleira, e por um pedido de desculpas formal a Cristiano Ronaldo, e a toda a população, em data e horário a anúnciar.

Em sua defesa, Joaquim Sousa apenas alegou ter ficado nervoso com a presença dos seus ídolos, o que o levou a baralhar o pedido e à consequente “indesculpável asneira”. Acrescentou ainda que por pouco não serviu um Compal de alperce a Ricardo Quaresma, mas como viu que o treinador estava sentado ao lado dele, resolveu verificar o pedido, não fosse aquele acto ser considerado uma agressão. “Tivesse eu feito o mesmo com as águas”, declarou por fim, quase em lágrimas.

A pena, por muitos considerada de leve, foi atenuada pela intervenção do médico da selecção que afirmou que “como o Cristiano ainda não tinha começado a comer, a probabilidade de uma congestão era muito baixa”. No entanto, Carlos Nobre, especialista mundial em gás, contactado pelo nosso órgão de informação, contraria este ponto de vista, indo ao ponto de afirmar que o médico da selecção ou não percebe nada sobre o efeito das águas com gás frescas, ou então se encontra em clara conivência com Joaquim Sousa.

Alheio a todo este facto, e de perfeita saúde, Cristiano Ronaldo prefere manter-se afastado das câmaras, apenas comentando em mais uma das suas sessões de autógrafos “penso que a opinião pública e os juízes saberão como tratar este caso que pôs em risco a saúde do melhor jogador do mundo”.

Uma multidão enraivecida esperava a saída de Joaquim Sousa do tribunal, pelo que foi necessária uma escolta de polícias para o retirar. Neste momento, Joaquim Sousa espera na sua residência pela intimação para o pedido de desculpas, coisa que deverá acontecer nos próximos dias.

E por agora é tudo. Não perca daqui a pouco a saída da selecção para o habitual banho de Sol. Que óculos levarão? Que protector? Calção ou fato de treino? Estas e outras respostas, já a seguir.

 

Um dos diretores mais festejados da atualidade, Wong Kar-Wai, que vem acontecendo nas estréias esperadas no Festival de Cannes, em “My Blueberry Nights”, no Brasil com o título de “Um Beijo Roubado”, não deixa de seguir a regra, e mesmo não arrebatando os corações dos seus espectadores como em “Felizes Juntos”, “Amor a Flor da Pele” e ainda “2046”, sempre é clara a sua opção pelo amor como tema, em um tom extremamente sensorial, com contrastes marcantes, feitos de sons e cores fortes e realçadas em “My Blueberry Nights” com letras das vitrines de um bar e os reflexos nos capôs de carros, parece a sua versão ocidental do retrô ao modo chinês, no seu primeiro longa falado todo em inglês.

 

Por ser um diretor estrangeiro, sem interferências de Hollywood, traça um verdadeiro balé de imagens, valendo-se ainda da bela trilha sonora do habitual colaborador de Win Wenders, Ry Cooder. O estilo de  Wai é  próprio em audio e movimentos marcados de imagem refuscantes, que nesse filme encontra nas janelas, vidros e nos neons da Grande Maçã um correlato perfeito para sua idéia.

 

Em My Blueberry Nights vemos uma entrega melancólica que nasce de um desamor, no qual a personagem Elizabeth (Norah Jones – que nos prova que é bem melhor continuar na música do que nas telas de cinema) é uma jovem que após o término de um caso de amor, onde ela parece ser a única machucada, procura abrigo onde possa ancorar suas mágoas deixando a chave da casa, que marca o “luto” desse amor no bar de Jeremy (Jude Law), que “coleciona” tantas outras chaves em sigificados diversos como aquela, também é um solitário que recebe a dor abstrata de Elizabeth e desse encontro, em contra-partida, fica um sabor da torta de mirtilo (a ‘blueberry’ do título original) especialidade de Jeremy.  

 

O filme vai percorrendo a trajetória de Elizabeth que pefere sumir pelo mundo, partindo de New York, cujos dias e os milhares de quilomêtros percorridos são marcados pelo filme a fim de retratar a busca de si mesma, aquela que ela julgava perdida com o fim da relação.

 

No elenco, no desenrolar dessa viagem aparecem atores do nível de David Strathairn, Rachel Weisz  e Natalie Portman em interpretações que valem a nossa atenção. Fica claro com o trabalho de  Wai que ele é um cineasta de obsessões e assim, transfere essa paixão aos seus personagens, apresentando tipos incorrigíveis, condenados a amar, e no desenvolver do enredo é assim que Elizabeth aparece, com o seu próprio desamor refletido em estórias de outras pessoas e ela passa a ser mera coadjuvante daqueles quadros pintados por Wai, em dialogos que sugerem possibilidades diversas de visão do seu público.

  

Para alguns pode ser que não estejam diante de um dos grandes filmes do ano, mas a meu ver não é por isso que podemos deixar de conferi-lo,  pois apesar da falta de carisma e talento de Norah Jones, como já dito, que não se comunica com o seu público, vale a doçura do beijo para o final do filme, e se contei muito por aqui, permitam-me, não encontrei outra forma de os fazer perceber que Wong Kar-Wai, apesar de ainda “estreante”, é talentoso e consegue comunicar o tal beijo com pano para muitas interpretações e para quem gosta de uma carga dramática ao amor, na atualidade, ele consegue passar o seu peso…

 

 

Ah, já estava a esquecer de algo, o beijo é o melhor dos sabores que saímos do cinema, e não digam que Wai não conseguiu arrancar um forte desejo na platéia – qual será? rss  Até a próxima segunda, ou quem sabe, antes disso! See you!

 

 

Decorria o ano de 2005, no dia 15 de Abril, quando depois de uma dura “batalha” o Presidente Lula da Silva assinou o decreto de homologação da Terra Indígena (TI) RaposaSerra do Sol.

Desde aquela altura até agora, não tem sido fácil a luta destas comunidades contra os poderes instalados. Vale a pena relembrar um pouco da sua história.

 

 

A terra indígena Raposa/Serra do Sol fica no Nordeste do estado de Roraima, faz fronteira com a Guiana Inglesa e a Venezuela, tem uma área calculada em cerca de 1, 68 milhão de hectares. Onde vivem aproximadamente 15 mil índios das etnias macuxi, taurepang, wapixana, ingarikó e patamona, segundo o costumes dos seus ancestrais.

 

         As primeiras invasões ao território indígena foram realizadas por colonizadores e podem ser divididas em três fases: a primeira, para captura de escravos; depois, para ampliar as áreas conquistada, ultrapassando os limites estabelecidos no tratado de Madrid (1750); por ultimo, para introduzir a criação de gado, para “abrir terreno” para permitir a instalação da população não nativa. Foram criadas várias fazendas nacionais, que pertenciam à corte portuguesa. No início do século XX, a maior parte dessas fazendas estabelecidas em terras públicas já não existiam, e a suas áreas foram apropriadas por fazendeiros para explorações privadas.

 

A riqueza do subsolo atraiu os garimpeiros, que, na década de 1980, chegaram ao auge da sua actividade, criando inúmeros garimpos ilegais. O garimpo acabou por trazer problemas sócio ambientais graves, como a contaminação por mercúrio da água dos rios, prejudicando a saúde das comunidades locais, que se alimentavam à base de peixe.

 

Com uma estrutura organizacional sólida, os índios desenvolveram projectos de sustentabilidade económica e cultural, tendo como base as suas tradições. Uma das preocupações mais prementes foi a organização e construção de um sistema de saúde adequado às suas necessidades. A assistência de saúde dos povos indígenas é tutelada pelo Distrito Sanitário Especial Indígena do Leste de Roraima, a rede de cuidados básicos, atende de forma eficaz actualmente cerca de 235 aldeias, com a colaboração efectiva de técnicos de saúde indígena. Todo o programa promove a medicina tradicional.

 

         As novas gerações dos nativos já possuem competências técnicas, e abertura para exercer diversas actividades profissionais, têm mais acesso à informação, educação e cultura. A manutenção da sua língua nativa é motivo de orgulho.

 

         A auto-sustentação e o uso da terra para esse fim é primordial para o índio, – alguns defendem que pode ser até uma questão de sobrevivência étnica. Os povos de Raposa/Serra do Sol desenvolveram programas de subsistência – o manejo de 27 mil cabeças de gado é a principal fonte de segurança alimentar, aliado a pequenas roças comunitárias, onde a produção principal é a mandioca. O artesanato, também faz parte das suas actividades, no qual são usados diversos materiais, que resultam em peças de barro, cipós, palha, sementes e algodão.

        

A homologação da terra indígena de forma contínua facilita a implementação de novos projectos e o desenvolvimento dos já existentes.

 

Até Quarta….

Maio 19, 2008

 

“O tempo pode apagar a lembrança de um corpo ou de um rosto, mas nunca a memória daquelas pessoas que souberam fazer de um pequeno instante, um grande momento…”

 

Essa semana a propósito de tudo ou nada, andei pensando quantos caminhos percorremos na mente das pessoas e as pessoas nas nossas mentes, ou ainda o quanto podemos ser transportados em memória para épocas e momentos distantes, para um passado, um presente ou para um futuro incerto. Podemos ir a lugares que jamais imaginavámos um dia chegar, percorrer milhares de quilomêtros incertos como dar voltas pela lua…

 

Pode ser apenas uma sensação quando pensamos em uma pessoa querida, alguém que deixou ou deixa saudade, aquele pensar que traz alguém presente, ou aquele pensar que faz presente um momento especial que ficou no passado ou que faz presente um momento que nem aconteceu, mas que nos está reservado para o futuro.

 

Sim, podemos pensar sobre tudo aquilo que ainda não vivemos e esse pensar é o idealizar de um instante, de um por vir, de algo que sequer sabemos como poderá ser, mas que desejamos.

 

O universo humano é fantástico, pois a nossa mente é um vasto infinito de pensamentos, e é através de todos esses pensamentos que podemos viver num paraíso ou num inferno, a escolha é sempre nossa.

 

 

 

Até mesmo Freud, ao falar do seu passado, em um dos seus manuscritos, referiu-se em dado momento as lembranças que iria relatar, como pensamentos que sempre retornavam e que lhe tinham ocorrido ao voltar de uma pequena viagem a sua cidade natal, aos 17 anos, quando em 1872, Freud, efetivamente fez uma viagem a Freiberg, sua cidade natal, a qual, mais tarde, o fez centralizar o foco de observação neste ano, que chamou de “fatídico”, dado as grandes e definitivas mudanças que ocorreram com ele nessa ocasião e que perduravam e viviam no seu constante pensar.

 

O que seria de nós, simples mortais, sem o pensamento a nos acompanhar? Por certo viveríamos muito mais no aqui e agora, mas quem sabe assim também corríamos o risco de cair num imenso vazio a preencher, já que não teríamos a bagagem das lembranças que em muitos momentos faz essa grande diferença, seja a lembrança do que foi vivido, seja a lembrança no sentido de tudo aquilo que ocupa espaço no nosso pensar pelo desejo diário do que ainda temos por viver ou realizar.

 

Claro, tem pensamentos que nos surgem que se pudéssemos apagaríamos, extinguiríamos da nossa mente afastando o tormento da alma até que caíssem em lugar comum, rumo a um passado longíquo, um passado que a nossa mente não pudesse mais resgastar, mas não é desse pensamento que me prendo agora, trago aqui, para uma breve reflexão do seu dia, do meu dia, àquele pensar que preenche a alma, seja por nos reportar a um tempo que não volta mais, como uma infância feliz, por exemplo, seja por nos levar até bem perto de algo que não vivemos ainda, mas que, desejosamente, gostaríamos de viver.

 

A intenção aqui, como na maioria das coisas que escrevo, não é concluir, que isso fique bem claro, quero apenas proporcionar aos nossos leitores um pequeno exercitar da mente, um exercício para que possam tirar as suas próprias conclusões, talvez um encontro com vossos insights, mas acima de tudo, o que pretendi foi rememorar o meu próprio pensar e perceber que ele me põe em completa e positiva transformação, e é nesse percurso que exercito o meu dia a dia, atraindo o que desejo e afastando o que não prentendo. O maior aliado – o nosso pensar!

 

 

A filha do Caníbal

Maio 16, 2008

 

 

O romance de Rosa Montero escrito em 1997 é um de seus livros premiados, ganhou o Prêmio Primavera de Narrativa, além de ter sido adaptado para o cinema pelo mexicano Antonio Serrano, om o título em português – “Aos olhos de uma mulher” não é um livro que me levaria a comprar pelo título, mas como estamos a falar de Rosa Montero, aquela que comanda a nau da narrativa, não é caso de perder tempo, e como não poderia deixar de ser a surpresa foi encantadora.

 

A narrativa é desenvolvida e Lucía Romero, escritora de livros infantis, filha de um canibal e mulher de um sequestrado, vértice de um triângulo composto por ela, Adrian e Félix, companheiros que surgiram em sua vida do nada e se tornaram a sua “família”, inicia uma surpreendente aventura a procura do marido sequestrado, quando pelo meio desse caminho também encontra a si mesma, mas o livro é marcado pelo suspense cujas peripécias resultam em uma viagem ao ápice do romance, na busca de um sentido para a própria vida.

 

Há uma mistura de lirismo e erotismo, comédia e drama, tragédia e humor, além de fantasia e realidade que se misturam, e mais, em meio a tudo isso há ainda um capítulo antológico, que valeria a pena uma distribuição para todas as mulheres do mundo, é quando ela reflete sobre a paixão de uma mulher madura por um jovem bem mais novo.

O humor irônico e sarcastico é um traço marcante da prosa dessa espanhola fantástica – Rosa Montero, que no livro A filha do Canibal retrata o caminho da juventude a maturidade, a idade que delimita a fronteira do nosso mundo e o momento onde podemos decifrar o que somos, através de um relato despretensioso de uma mulher em busca de realização pessoal.

 

Deixo-vos aqui a minha dica! Até segunda-feira e bom final de semana com o grande prazer da leitura que cura muitos dos males do mundo. Ah, uma dica de mais um dos prazeres de Rosa Montero – A Louca da Casa, simplesmente, imperdível!!

 

 

 

 

 

 

Li-o sofregamente durante 6 horas, tempo que durou a viagem de ida e volta entre Porto e Lisboa.

É jornalista de profissão, este é o quarto livro de ficção e talvez o seu melhor. Domingos Amaral de seu nome.

Enquanto Salazar Dormia… É um enredo fantástico envolvido por uma escrita apelativa que nos absorve totalmente. Retrata o nosso país nos anos 40.

 

 

Quando tudo é comandado pela mão de ferro de um ditador, há sempre movimentos estranhos, o bulício dos inconformados que preparam o caminho na clandestinidade. Nos subterrâneos da sociedade nascem aqueles que angariam gente, divulgam os seus ideais, planeiam o “ataque”.

Vou deixar vos a sinopse para “abrir o apetite”, para quem, como eu, não vive sem a companhia de um livro sempre por perto.

 

 

Lisboa, 1941. Um oásis de tranquilidade numa Europa fustigada pelos horrores da II Guerra Mundial. Os refugiados chegam aos milhares e Lisboa enche-se de milionários e actrizes, judeus e espiões. Portugal torna-se palco de uma guerra secreta que Salazar permite, mas vigia à distância.

Jack Gil Mascarenhas, um espião luso-britânico, tem por missão desmantelar as redes de espionagem nazis que actuavam por todo o país, do Estoril ao cabo de São Vicente, de Alfama à Ericeira. Estas são as suas memórias, contadas 50 anos mais tarde. Recorda os tempos que viveu numa Lisboa cheia de sol, de luz, de sombras e de amores. Jack Gil relembra as mulheres que amou; o sumptuoso ambiente que se vivia no Hotel Aviz, onde espiões se cruzavam com embaixadores e reis; os sinistros membros da polícia política de Salazar ou mesmo os taxistas da cidade. Um mundo secreto e oculto, onde as coisas aconteciam “enquanto Salazar dormia”, como dizia ironicamente Michael, o grande amigo de Jack, também ele um espião do MI6. Num país dividido, os homens tornam-se mais duros e as mulheres mais disponíveis. Fervem intrigas e boatos, numa guerra suja e sofisticada, que transforma Portugal e os que aqui viveram nos anos 40”.

 

Boa Leitura e até quarta.

A monstruosidade humana

Maio 13, 2008

Volta e meia a Mãe natureza lembrasse de nos colocar no sítio, e mostra-o, em todo o seu temeroso esplendor. Aconteceu na Birmânia, e voltou hoje a acontecer na China.

É impossível colocar as culpas na Mãe natureza, pois estas manifestações de fúria não são mais do que as consequências do gigantesco sistema que é. O que se lamenta, são as mortes, os desalojados, e mais do que isso, o aproveitamento que se faz da situação.

É deplorável, dá asco, repulsa, ver a forma como os governos se sublevão acima da desgraça, usando esta como meio de propaganda. A entrega de alimentos doados pela comunidade por parte da junta militar ditatorial que governa o país, selados com os nomes dos generais que encabeçam a dita junta, é um acto ao qual temos de assistir sem muito poder fazer, a não ser condenar.

A população destes países precisa de todo o auxílio que consigamos enviarm, mesmo que ao enviarmos a assistência, estejamos involuntariamente a contribuir para a campanha de marketing levada a cabo por estes despotas, a quem biologia chama de seres humanos, e que pouco se interessam se a população lhes morre à porta, ou não.

Estes monstros que habitam a nossa existência, sem para a qual os tenhamos convidados, são a prova de que há quem não tenha sangue a correr nas veias, mas areia que emana do deserto que se instalou no local onde é comum que exista um coração. São os papões das estórias que contamos às crianças, são os lobos em pele de cordeiro, são os podres dos quais não nos conseguimos livrar, e por mais que se queira, teimam a não desaparecer.

Porto de Liberdade

Maio 7, 2008

A luta pela jurisdição da cidade do Porto andou de “mão em mão” entre o poder clerical e a coroa. Mas os portuenses ciosos da sua independência, nunca aceitaram de bom grado o que lhes era imposto.  De uma cidade rebelde e de um povo inconformado resulta a história do título:

Desde de que D. Teresa doou o burgo portucalense ao bispo D. Hugo. Este e os seus sucessores tomaram posse da cidade de uma forma abusiva, aplicando foros aos burgueses que tinham bens e rendimentos na cidade, de modo a ampliar o património da igreja. Um deles consistia, por cada prédio urbano, recebiam outro do mesmo valor. Esta situação desagrada aos portuenses, que não vêem com bons olhos a ambição desmedida e o crescente património do clero.

Nem o rei consegue travar as imposições dos prelados, chegando mesmo a acontecer o corte de relações entre ambas as partes.
Só no reinado de Afonso III é que as inquirições vem dar voz aos habitantes da cidade. O monarca mandou substituir o bispo, D. Julião Fernandes para refrear a autoridade do clero.

Os conflitos entre a coroa e a igreja acerca da jurisdição do burgo, só é apaziguada em 1406, quando o bispo D. Gil Alma mediante a promessa de 3000 libras desiste de toda a soberania exercida até á data – o contrato de posse só é assinado em 1503, e a quantia fixada pelo D. Manuel I é de 120 marcos de prata -, a governação do Porto é entregue por decisão de D. João I, ao alcaide-mor, Conde de Penaguião e Matosinhos, João Rodrigues de Sá ( Sá das Galés).

Amainados os ânimos das lutas pela independência, e a nossa soberania assegurada. Os portuenses levantam de novo a voz contra a tirania de Sá das Galés e seus descendentes, que herdaram do seu antepassado o título e a autoridade. A história demonstra que o povo do Porto nunca gostou de ser amordaçado, e sempre possuiu um espírito que anseia pela liberdade.

Livres das “mãos” do clero, a nobreza tenta primeiro subtilmente depois de uma forma nociva tomar conta da cidade. Várias são os episódios de abuso de poder que os seus principais protagonistas são nobres, entre eles Álvaro Gonçalves Coutinho, senhor de Gaia, a cidade protestou contra as suas violências, neste caso pela forma desumana com que tratava os seus vizinhos. À ordem de D. João I foi-lhe retirada a quinta que possuía. Também D. Nuno Álvares Pereira foi-lhe retirado o seu domínio de Bouças e condenado a uma multa de 160 libras e 17 soldos por ter contestado sem razão. Os donatários das terras maltratavam os seus habitantes e empregados explorando-os e apropriando-se de terrenos que não lhes pertenciam.

É um foral de D. Manuel I que vem estabelecer direitos e deveres dos donatários, que invariavelmente se consideravam sempre donos absolutos de todas as propriedades. Apesar de não ser permitido aos fidalgos residirem no burgo, os resistentes eram castigados pela população que não via com optimismo a sua permanência na cidade.

 Mas há um retrocesso em toda a política levada a cabo pelos seus antecessores, D. Manuel I precisava do apoio da nobreza, e oferece um “miminho” à fidalguia; em 1509, o rei autoriza que possam viver na cidade com a suas famílias e é-lhes permitido a aquisição ou aluguer casa.

Mas a sua teimosia pela luta da sua “independência” e por querer comandar o destino da sua cidade de uma forma tenaz e audaciosa, fez com que lhe fosse concedidos diversos títulos; pelo rei D. Afonso V, por Alvará emitido em 22 de Fevereiro de 1454, recebe o tratamento de «Leal Cidade», por alvará de 6 Julho de 1459, o de «Nossa Mui Nobre e Sempre Leal Cidade».
Mais tarde, é a soberana D. Maria, que pela coragem que o povo demonstrou durante o cerco de 1832/33 , apoiando a causa liberal, oferece o título de «Invicta». Ficando assim designada com o extenso e lisonjeador nome de «Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto».

Até Quarta!

O génio humano

Maio 6, 2008

É com grande agrado que eu vejo que o génio humano é usado para ajudar aqueles que são desprovidos de capacidades argumentativas, mas que, com certeza, não são menos inteligentes.

Este golfinho fêmea teve a infelicidade de ficar presa numa rede de pesca, ainda muito jovem. Essa aventura custou-lhe a cauda, e desde então este jovem golfinho tem vindo a tentar adaptar-se à vida  sem um importante elemento corporal. 

Para melhorar a vida do animal, uma especialista em próteses ofereceu-se para tentar reparar o mal feito, e, após mais de um ano de trabalho, concebeu uma prótese em silicone e plástico que trás de volta a mobilidade ao jovem golfinho. 

Pena é que tantas vezes o génio humano, capaz de coisas incríveis, seja tantas vezes usado contra o próprio, em proveito de poucos.

Ainda são estes exemplos que dão alguma esperança na capacidade de criação e de inter-ajuda, pois é essa a verdadeira razão pela qual somos providos de intelecto.