O adulto na criança perdida
Outubro 27, 2009
Tomado por um clamor de retorno a criança o adulto saudoso se põe a indagar: como posso retornar ao meu tempo de criança?
Hoje é momento de tempos corridos, tempos materiais, tempo de espera, tempo do compro porque quero, só não sei até quando, mas quero, seja porque o lançamento já foi anunciado na Internet, seja porque o meu vizinho já tem um.
Meu amigo me telefonou ontem avisando “você viu o novo modelo que foi lançado? Já pode consultar na Internet porque tá disponível em primeira mão…” Em tempos de crise, de plena turbulência na economia, bolsas despencando, aquecimento global, o adulto tem muito a almejar – decidir o que comprar e como o seu bolso pode sustentar os tantos brinquedos de luxo que circula no mercado de capitais. Salvamos Karl Marx de viver nesses nossos tempos tão “modernos”!!
Perde-se a prosa de viver, as relações do “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite”, “como tem passado?” – para onde foram todas essas expressões? O tempo vai sendo computado no relógio, as horas vão se perdendo em fração de segundos, me recolho muito após a meia noite e parece que não descansei – nasce-me um novo dia e parece que nem dei por ele!
É possível ser adulto e vibrar desejosamente por coisas e pessoas como uma criança? Não estou tão distante dela. Desejo tantas coisas, quero o que o dinheiro pode comprar nesse momento da apelação visual, olho e não vejo. O que faço para deixar de querer?
Preciso exercitar a minha criança, vamos, vamos lá! Quero o meu ar maroto, quero desejar o sorvete da esquina de tal forma a esquecer o troco.
Quero exercitar a criança perdida, lembrar que estou mais vivo e seguir sem pressa. Quero me deliciar com o algodão doce e colorido, girar no carrosel da vida sentindo o vento leve que lambe o meu rosto sem avisar, assanha meu cabelo e me paralisa para contemplar a pipa que corre no céu azul de primavera.
Menino, menino, anda cá, vamos correr sem parar? Olha aquela andorinha, ela vem na nossa direção, sem fazer curvas, ela vai pausar na sua, na minha, na nossa mão!
O meu adulto clama por tantas respostas. É verdade, a criança também, com a nobre diferença que a ansiedade infantil, quase pueril, tem pressa porque quer ir brincar lá fora e os adultos têm pressa porque sabem que o tempo traga as possibilidades da plenitude do fazer, do arriscar-se, do não ocultar-se.
Criança dá a cara á tapa, não tem medo e nem vergonha da resposta. Não precisa ser quem não é – existir é uma festa no seu mundo de fantasias, aquele que a mente – limpa, quase que como uma folha de papel em branco, vai pintando, a cada dia, de todas as cores que se vê ao longe no arco-irís que risca o céu de abril.
É, ser adulto dá uma canseira danada, e como diria Guimarães Rosa, “nonada”, vamos simplificar a ciranda da vida e entrar na ciranda do riso, de tudo aquilo que o dinheiro não pode comprar, vamos nos embalar numa alvorada de emoções, sentir as coisas simples da vida, correr para tomar aquele sorvete no fim de tarde sem qualquer culpa, rir de nós mesmos, rir das “loucuras” do mundo, das nossas próprias, descobrir que tem tantas coisas que nem precisamos, mas lotamos os armários, ocupando todos os espaços com a inequivoca sensação de que precisamos permanecer na moda.
Vamos ser livres, soltos como as crianças, porque a inocência de outrora permanece em nós, ainda que escondida, ainda que pareça perdida.
Dá uma olhada para os lados, para baixo, para cima e encontra a tua criança. Ela não se perdeu, ela apenas anda meio que de férias, meio que distraída, esperando ser convocada de novo para, apenas com um empurrãozinho teu, voltar a funcionar – vamos, anda lá! E quem sabe nesse frenesi possa ir assistir “Tá Chovendo Hamburger”, uma oportunidade para convocar a sua criança para entrar em festa, leve como uma pena que gira pelo ar, descomprometida, sem esperar qualquer resposta.
Estrangeiros sem sair de casa…
Maio 20, 2009

Essa semana começo aqui lembrando de um assunto que sempre trocávamos, eu e uma querida amiga – Angela (daquelas que para ser irmã restam apenas ausentes os laços de sangue) e fazia parte das nossas conversas, digamos, “filosóficas”, naquela atmosfera tal do ser e do existir, que levavamos a cabo através da necessidade de compreensão, ao menos para nós – uma reflexão que versava sobre qual o nosso lugar nesse largo mundo.
Falávamos, claro, sem desejar que isso fosse a nossa realidade, numa ironia que, em verdade, buscava compreensão – do nosso desejo de ser uma “igual”, sair da rota da sensação “estrangeira”. Calma, eu explico melhor!
Sabe quando você não se enquadra em nenhum daqueles estereótipos da sua cidade, do seu país, talvez até mais, daquela maioria que habita o planeta chamado Terra? – Será que já deu para entender até aqui? Pois é! Ainda peço calma, pois também não somos alienígenas tipo saídas do filme “The War of the Worlds”, não descemos de nenhum disco voador para atuar como humanas aqui na terra. Ainda não!
A questão era falar como nos sentiamos a fim de, ao menos nos percebermos, como estrangeiras de uma mesma região. Sentir que não estávamos sozinhas, afinal de contas, não é de hoje que já sabemos que todo ser humano necessita “pertencer”, e assim, trocando as nossas inebriantes confissões, nos sentiamos pertencentes a um mesmo mundo e nos riamos com isso.
Queríamos, quer dizer, aliás, no fundo não queriamos, mas pensávamos – como seria mais fácil viver enquadrada num mesmo “padrão da igualdade”, queriamos gostar das mesmas músicas da maioria, dos mesmos lugares da maioria, gastar o nosso “rico dinheirinho” como a maioria, dando o céu para ir a um show daquelas festas “casadinhas” da moda, me desculpem os que gostam, mas poderia ser algo como Ivete Sangalo e Jamil. Dar o reino por uma daquelas bandinhas da moda, flutuando num prazer quase delirante por frequentar o “ barzinho da moda” e lá exibir os nossos corpinhos sarados, claro, sendo sempre da moda. Queríamos falar “ninguém merece” na língua da moda, com as expressões que me fogem agora!
Será que assim já começa a fazer sentido aonde queríamos chegar?
Não, não é nada fácil não pertencer, não entregar o reino por uma festinha da moda, não vibrar pela maioria das coisas que a maioria da pessoas ao seu redor estão vibrando, não é fácil não falar a mesma língua, não é fácil não desejar as mesmas coisas, não ir aos mesmos lugares, não participar das mesmas programações e não saber cantar a música da moda.
Quem disse que é fácil ser estrangeiro?
Calma, também não disse que somos melhores ou piores por isso, apenas quero dizer que aquela reflexão faz parte de um passado, que, permanece no nosso presente, porque não ser uma “IGUAL” é fazer parte de um mundo quase altista, em que poucos falam a sua língua, que poucos te entendem ou deixam espaço para que você, simplesmente – também seja!
Porque em meio a essa sensação, somos vistos, as vezes pelos nossos próprios amigos – os que são da moda (claro que também tenho um amigo ou amiga da moda), como estranhos, como seres que estão concorrendo ao cargo de superior, quando na verdade, indago-me: é perciso haver alguém em condição superior?
Em verdade, o ser estrangeiro não busca nada disso, ao menos na compreensão que fazíamos, talvez tenha apenas a consciência solitária de que não deseja as mesmas coisas e que tem anseios outros pela vida, e que, simplesmente, são diferentes, e na maioria das vezes, para muitos – fora da moda!
A questão posta não é quem tá certo ou errado, mas o divisor de águas que tudo isso gera dentro de uma coletividade – como conviver com as diferenças sem sentir-se “ESTRANGEIRO” e sem ser taxado como tal?
Não falo a sua língua, não faço parte do sua tribo, não gosto do que a maioria gosta, não leio as revistas que a maioria gasta o tempo passando as sua páginas - trocamos Caras por Caros Amigos. Lemos do Eça de Queiroz ao Onfray, e daí? Um imenso abismo nessas diferenças?
Não vibro com a música da moda, não quero ser igual aquela moça da passarela, com as mesmas roupas e o mesmo brilho que ela, não assisto Faustão aos domingos e nem sei o que acontece e nem conheço os participantes do Big Brother, e quando encontrar essa maioria – será que eu vou ter assunto pra conversar?
Quero ser estrangeira sem parecer enfadonha, quero ser estrangeira sem ter que ser vista como superior ou alenígena, quero viver o meu mundo desigual, mas para tudo isso não quero divisores de águas, não pretendo pôr o outro à margem, porque com um “igual”, na sua condição de ser humano, e como tal – único, talvez também tenha o que trocar com ele, e como farei se ele também me põe distante do seu mundo?
A questão parece simples – mas não é! A filosofia continuará a circular nos seus inúmeros “por quês”, continuarei dando voltas pelo buraco profundo de Perséfone nos seus seis meses que contempla a vida no modo obscuro embaixo da terra.
Em verdade, esse assunto me veio, a propósito, depois da lembrança de um encontro que tive com a minha amiga Angela, e veio para fomentar com vocês um debate, para trazer de volta essa nossa questão do passado, para talvez fazer com que você sinta que também pertence a um espaço, que pode ser ou não um estrangeiro, mas que de um ciclo ou outro, pode-se trocar, acima de tudo – idéias!
Seja no seu mundo ou no meu, continuaremos seguindo em busca de respostas, e se não for assim não tem muita graça, pois dizem que Deus gastou os 07 dias dele para fazer o mundo, e porque nós não podemos usar mais que sete vidas para descobrir as nossas estranhezas dentro desse mundo?
Vamos todos (sejam os estrangeiros, sejam os iguais) marcar uma festinha que entre na moda? rssssss
Dedico esse texto com um abraço forte aos meus amigos, aqueles que são “estrangeiros” e aqueles que são “iguais” – e viva as diferenças porque elas estão cada vez mais na moda!
A consciência do tempo
Maio 4, 2009
A própria Filosofia, vista como algo que tem como ponto de partida a vida, tal e qual ela é sentida e interpretada por cada um nós, nos últimos dias me remeteu a “impermanência” do nosso tempo, aquele que nos chega de modo ciclíco, sazional, apresentando-nos a vida de muitas e muitas maneiras…
Ao relacionar o tempo com a filosofia, recordei-me de Kant, filosófo que explicava que o espaço e o tempo pertenciam à condição humana sendo propriedades da consciência, e não atributos do mundo físico. Será mesmo assim? Será que fomos nós, simples mortais, que o criamos como modo de seguirmos uma rotação da vida? Platão a falar sobre o tempo, ainda a.C, nos disse que: “O tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel”. Já os físicos insistem em afirmar que o tempo não flui; ele simplesmente é. Shakespeare referiu-se ao tempo como “a ciranda do tempo”. E como esquecer de Santo Agostinho e a sua reflexão auto-biográfica sobre o tempo, expressa no Livro XI da obra “Confissões“ (recomendo a leitura) , lá os questionamentos dele, tão atuais quanto se hoje estivesse vivo, nos conduz a ver que o tempo nos escapa, que não podemos apreendê-lo, não há como medi-lo e nem mesmo como decifra-lo.
Nessa ciranda, apesar do tempo ser algo tão comum a nossa experiência de mundo físico, como pode ser ele algo tão difícil de definir?
Esses dias, em menos de 24 horas, vivenciei essa consciência do tempo, o tempo de chegar em uma cidade, realizar o trabalho que lá tinha por fazer, partir e chegar em outra cidade e, simplesmente, vivê-la na sua mobilidade. Isso trouxe-me a reflexão desse tal TEMPO – grande enigma da vida, horas é o nosso melhor amigo e horas é o nosso pior inimigo.
Quando estou em aeroportos não raro me vem essa reflexão, pois em um dado momento, quando seguimos como viajantes, a percorrer algumas cidades, por vezes chegando a cruzar outros continentes, perdemos um pouco a identidade desse tempo e de quem somos frente a ele, a noção flutua no senso de espaço e sentido, e flutuantes somos todos nós, ali, por entre as nuvens que vemos do avião.
Pensei sobre os ponteiros de um relógio que se segue a cada fração de segundo, levando consigo o nosso estado de ser, levando consigo cenas e situações que nos diz que nada poderá ser igual ao que vivemos minutos atrás, mesmo que venhamos a resconstituir a cena com o máximo de fildelidade ao quanto vivido no tempo anterior, nada poderá ser igual, simplesmente porque jamais estaremos iguais, nos também mudamos de muitas maneiras nesse TEMPO.
O nosso estado de ser, as nossas sensaçõesn- elas mudam de modo sublime, tão sublime quanto a vida, quanto toda a sua essência, que não raramente clamamos por respostas.
Mudamos em nossos estados de alegria e de tristeza, de buscas, de anseios, elegemos algo e depois, a seguir, já deixamos de o eleger, e tudo isso é belo, tão belo como saber que daqui a poucas horas, depois que tenha escrito aqui para vocês e que vocês me tenham lido, tantas e tantas outras coisas poderão acontecer a ponto de nem mesmo lembrarmos como estavámos nos tais minutos atrás desse tempo da leitura.
Já pensaram nisso? Pensaram como a impermanência da vida é algo belo e muitas vezes difícil de aceitarmos? Pensando sobre isso, para completar os cenários que vivenciei na minha imaginação de viagem através do tempo, uma música me chegou aos ouvidos – “The Scientist”, veio naquele instante em que refletia, através de um voz que gosto muito que é dos Coldply e nela um intrigante clamor: “Let´s go Back to the Start” e daí pensei – como seria voltar no tempo, como voltar ao início de algo? E na mesma música, mais a diante, há uma afirmação – “Nobody said it was easy”, não, não é mesmo fácil! O clipe dessa música é finalizado com um carro em marcha ré, o carro se desloca para o tempo passado como se fosse possível retornar a ele sob o ângulo em câmara lenta.
Como seria manusear o tempo, assim como fazemos quando acertamos um relógio? E vejam que mesmo nesse ato simples de acertar o nosso relógio, não podemos, simplesmente, registrar nele o nosso tempo, aquele que queremos – o que apenas podemos fazer é apontar o tempo cronológico da vida, aquele que nos faz mais velhos a cada aniversário.
Em meio a todas essas reflexões recordei-me da complexa e linda letra do Cateano Veloso – “Oração ao tempo”, a música é uma bela referência ao “Deus Kronos”, e para aqueles que não lembram, deixo aqui uma das minhas estrofes preferidas que diz:
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
O que seremos no amanhã desse tempo que já não terá sido? Realizaremos o “milagre” de segurar o tempo ou o tempo já nos terá tragado no que haveria de ter sido?
As reflexões do tempo, essas eu sei que sempre retornarão a memória do meu tempo, vez por outra me virá a chance de pensar melhor sobre ele, nem que seja apenas quando me perceba sentada no saguão de um aeroporto a espera de mais um vôo, na iminência de dentro de algumas horas me ver em outra cidade e perceber que o tempo passou tão rápido que não pude segurá-lo, mas na memória do tempo eu tudo terei sido e feito.
Finalizo então com a fala de Albert Einstein quando escreveu para um amigo e veio a expressar essa questão dizendo: “O passado, o presente e o futuro são apenas ilusões, ainda que tenazes”.
Agora, façamos o melhor do nosso tempo, pois ele não retorna as nossas mãos e não podemos segurá-lo, e nem guarda-lo numa caixinha, como possivelmente gostaríamos, assim como podemos, fisicamente, segurar os ponteiros de um relógio, então, para ele, nos cabe uma vida bem vivida, com o desejo e o comprometimento de sermos felizes; o fluxo pulsante realizará o melhor desse tempo, as vezes atentos a cada momento e as vezes relaxados, apenas sentindo-o passar e sabendo que, sem dúvida, ele nos trará e nos levará muito, mas, sobretudo, nos resta sempre a possibilidade de ser, ainda que não naquele tempo que gostaríamos que tenha sido…
Um ano de vida do TAXICIDADE!
Dezembro 17, 2008

Faz hoje um ano que o nosso livro, Taxicidade, se materializou. Foi um longo percurso, as ideias nem sempre se transportam facilmente para o papel.Era uma noite de ansiedade, uma noite fria que eu quase não senti tal era a ânsia que me dominava.
O bar, Era uma vez no Porto, esteve ao rubro. Cinco autores, um livro e muitos familiares e amigos. Os pais olhavam-nos babados pelo nosso glorioso feito. Para os autores do Taxicidade era a NOSSA GRANDE NOITE, a primeira de muitas, tenho a certeza.
No bar; o calor, o fumo, a confusão de vozes que se sobrepunham, a constante solicitação por uns e outros, os beijos de quem nos queria cumprimentar, e dizer, eu estou aqui.
Foi uma noite única, mágica para quem, como nós, a viveu intensamente.
Hoje, passado um ano, o nosso TAXICIDADE continua à venda nas livrarias deste país.
Embora na caminhada de cada um dos autores outros projectos tenham tomado a maior parte do tempo, o TAXICIDADE fará sempre parte das nossas vidas como o primeiro livro, como aquele sonho que se realizou.
Nós continuamos a encontrar-nos, pontualmente, mas sempre que o fazemos o bom humor surge com aliado natural. Daríamos uns bons “gatos fedorentos. Lembro-me dos nossos encontros sempre com um sorriso nos lábios: das piadas que trocamos, do segundo sentido das frases, das conotações das palavras. Até os elementos mais tímidos se revelam naqueles encontros.
Mas o TAXICIDADE ainda tem muito para dar, sob outras formas de expressão, outras artes. O prezado leitor, pode ter a certeza que o TAXICIDADE está no início de vida. Parabéns pelo 1º aniversário!
Nós – “marionetes do jornalismo”
Outubro 22, 2008

Recebi de um aluno um texto do Nelson Hoineff, cujo link é: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=508JDB002. O tema é algo que sempre e continuamente estou a refletir no meu inconformismo de quem espera chegar, quem sabe um dia, um tanto mais próxima de respostas; vim aqui “verbalizar” para vocês, convidando-os a pensar comigo, para que então cheguem as suas próprias conclusões, e se elas aparecerem, por favor, passem adiante, é o mínimo que podemos fazer para contribuir na chegada do dia em que, nós, seres humanos, compreenderemos que a nossa atitude pode mudar alguma coisa.
Aqui no Brasil, mais uma vez – “na terra do sempre e quase nunca”, o drama da vida real torna-se reality show frente as câmaras de telivisão, e a notícia é passada de modo tão sensacionalista e pleno que em dados momentos pensamos até ser ficção, diante de produção tão bem montada e dos efeitos especiais que fazem flesh a nossa tão disputada visão, para muitos resta apenas conferir.
A “bola da vez” nesse momento, digamos assim, ilustrada pelas manchetes de televisão, jornais e revistas tem muitos títulos: “O sequestro de Santo André”, “A morte da jovem Eloá” “A tragédia que tirou a vida de uma jovem de 15 anos”, “O amor que leva a morte” e por aí vai… são inúmeras as denominações trazidas pela mídia diante de mais um caso, dentre tantos outros, tão cruel, tão violento, tão passional, tão inominado.A dificuldade maior para nós, ante todo o sensacionalismo posto pelas câmaras de televisão, antes, durante e depois do desfecho fatal, é que por falta de boas informações, somos compelidos a ver e rever, milhares e milhares de vezes, o mesmo “filme” trágico, as mesmas cenas, a mesma leitura sórdida de sempre, aquela que os meios de comunicação, visando atingir o seu lucro nos “vomitam”.
Os bandidos tornam-se “coitadinhos” e os tais “coitadinhos passam ao papel de marginais, tudo em questão de segundos; a polícia quer dar show para os espectadores ávidos por ação que estão a acompanha-los pela TV, e não só, aqueles que pretendem passar por estrela, ainda que em um breve estrelato, basta aparecer naquele limitado campo de ação e faz-se ali o seu momento de “glória” ! E nós?
Muitos de nós estamos, como numa espécie de “deleite mórbido”, a contar presença e dar os pontos para que a audiência atinja seus picos, sem tempo para obter a informação e refletir, sem tempo de nos dar conta que ali não é ficção, mas realidade, mesmo que aquela imite a vida, estamos a espera de menos além do que o the end – o que está acontecendo com o ser humano? Podem me dizer, por favor! Recordo-me nesse instante a conhecida frase de Thomas Hobbes – “o homem é o lobo do próprio homem”. Como somos ferozes, ferocidade impressa de tantas formas, mas, sobretudo, posta nesse “mórbido prazer” em ser espectador de trágicas notícias, e a prova disso é o elavado indíce de audiência para aqueles programas sensacionalistas que passam o dia a mostrar os crimes ocorridos nas grandes metrópoles.
Somos os marginalizados do outro lado da cortina? Somos! Capturados por uma distorção de imagens e interpretações que ficam ao sabor do capitalismo selvagem a espera de bater os pontos de audiência e da vendagem de mais e mais revistas e jornais? Somos! E como diz o Nelson Hoineff, nessa altura já passamos e muito de espectadores, somos, unicamente – consumidores passiveis, a espera do produto seguinte! Então vamos consumir coisas melhores, vamos ler as revistas que não são manipuladas pelos interesses políticos do nosso país, vamos assistir canais de TV que consideram que somos seres capazes de interpretar uma formação, que não somos debilóides.
Algo me causou ainda mais espanto ao terminar de ler essa matéria, foi o fato da pergunta final, que em verdade é uma resposta – “A propósito: como era mesmo o nome completo daquela menina que jogaram pela janela?” Parei para pensar e como num sopro me veio – “Isabella Nardoni”. Lembram dessa outra bola da vez? Sim, a notícia já ficou velha, o show já foi transmitido, as bilheterias já lotaram, o lucro já foi auferido, e a com a mesma rapidez que toda aquela tragédia nos chegou, foi consumida. Outras também passaram e outras também chegarão, como essa do “Sequestro de Santo André”, não há tempo para processar nada, não há reflexão de nada, o importante é manipular a notícia!
Por tudo isso, penso que o texto do Nelson Hoineff, deixou de fora uma importante reflexão – e qual seria ela? Para um “jornalismo selvagem” também há um espectador que pretende ser apenas um consumidor, e esse espectador não faz parte apenas de classes sociais menos informadas, não! Vejo também nesses espectadores pessoas intituladas esclarecidas e escolarizadas, pessoas com a acesso a outras informações que não apenas essas, pessoas que poderiam utilizar do seu poder de discernir, que poderiam não colaborar para o aumento desses pontos de audiência, mas permanecem pacíficas, sentadas a assistir tudo isso como num delírio cego sem dar-se conta de nada.
Ficam as perguntas, e mesmo que elas não tenham uma imediata resposta, que nos sirva de reflexão: o que os nossos olhos, efetivamente, enxergam, são as informações que nos são passadas? Será que um dia aprendemos a ver ou desaprendemos sem nos dar conta?
O apelo a estética
Setembro 8, 2008

Estava eu no meu horário de almoço, nada convencional para o habitual, já passava das 14:00 horas, intertida com o colorido que via no meu prato e com a fome que já estava quase ultrapassada, quando os meus ouvidos começaram a ser, literalmente, bombardeados pelas falas apressadas da mesa ao lado – cinco mulheres, cada qual defendendo a sua eloquente idéia feminina e tudo começava assim: »vocês sabem que meu sonho sempre foi ter um centro de estética, não sabem? Todas as minhas amigas sabem disso. Estética para mim é tudo!! Como disse outro dia uma dessas famosas em uma entrevista na Caras, que eu já nem me lembro quem foi, se me aparecer um assaltante digo a ele - « leve tudo, só não leve meu blash!!!«
Outra escolha não me restou que não olhar a mesa do lado para descobrir quem era a dona de tamanho sonho, e, confesso, não houve muita surpresa da minha parte – cinco mulheres juntas, estilos muito parecidos e iguais, uma apenas destoava daquele mesmo padrão.
A maioria delas mais pareciam sair da mesma forma, vestidas quase do mesmo modo, muito blash, calças extremamente justas, cabelos ultra escovados, possivelmente submetidos a uma das inúmeras variações das escovas que começam por definitiva, circulam pela progressiva e aí seguem seu curso… bolsas quase iguais, modelos quase iguais, tudo “quase igual”, digo isso porque, certamente elas devem achar que possuem estilos diferentes e que vestem-se diferente uma das outras, mas a verdade é que pareciam saídas de uma mesma forma, todas de um mesmo bolo.
Não me restava outra opção, como estava na mesa ao lado, não havia como não ser espectadora daquela “nobre” conversa que travavam.
O assunto seguinte foi a fixação por marcas e brilhos. Marcas para tudo: calças, óculos, sapatos, maquiagem, bolsas – a fixação pela etiqueta! O brilho, sempre e para quase tudo, mais uma vez o “quase”, pois uma delas confessava que até para uma praia ela quase veste algo que brilha mais que o sol, na variação do oncinha ao pink brilhoso.
Uma delas dizia: »Deus não dá mesmo asas a cobra, pois se ele me desse eu voava por aí comprando tudo! Ah, se eu tivesse dinheiro para tudo que quero!«
A que destoava e fazia a linha consciente ou tipo “inquisitora- provocadora”, me dou o direito de assim chama-la ( afinal fui eu a espectadora da conversa), dizia a outra em tom de provocação: »mas essa coisa de você dizer aí que só compra a calça ou os óculos de marca pela durabilidade, fala a verdade, você só quer a calça de marca para sair exibindo a etiqueta, não é mesmo? Não engulo essa de durabilidade não pô!!!« A ”estético-maníaca-declarada” respondia: «bem, penso nas duas coisas, mas é claro que é mais pela marca do que pela durabilidade, eu gosto mesmo é da marca, quero mesmo o que é caro, e daí? Desde pequena, sempre fui assim, quando minha mãe queria me dar mais de uma boneca que não estava na moda, eu preferia ter apenas uma, mas ter aquela que estava na moda e era a mais cara, e se não fosse assim eu não queria«
Me vi ali, presenciando o relato daquelas mulheres – escravas das marcas e da estética. Pensei sobre a fala delas. Não queria entrar no julgamento, mas foi inevitável para mim, como não pensar para aonde foram os valores delas. Em que momento perderam o trem da vida, o percurso natural das coisas? Será que no mundo que as cerca existe algo além da aclamada estética? Para além das roupas, dos quilos de maquiagem, para aonde estarão essas pessoas na apelação da moda, da beleza, do que o seu consumismo pode comprar?
Sinceramente, a comida foi quase indigesta, já que foi impossível para mim não refletir sobre essas coisas, pois também sou mulher, estou no mesmo mundo que elas, e estava na mesa ao lado, embora sentisse que um oceano imenso nos separava naquele instante, os valores que vivemos também, e me bateu um sentimento nostálgico, pois imaginei as mulheres da década de 60, aquelas que tanto lutaram e clamaram pela liberdade feminina queimando os seus sutiãs em praça pública, frente as câmaras de televisão, e hoje nos podem ver assim, mulheres, reféns da estética que o dinheiro pode consumir em questão de segundos.
Uma mulher pode ser elegante, vestir-se bem, ter cuidado com a sua aparência, mas com fluência, sem ser escrava do que é ditado como padrão de beleza, pois o que a diferenciará será exatamente a sua postura frente aos tais “padrões”, não sofrer para acompanha-los, não tornar-se obsessiva por eles, pois cada uma de nós tem o seu próprio “que” individual que nos faz destinguir uma das outras, já que cada ser é único, não existe ninguém igual a ninguém, existem apenas pessoas querendo tornar-se o que não são e insatisfeitas porque não conseguirão essa meta, exatamente porque cada uma de nós somos - ÚNICAS!
As mulheres de hoje pensam que andam livre e mal sabem o quanto refém estão da imagem que necessitam exibir como realização do belo. Escravas da beleza e protagonistas de novos modelos e exigências que elas mesmas submetem-se sem saber a razão, e enquanto isso não pensam, não expõem idéias, ajudam a propagar o mundo do “eu quero” distanciando-se do mundo do “eu sinto”.
As mulheres andam levando a sério e para outros caminhos a frase do “poetinha camarada” – Vinícius de Moraes – “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”.
Vivemos o tempo das revistas como “Caras”, “Quem”, e todas as suas derivações… vivemos o tempo de tudo que vai sendo ditado pela moda, pelo o jet set que anda ditando padrões de beleza e consumismo, pelos rostos novos que surgem e que como relâmpago desaparecem. O tempo é de muito brilho e holofotes, e quem não o acompanha parece ficar para trás, talvez como alienígena do seu próprio tempo, mas que tempo é esse que nos mantém sempre na ansia de acompanha-lo? Que mulheres são essas, quase clones umas das outras, a perder seu estilo próprio em prol de um padrão de beleza ? Que mundo é esse que nos empurra para frente enquanto damos tantos passos para trás?
O que será de nós, mulheres? Quem somos nós hoje?
Vale uma reflexão!
p.s.: Desculpe-me pela ausência no blog, mas o acúmulo de trabalho e as aulas para ministrar me deixaram fora do ar por esse tempo – estou de volta!
A Liberdade
Junho 25, 2008

A Liberdade
De quem está preso à vontade,
De alguém que perdeu a dignidade,
ou espera pela sua verdade.
A Liberdade
Pode ser uma eternidade
Num segundo, num minuto,
num momento derradeiro
que escapa com intensidade
A Liberdade
O que é esta palavra?
Ócio? Preguiça? Leviandade?
Para dizer a verdade,
Nem eu sei o que pensar.
Muitos vivem sem ela,
Outros nem nunca ouviram falar.
Poucos têm e não aproveitam
Outros procuram e hão-de achar.
A Liberdade
Eu tenha-a no pensamento
e invento formas de estar,
sem ela se tenho medo,
com ela para arriscar.
A Liberdade
Para escrever o que quiser
Sem me preocupar,
com análises estudiosas,
com as rimas emparelhadas,
com estrofes milagrosas,
com críticos sapientes.
Apenas, porque a liberdade
é aquilo que eu quiser,
sem nada para me ditar,
regras, normas em questão.
Escrever porque tenho vontade,
e se me dão permissão…
mostro aqui o que faço,
não aguardo opinião,
mas se quiserem, porque não?
Os Padrões Sociais…
Junho 3, 2008

A vida é vista no cinema. Encantador o papel que um filme pode ter em nossas vidas, nos faz pensar, repensar, mergulhar com os nossos “botões”, criticar em nossa mente, aceitar, transporta-nos para aquela vida que nos é apresentada a sacudir algo em nós. É o que acontece comigo e, acredito eu, com muitas das pessoas que conheço, que também dizem sair do cinema assim, digamos com aquela vontade de filosofar sobre a vida consigo mesmas ou com o outro, ou de quem sabe tentar entendê-la ou melhor vivê-la…
Dessa vez ainda não lhes vou revelar o nome do filme que me traz aqui a escrever por esse tema, até porque, com a correria típica da segunda-feira, quase não conseguia chegar a tempo de trazer algo para o nosso blog, mas é certo que o tal filme me trouxe um tema vasto – Padrões Socias, aqueles esperados senão por todos, mas pela maioria da sociedade.
Será que a maioria das pessoas, como eu, questiona até onde são livres? Será que somos livres? Apesar de sabermos que temos o livre arbítrio para decidir sobre tudo aquilo que queremos fazer, acredito que nem sempre ele atua livre para o nosso desejo, porque vivemos em um mundo onde é necessário obedecer às regras, os padrões sociais que surgiram sabe-se lá a partir de quando e parecem terem sido criados para domar a liberdade do homem e muitas vezes frustra-lo pelas eminentes diferenças.
Somos submissos aos padrões sociais?
A sociedade espera que todos tenham filhos, constituam famílias, comprem a sua primeira casa e quem sabe acumulem o seu primeiro milhão. E se o indivíduo for feliz optando por não ter uma família, e se o casal não quiser filhos? Tudo isso pode ser muito bom, pode ser necessário para muitos dos humanos, mas não para todos – já pensaram nisso? Já pensaram numa publicidade que não mostra a família feliz ao redor da mesa a descobrir a margarina perfeita e ao invés disso anuncia um quarentão feliz, sozinho, tomando o seu café da manhã com um pão quentinho repleto da tal margarina, lendo o seu jornal na mesma mesa? Será que a apelação do padrão resiste a isso? rss
E se o casal padrão por acaso resolver tirar férias em separado? Talvez cada qual resolva aproveitar ao menos uma, dentre tantas férias que já tiveram juntos, para acompanhar um grande amigo ou amiga que há muito recorre aquela proposta de uma viagem cúmplice apenas entre amigos.
E se a aquela mulher resolve sair para dançar sozinha? E se aquele homem, num domingo qualquer, resolve ir ao cinema sozinho? E se um “senhor” ou “senhora”, acima dos 40 e poucos resolve mostrar as suas habilidades numa pista de dança? Será que tudo isso chegará a sociedade beirando o ridículo?
Aos 30 anos todos já devem ter uma família constituída, uma posição profissional de destaque, uma relação marital sólida e, talvez, dois lindos filhos concebidos? Eu sou eu e minhas necessidades? Ou eu sou eu, as minhas necessidades e aquelas que todos esperam que sejam as minhas necessidades?
As vezes nos surge o renascer para um novo desejo, o da identidade de nós mesmo, e nesse ciclo surge-nos o desejo de corresponder à imagem do “homem de bem” e da “mulher de bem”, aquelas imagens criadas na nossa sociedade, para que a rejeição não ocorra, e nasce junto aquele medo de não ser como os outros, o medo de não parecer de acordo com o que é considerado “bem” dentro dos padrões sociais esperados e essa apelação em nós em tão forte.
O medo da rejeição pelo grupo, do ostracismo, da rejeição da sociedade por não seguir aquele padrão social esperarado, e surge o nosso conflito maior, pois muitas das vezes o homem se vê impelido á uma ação que não é propriamente a que queria, mas aquela que todos esperavam dele.
Hoje, para completar as idéias que me surgiram quanto ao padrão social um amigo telefonou, contou-me do seu conflito ao decidir que vai separar e confessou que casou para cumprir um padrão social, quando a chegada dos 30 era iminente e com ela as cobranças de todos: família, amigos, todos esperavam dele o padrão do “homem de bem” e ele seguiu exatamente o padrão, casou-se com o padrão, mas não com a mulher que amava, atendeu o clamor social e seguiu o roteiro esperado, agora a separação é o caminho a ser perseguido, a condução para a libertação daquilo que ele não desejou á época, mas o padrão foi cumprido.
De todo modo, mais uma vez ele disse: “sabe, até que não estou tão fora do padrão, pois agora a sociedade também anda a espera que o casamento não dê certo e as pessoas se separem” Será que com essa nova idéia estamos a construir um novo padrão social? Ainda disse-me ele: “serei eu o antônimo do padrão do bem ou a versão moderna de um antigo padrão social? rss”
De minha parte, continuarei a pensar sobre isso, quem sabe descobrir quais os padrões socias que almejo, sim, porque não estou aqui a dizer que eles nos sejam apenas daninhos – não! O que estou aqui a pôr em reflexão é o quanto a escravidão pelos padrões sociais pode ser negativa para um vida, pois se o roteiro da vida não seguir o padrão, homens e mulheres, todos terão mais uma razão para frustrar-se.
Nunca é tarde para descobrir qual é mesmo aquela escolha que estamos perseguindo, afinal, não há uma vida para ensaiar e outro para viver, há a vida de agora, aquela que clama por ser vivida.
Abaixo o padrão social! Será? Seremos mais livres assim? Seremos mais felizes? E se não, e se tudo que quisermos for mesmo seguir ou experimentar um padrão social? Se for isso – ótimo, ao menos a resposta terá sido encontrada, se não for, descobriremos em nós qual o próprio padrão, aquele que nos conduzirá por uma vida bem vivida…
A propósito, em breve virei aqui a revelar o filme que me deixou um par de horas a pensar no tal padrão social, acho que devo dividir isso com vocês – aguardem! rs
Fora de horas
Maio 28, 2008
Ia eu fora de horas, como sempre, numa estrada que ultimamente frequento muito, ali para o lado de Santa Maria da Feira.
A chuva não parava de cair, impiedosa, persistente, chata, imprópria de um mês de Maio. Aquela chuva que chateia, mas não larga, não pára. O piso fica perigoso, os pneus fazem aquele estilhaçar próprio da areia e das pedrinhas que cobrem a calçada.
Junto a uma quinta de traça antiga, meia abandonada, desconsertada e de ar agoirento. Tem do lado esquerdo uma vasta mata que se acentua num decline. No outro lado da estrada, em direcção a norte, o arvoredo continua até ao cume de uma pequena colina.
Ali só há estrada, as margens são valas cheias de lama.
Só o luar ilumina aquele espaço, onde as árvores de grande copa se tocam nos extremos, como se entrelaçassem as mãos à nossa passagem.
Ali perdida e perto dos muros de betão que homem criou, e, por vezes, devasta os habitats naturais.
Mesmo ao alcance de um passo, numa curva apertada, diante dos meus olhos surge uma raposa. Primeiro pensei que fosse um cão assustado, mas depois um olhar mais atento por entre as sombras do chão não deixaram dúvidas. Apavorada, como só a presença humana é capaz de o fazer.
Parou no meio da estrada encandeada pelos faróis, desliguei as luzes rapidamente antes que outro carro avançasse. Sorrateira como uma raposa, corre pinhal abaixo. Eu permaneci quieta, sem fazer o mínimo barulho.
A janela aberta deixou-me ouvir os galhos que se partem e o ruído das folhas secas à sua passagem.
Aquela casa de quinta semi destruída guarda o último reduto de uma reserva natural, que em breve dará lugar a mais uns metros quadrados de betão com aquecimento, jacuzzi e aspiração central.
A raposa*, essa, terá que procurar um novo espaço ou ficar com o que lhe resta.
*Normalmente a raposa vive em grupos, formados por um macho adulto e várias fêmeas.
Em Portugal, esta espécie pode ser caçada sem qualquer restrição durante o período estipulado. Não é favorecida com nenhuma protecção legal. A caça à raposa já foi proibida na Inglaterra por ser considerada cruel, e, Portugal, para variar, nada é feito a favor do bem-estar animal.
Saliento que “a sua carne não tem qualquer aproveitamento, esta caça serve apenas como troféu para o caçador”.
Mórbido, não é?
Ate quarta….pensem nisto!
O caso das águas com gás
Maio 27, 2008
Interrompemos a emissão para dar conta das últimas evoluções no caso que tem escandalizado o país, já conhecido como o “Caso das águas com gás”.
Já foi conhecido o acórdão do tribunal no processo instaurado a Joaquim Sousa, empregado de mesa de Viseu, que na passada sexta-feira terá inadvertidamente servido uma garrafa de água com gás fresca a Cristiano Ronaldo, quando o pedido da jovem estrela do futebol português terá sido por uma garrafa de água com gás, mas natural.
O colectivo de juízes decidiu, tal como esperado por toda a comunidade, pela irradiação de Joaquim Sousa de qualquer actividade hoteleira, e por um pedido de desculpas formal a Cristiano Ronaldo, e a toda a população, em data e horário a anúnciar.
Em sua defesa, Joaquim Sousa apenas alegou ter ficado nervoso com a presença dos seus ídolos, o que o levou a baralhar o pedido e à consequente “indesculpável asneira”. Acrescentou ainda que por pouco não serviu um Compal de alperce a Ricardo Quaresma, mas como viu que o treinador estava sentado ao lado dele, resolveu verificar o pedido, não fosse aquele acto ser considerado uma agressão. “Tivesse eu feito o mesmo com as águas”, declarou por fim, quase em lágrimas.
A pena, por muitos considerada de leve, foi atenuada pela intervenção do médico da selecção que afirmou que “como o Cristiano ainda não tinha começado a comer, a probabilidade de uma congestão era muito baixa”. No entanto, Carlos Nobre, especialista mundial em gás, contactado pelo nosso órgão de informação, contraria este ponto de vista, indo ao ponto de afirmar que o médico da selecção ou não percebe nada sobre o efeito das águas com gás frescas, ou então se encontra em clara conivência com Joaquim Sousa.
Alheio a todo este facto, e de perfeita saúde, Cristiano Ronaldo prefere manter-se afastado das câmaras, apenas comentando em mais uma das suas sessões de autógrafos “penso que a opinião pública e os juízes saberão como tratar este caso que pôs em risco a saúde do melhor jogador do mundo”.
Uma multidão enraivecida esperava a saída de Joaquim Sousa do tribunal, pelo que foi necessária uma escolta de polícias para o retirar. Neste momento, Joaquim Sousa espera na sua residência pela intimação para o pedido de desculpas, coisa que deverá acontecer nos próximos dias.
E por agora é tudo. Não perca daqui a pouco a saída da selecção para o habitual banho de Sol. Que óculos levarão? Que protector? Calção ou fato de treino? Estas e outras respostas, já a seguir.

