Nesse mês de JULHO parece que houve um tema da vez, abordado por algumas revistas,  e mesmo que em prismas diferentes, a meu ver trouxe contribuições interessantes para uma reflexão, e eu, como leitora das revistas - “Vida Simples” e “Super Interessante”, resolvi fazer uma livre associação entre as matérias que me chamaram atenção e peço licença para assim o fazer, diante mão desculpem-me caso as minhas ideias não coadunem com as vossas, mas cada um é livre no seu associar.

A começar pela matéria que me chamou atenção na revista “Vida Simples” o tema clama: “Você não é perfeito. Por que desejamos (e raramente conseguimos) ter um corpo irretocável, um casamento de novela e um emprego de sonhos? A resposta pode estar na forma como nos relacionamos com o mundo à nossa volta”.

Nessa minha livre associação de temas, li a revista “Super Interessante” que touxe o seguinte título : “Terapia Funciona?”. Pensei na relação que um tema, efetivamente, tem com o outro, pensei nesses nossos tempos apressados, esse em que o eficientismo absorve a pessoa. A pessoa que só conta enquanto gera lucro e oferece vantagem.Talvez daí a grande necessidade dos nossos tempos em buscar na terapia um modo de cura para as anomalias da vida moderna, das ansiedades criadas pelos nossos desejos de conseguir isso ou aquilo, de ter sucesso frente a nós mesmo e ao outro. São as lacunas que vão eclodindo dentro de cada um e que nos faz cair num grande abismo, que muitas vezes não cuidado, não falado, não resolvido, pode trazer enorme estrago para a vida.

Na matéria da revista “Vida Simples” há uma abordagem muito interessante, trazida pelo educador Rubem Alves que indaga: como nasce a percepção dos nossos defeitos e limitações e o desejo de querer ser e ter mais? No prisma do olharmos para o outro, o educador vê na comparação um exercício dos olhos: “Vejo-me; estou feliz. Vejo o outro. Vejo-me nos olhos do outro. Ele tem mais do que eu. Ele é mais do que eu. Vendo-me nos olhos dos outros eu me sinto humilhado. Tenho menos. Sou menos. Ele mesmo só descobriu que era pobre quando deixou o interior de Minas para morar no Rio e foi parar num colégio de cariocas ricos. Então começou a se sentir diferente, falava com sotaque caipira, não pertencia ao mundo elegante dos colegas, sentiu vergonha da sua pobreza.”.

Bem, é para descobrir essas respostas, ou ao menos chegar num caminho mais próximo de as tê-las que a terapia é uma necessidade que surge como algo emergente dos nossos novos tempos, e com ela o encontro da escuta como um espaço de acolhida, como santuário silencioso e eloqüente. A escuta: uma terapia de cura do espírito e também do corpo!  Ansiosos por encontrar um respaldo para a própria vida acompanha o homem a constante preocupação do bem-estar, a preocupação da cura, a preocupação das doenças.

Diante da terapia o que nos cabe notar é que Freud inaugurou novos tempos: o tempo da palavra como forma de acesso por parte do homem ao desconhecido em si mesmo e o tempo da escuta que ressalta a singularidade de sentidos da palavra enunciada. Ocupou-se, em suas produções teóricas e em seu trabalho clínico, de palavras que desvelam e velam; que produzem primeiro descargas e depois associações. Palavras que evidenciam a existência de um outro-interno, mas que também proporcionam vias de contato com um outro-externo quando qualificado na sua escuta.

Esses tempos em Freud inauguram a singularidade de uma situação de comunicação entre paciente e analista. Um chega com palavras que demandam um desejo de ser compreendido em sua dor, o outro escuta as palavras por ver nestas as vias de acesso ao desconhecido que habita o paciente. A situação analítica é, por excelência, uma situação de comunicação: nela circulam demandas nem sempre lógicas ou de fácil deciframento, mas as quais, em seu cerne, comunicam o desejo e a necessidade de serem escutadas.

A capacidade de ir além da ciência de sua época está intimamente ligada à possibilidade de Freud de buscar nas palavras de seus pacientes e em suas próprias – mais do que padrões de adaptação à moral e costumes vigentes – uma fala atravessada pelo inconsciente e pela sexualidade: mensagens cifradas e enigmáticas que demandaram outra qualidade de escuta para serem compreendidas.

Ao se deparar com o sofrimento histérico, Freud põe-se a escutar um corpo que fala; nos sonhos descobre a capacidade dos elementos se condensarem e se deslocarem, criando uma outra cena; nos lapsos percebe a expressão de algo, via uma inesperada inabilidade na execução de atos ou falas até então exitosas. Ao dar cada vez mais espaço para o que escutava de forma diferente, no contato com seus pacientes, Freud pôde construir “tanto um novo ramo do conhecimento quanto um método terapêutico”.

A psicanálise surge e se desenvolve na escuta. A partir da escuta singular à qual se propõe fica a indagação que insiste e não cala: “A terapia funciona?”  A meu ver não resta dúvida que SIM, que falar é um método de crescer, é o escutar a si mesmo, e quando muitas vezes trazemos à tona o que sozinhos não conseguimos perceber.

Curar é outra face da evolução, que certamente pode ser confirmada, por exemplo, com a cura de pacientes com síndrome de pânico, mas a caminhada em si mesma já é o grande convite feito pela terapia, seja qual o método utilizado, o clássico – psicanalise ou os mais modernos, apontados como existintes em mais de 400 modelos para quem os procura e o alerta  importante não é o tipo de tratamento, mas a vontade do paciente em amadurecer, associado com a habilidade do terapeuta e da relação que será estabelecida entre ambos.

Fica aqui a minha pequena contribuição para a sua semana, a minha associação de temas para aqueles que gostam de divagar no pensamento. Quem sabe pensar como andamos a nos relacionar com o mundo a nossa volta e quais as necessidades que, naturalmente, temos, e quais aquelas que são criadas por nós, apenas por sermos frutos massificados do meio. O mundo não é todo o tempo cor de rosa para mim e nem para você, mas certamente também não o é para a moça e o moço da capa da revista de semblante sempre feliz e ar moderno.

Boa semana para todos!!!

“Travessia é tudo que existe” (Guimarães Rosa)

 

Lei seca no Brasil

Julho 7, 2008

O Brasil é um país marcado por exageros, isso muitas pessoas já sabem, sejam elas brasileiras ou não, mas por vezes esses excessos chegam assim, repentinamente, com ares de moralidade, e foi o que aconteceu na sexta-feira do dia 20 de junho, quando foi publicada no Diário Oficial da União a Lei nº 11.705, que altera o Código de Trânsito Brasileito, e trata, entre outras questões, do consumo de bebida alcoólica por condutor de veículo.

Antes, era permitida a ingestão de até 0,6 gramas de álcool por litro de sangue (o equivalente a dois copos de cerveja) e com a nova Lei  haverá tolerância até 0,3 grama de álcool. Segundo a referida Lei o condutor que for flagrado dirigindo sob a influência de álcool ou de qualquer substância psicoativa terá a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) suspensa por doze meses, além de ser compelido ao pagamento da multa de R$ 957,70, mais a retenção do veículo até a apresentação de condutor habilitado e o recolhimento do documento de habilitação.

O que a nova lei atesta, sem dúvida, é incompetência das autoridades brasileiras, que não são capazes de punir aqueles que consomem álcool de forma excessiva e conduzem na direção perigosa, e resolvem intimidar a todos agindo indiscriminadamente. Numa mesma condição estão: seja aquele que comeu um chocolate recheado com licor, seja aquele que ingeriu vários copos de cerveja. Diante de toda a confusão que a nova lei vem causando, o certo é que, mais uma vez, estamos a frentar a típica “indústria da multa de trânsito” no Brasil, que pretende arrecadar só neste ano oitenta milhões de reais, segundo declarações já prestadas pelos departamentos de trânsito no país.

Educar no Brasil só de modo autoriário e compulsório, pois esse parece ser o único jeito que o brasileiro aprende a respeitar uma lei e o descaso histórico com as nossas leis torna o Brasil a “bagunça” que insiste em ser. Nos demais países as leis funcionam porque existe fiscalização e punição efetiva para quem não as cumpre, o que exatamente nos falta aqui, pois as leis no Brasil são muito bem escritas, perfeitamente compassadas, muitas delas exemplo para outros povos, como o nosso Código de Defesa do Consumidor, mas a grave questão é a sua aplicabilidade.

Nos Estados Unidos, a lei permite o consumo de até oito decigramas de álcool por litro de sangue. As penalidades, no entanto, variam. Na Califórnia, por exemplo, a carteira de motorista é suspensa para menores de 21 anos. No Mississsippi, se o motorista se recusar a fazer o teste ao ser parado, sua permissão é invalidada por 90 dias. Os ingleses também tem o mesmo limite de álcool permitido nos EUA: oito decigramas de álcool, mas as conseqüencias são diferentes, pois caso o motorista seja pego bêbado,  enfrentará, no mínimo, uma acusação formal, a suspensão da licença por um ano e seu nome numa ficha criminal e a depender do grau de bebida e dos danos causados, o autuado pode ter que pagar multa de até 5 mil libras (cerca de R$ 16 mil) e ficar mais seis meses na prisão. Assim, constatamos que a maioria dos países da União Européia, assim como os Estados Unidos e Canadá, tem uma legislação mais flexível em relação ao tema.

 

No mais, a grande polêmica da nova lei que os penalistas estão a debater no momento, constitucionalmente falando, é que: “Ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo”. A lei desrespeita também os princípios de Razoabilidade, Proporcionalidade, Individualização e Isonomia, previstos na Constituição Federal. Devido à polêmica, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) já intentou ação de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (STF) contra a nova lei, em vigor há duas semanas. A Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo também planeja questionar a legislação.

 

Assim, o motorista pode se negar a fazer o teste do bafômetro ou de sangue, para identificar a presença de álcool no organismo, que não será preso e o prório Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), declarou em nota, que nenhum condutor é obrigado a se submeter aos exames para a aplicação da nova lei de tolerância zero ao álcool no trânsito, e assim o policial só poderá punir o motorista que estiver visivelmente embriagado, e assim aplicar-lhe a multa de R$ 955 e apreender a sua carteira de habilitação por um ano, em caso de acidente.

 

 No caso de não haver acidente e diante da recusa do condutor de fazer o exame no etilômetro, não há como comprovar índice superior a 0,3 mg de álcool por litro de ar expelido, suficiente para levar o infrator à prisão. Só são obrigados a fazer o teste de alcoolemia no Instituto Médico-Legal motoristas que se envolveram em acidente.

Na hipótese do condutor se recusar a realizar os exames, o agente de trânsito poderá identificar a infração por meio dos notórios sinais de embriaguez, excitação ou torpor apresentados pelo condutor. Nesse caso serão aplicadas ao motorista as sanções administrativas previstas no artigo 165 do CTB.  

Não sabemos até o momento como será resolvida toda a polêmica que a nova Lei vem causando no país, mas algo fica claro em tudo isso: necessitamos primeiro radicalizar para depois aprender a organizar, mas acima de tudo o que o Brasil precisa mesmo é  mudar a mentalidade do seu povo, e essa sim - tarefa mais árdua que temos por aqui! 

Até a próxima semana!

 

 

 

De volta ao nosso blog depois dessas duas semanas de férias, retorno aproveitando para cumprir a promessa feita quanto a revelação do filme, fruto da inspiração que me levou ao tema dos “Padrões Sociais”. Trata-se do filme sueco, que aqui no Brasil levou o título “A vida começa aos 40”, cujo título original é “Schwedisch für Fortgeschrittene”, ou aindaHeartbreak Hotel”.

Bem, vindo da Suécia o diretor Colin Nutley pode ser visto como um diretor de inusitada caminhada, pois firma-se como um dos mais importantes realizadores contemporâneos do país escandinavo mesmo sem falar sueco fluente, pois é um britânico radicado na Suécia. Há ainda uma curiosidade maior na técnica adotada por Nutlley, um método de trabalho simples, no qual o elenco só tem conhecimento sobre como será a cena três minutos antes da mesma ser rodada, quando o diretor discute com o elenco como seria a reação deles àquela situação na vida real e todo o restante vai por conta dos atores. Assim, vale observar através desse filme quais são os pontos positivos e negativos do tal método.

No mais, o dito é que Nutley já foi procurado por Hollywood, mas até o momento tem resistido a “venda da sua alma”, já que seu gosto é mesmo  trabalhar na Suécia e fazer os filmes a seu modo, tão peculiar, com pouco de roteiro e muito de improviso e que, a meu ver, faz uma boa diferença quanto ao que estamos mais acostumados a ver nos cinemas.

Gosto, particularmente, desse improviso, que nesse filme, nos rende muitas gargalhadas. Divirtam-se vocês também, não deixem de assistir ao improviso sueco, se assim podemos dizer, que, acredito eu, os levará a pensar nos tais padrões sociais e cada um terá o seu – ponto de vista! Vale a reflexão divertida e emergente, mas valem ainda mais as risadas inesperadas. O filme é, sobretudo, muito divertido!

A estória centra-se numa médica ginecologista  - Elisabeth Staf, que indo ao casamento do filho, como se fosse um batizado enfadonho e meramente obrigatório, estaciona o carro as pressas em um local proibido e segue em direção à igreja, mas a pressa não a impede de argumentar com a fiscal de trânsito – Gudrun. para evitar a multa, mas o seu vocabulário com fiscal transforma-se num bate-boca com direito a tapa e xingamentos, e é assim as protagonistas do filme são logo de início apresentadas.

O encontro dessas duas personagens, Elizabeth – a médica, e Gudrun – fiscal de trânsito, que, na verdade, aparentam bem mais que 40 anos, não termina por aí. As duas, de personalidades opostas, se encontram novamente numa consulta ginecológica, situação ainda mais inusitada, que proporciona muitos risos no cinema, e a partir daí a desavença inicial será esquecida em prol de uma amizade avassaladora, totalmente irresistível, do tipo que não acontece muitas vezes, ainda mais para duas mulheres acima dos 40 anos, numa cidade fria como a Suécia. Além da idade, as personagens descobrem muitas coisas em comum, e tudo isso é revelado na animada pista de dança do  Heartbreak Hotel, discoteca que passam a frequentar juntas dissipando a solidão das geladas noites suecas.

O tema não necessita de desenvolvimento mais profundo, pois os diálogos e situações em que as duas se metem mostra com clareza qual a proposta do filme, e vale questionar o padrão social que as duas estão a romper. Vale observar o que seria o nosso conceito do permissível naquela idade e do desejoso, sem que haja uma necesidade de julgamento interno ou permissão para tanto. Fico com a felicidade! Em prol desta, presumo que vale tudo, e o que os outros vão pensar, isso parece sem importância tamanha a grandiosidade do sentimento em questão – a vida clama por ser vivida e para ela não há idade!

Agora corram para assistir e acredito que terão direito a boas risadas!

A Liberdade

Junho 25, 2008

 

 A Liberdade

De quem está preso à vontade,

De alguém que perdeu a dignidade,

ou espera pela sua verdade.

 

A Liberdade

 

Pode ser uma eternidade

Num segundo, num minuto,

num momento derradeiro

que escapa com intensidade

 

A Liberdade

 

O que é esta palavra?

Ócio? Preguiça? Leviandade?

Para dizer a verdade,

Nem eu sei o que pensar.

Muitos vivem sem ela,

Outros nem nunca ouviram falar.

Poucos têm e não aproveitam

Outros procuram e hão-de achar.

 

A Liberdade

 

Eu tenha-a no pensamento

e invento formas de estar,

sem ela se tenho medo,

com ela para arriscar.

 

A Liberdade

 

Para escrever o que quiser

Sem me preocupar,

com análises estudiosas,

com as rimas emparelhadas,

com estrofes milagrosas,

com críticos sapientes.

Apenas, porque a liberdade

é aquilo que eu quiser,

sem nada para me ditar,

regras, normas em questão.

Escrever porque tenho vontade,

e se me dão permissão…

mostro aqui  o que faço,

não aguardo opinião,

mas se quiserem, porque não?

 

 

Feira do livro

Junho 12, 2008

Interrompemos a emissão para o convidar a passar no próximo Sábado, dia 14 de Junho, na feira do livro em Lisboa para um sessão de autógrafos com os autores do livro. A sessão terá lugar às 17:00 no pavilhão n.º 121 da Contra Margem.

Um pouco de poesia…

Junho 8, 2008

 

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O TEMPO

Ah o tempo!

O tempo, maior aliado e escudo do meu momento,a intersecção que corta tudo, as velas que se atiro ao vento. Sigo sem pressa no meu vão momento…

Ah o tempo!

Me perco e me busco no meu próprio contentamento.
Os receios impediram e paralisaram muito do meu
tempo, mas no instante o reencontro no meu novo momento…

Ah o tempo!

Senhor dos senhores, muitas vezes traz de novo tudo aquilo que quase já não me lembro, promessa de um novo caminhar. Cicatriza tudo, como unguento refaz tudo de novo…

Ah o tempo!

Agora o tempo revela o quanto mais posso ser do
meu novo saber, do meu novo mundo, aquele que me faz encontrar aqui, agora, parte do meu TEMPO em um novo e sagaz momento…

Ah o tempo!

Anunciador de boas novas, que varre o velho e traz o novo com promessa e anunciação de novidade…o tempo lúcido, o tempo real, o tempo que não conto, que não contamos, o tempo que perde-se por momentos, é o tempo sempre a contar a favor…

Ah o tempo!

E passam os segundos, os minutos, as horas, nada será igual, nada será parecido com o que já foi, a leitura do tempo não poderemos fazer, não poderemos contar, mas uma coisa é teremos sempre como certo, em fração de segundos tudo será passado e a vida trará mais um novo momento…

Ah o tempo!

 

Os Padrões Sociais…

Junho 3, 2008

A vida é vista no cinema. Encantador o papel que um filme pode ter em nossas vidas, nos faz pensar, repensar, mergulhar com os nossos “botões”, criticar em nossa mente, aceitar, transporta-nos para aquela vida que nos é apresentada a sacudir algo em nós. É o que acontece comigo e, acredito eu, com muitas das pessoas que conheço, que também dizem sair do cinema assim, digamos com aquela vontade de filosofar sobre a vida consigo mesmas ou com o outro, ou de quem sabe tentar entendê-la ou melhor vivê-la…

Dessa vez ainda não lhes vou revelar o nome do filme que me traz aqui a escrever por esse tema, até porque, com a correria típica da segunda-feira, quase não conseguia chegar a tempo de trazer algo para o nosso blog, mas é certo que o tal filme me trouxe um tema vasto Padrões Socias, aqueles esperados senão por todos, mas pela maioria da sociedade.

Será que a maioria das pessoas, como eu, questiona até onde são livres? Será que somos livres? Apesar de sabermos que temos o livre arbítrio para decidir sobre tudo aquilo que queremos fazer, acredito que nem sempre ele atua livre para o nosso desejo, porque vivemos em um mundo onde é necessário obedecer às regras, os padrões sociais que surgiram sabe-se lá a partir de quando e parecem terem sido criados para domar a liberdade do homem e muitas vezes frustra-lo pelas eminentes diferenças.

Somos submissos aos padrões sociais?

A sociedade espera que todos tenham filhos, constituam famílias, comprem a sua primeira casa e quem sabe acumulem o seu primeiro milhão. E se o indivíduo for feliz optando por não ter uma família, e se o casal não quiser filhos? Tudo isso pode ser muito bom, pode ser necessário para muitos dos humanos, mas não para todos - já pensaram nisso? Já pensaram numa publicidade que não mostra a família feliz ao redor da mesa a descobrir a margarina perfeita e ao invés disso anuncia um quarentão feliz, sozinho, tomando o seu café da manhã com um pão quentinho repleto da tal margarina, lendo o seu jornal na mesma mesa? Será que a apelação do padrão resiste a isso? rss

E se o casal padrão por acaso resolver tirar férias em separado? Talvez cada qual resolva aproveitar ao menos uma, dentre tantas férias que já tiveram juntos, para acompanhar um grande amigo ou amiga que há muito recorre aquela proposta de uma viagem cúmplice apenas entre amigos. 

E se a aquela mulher resolve sair para dançar sozinha?  E se aquele homem, num domingo qualquer, resolve ir ao cinema sozinho? E se um “senhor” ou “senhora”, acima dos 40 e poucos resolve mostrar as suas habilidades numa pista de dança? Será que tudo isso chegará a sociedade beirando o ridículo?

Aos 30 anos todos já devem ter uma família constituída, uma posição profissional de destaque, uma relação marital sólida e, talvez, dois lindos filhos concebidos?  Eu sou eu e minhas necessidades? Ou eu sou eu, as minhas necessidades e aquelas que todos esperam que sejam as minhas necessidades?

As vezes nos surge o renascer para um novo desejo, o da identidade de nós  mesmo, e nesse ciclo surge-nos o desejo de corresponder à imagem do “homem de bem” e da “mulher de bem”, aquelas imagens criadas na nossa sociedade, para que a rejeição não ocorra, e nasce junto aquele medo de não ser como os outros, o medo de não parecer de acordo com o que é considerado “bem” dentro dos padrões sociais esperados e essa apelação em nós em tão forte.

O medo da rejeição pelo grupo, do ostracismo,  da rejeição da sociedade por não seguir aquele padrão social esperarado, e surge o nosso conflito maior, pois muitas das vezes o homem se vê impelido á uma ação que não é propriamente a que queria, mas aquela que todos esperavam dele.

Hoje, para completar as idéias que me surgiram quanto ao padrão social  um amigo telefonou, contou-me do seu conflito ao decidir que vai separar e confessou que casou para cumprir um padrão social, quando a chegada dos 30 era iminente e com ela as cobranças de todos: família, amigos, todos esperavam dele o padrão do “homem de bem” e ele seguiu exatamente o padrão, casou-se com o padrão, mas não com a mulher que amava, atendeu o clamor social e seguiu o roteiro esperado, agora a separação é o caminho a ser perseguido, a condução  para a libertação daquilo que ele não desejou á época, mas o padrão foi cumprido.

De todo modo, mais uma vez ele disse: “sabe, até que não estou tão fora do padrão, pois agora a sociedade também anda a espera que o casamento não dê certo e as pessoas se separem” Será que com essa nova idéia estamos a construir um novo padrão social? Ainda disse-me ele: “serei eu o antônimo do padrão do bem ou a versão moderna de um antigo padrão social? rss”

De minha parte, continuarei a pensar sobre isso, quem sabe descobrir quais os padrões socias que almejo, sim, porque não estou aqui a dizer que eles nos sejam apenas daninhos - não! O que estou aqui a pôr em reflexão é o quanto a escravidão pelos padrões sociais pode ser negativa para um vida, pois se o roteiro da vida não seguir o padrão, homens e mulheres, todos terão mais uma razão para frustrar-se.

Nunca é tarde para descobrir qual é mesmo aquela escolha que estamos perseguindo, afinal, não há uma vida para ensaiar e outro para viver, há a vida de agora, aquela que clama por ser vivida.

Abaixo o padrão social! Será? Seremos mais livres assim? Seremos mais felizes? E se não, e se tudo que quisermos for mesmo seguir ou experimentar um padrão social? Se for isso - ótimo, ao menos a resposta terá sido encontrada, se não for, descobriremos em nós qual o próprio padrão, aquele que nos conduzirá por uma vida bem vivida…

A propósito, em breve virei aqui a revelar o filme que me deixou um par de horas a pensar no tal padrão social, acho que devo dividir isso com vocês - aguardem! rs :)

 

 

 

Fora de horas

Maio 28, 2008

 

 Ia eu fora de horas, como sempre, numa estrada que ultimamente frequento muito, ali para o lado de Santa Maria da Feira.

A chuva não parava de cair, impiedosa, persistente, chata, imprópria de um mês de Maio. Aquela chuva que chateia, mas não larga, não pára. O piso fica perigoso, os pneus fazem aquele estilhaçar próprio da areia e das pedrinhas que cobrem a calçada.  

 

Junto a uma quinta de traça antiga, meia abandonada, desconsertada e de ar agoirento. Tem do lado esquerdo uma vasta mata que se acentua num decline. No outro lado da estrada, em direcção a norte, o arvoredo continua até ao cume de uma pequena colina.

 

Ali só há estrada, as margens são valas cheias de lama.    

 Só o luar ilumina aquele espaço, onde as árvores de grande copa se tocam nos extremos, como se entrelaçassem as mãos à nossa passagem.

Ali perdida e perto dos muros de betão que homem criou, e,  por vezes, devasta os habitats naturais.

 

 Mesmo ao alcance de um passo, numa curva apertada, diante dos meus olhos surge uma raposa. Primeiro pensei que fosse um cão assustado, mas depois um olhar mais atento por entre as sombras do chão não deixaram dúvidas. Apavorada, como só a presença humana é capaz de o fazer.

 

Parou no meio da estrada encandeada pelos faróis, desliguei as luzes rapidamente antes que outro carro avançasse. Sorrateira como uma raposa, corre pinhal abaixo. Eu permaneci quieta, sem fazer o mínimo barulho.

A janela aberta deixou-me ouvir os galhos que se partem e o ruído das folhas secas à sua passagem.  

Aquela casa de quinta semi destruída guarda o último reduto de uma reserva natural, que em breve dará lugar a mais uns metros quadrados de betão com aquecimento, jacuzzi e aspiração central.

 A raposa*, essa, terá que procurar um novo espaço ou ficar com o que lhe resta.

 

 

*Normalmente a raposa vive em grupos, formados por um macho adulto e várias fêmeas.

Em Portugal, esta espécie pode ser caçada sem qualquer restrição durante o período estipulado. Não é favorecida com nenhuma protecção legal. A caça à raposa já foi proibida na Inglaterra por ser considerada cruel, e, Portugal, para variar, nada é feito a favor do bem-estar animal.

Saliento que “a sua carne não tem qualquer aproveitamento, esta caça serve apenas como troféu para o caçador”.

Mórbido, não é?

Ate quarta….pensem nisto!

Interrompemos a emissão para dar conta das últimas evoluções no caso que tem escandalizado o país, já conhecido como o “Caso das águas com gás”.

Já foi conhecido o acórdão do tribunal no processo instaurado a Joaquim Sousa, empregado de mesa de Viseu, que na passada sexta-feira terá inadvertidamente servido uma garrafa de água com gás fresca a Cristiano Ronaldo, quando o pedido da jovem estrela do futebol português terá sido por uma garrafa de água com gás, mas natural.

O colectivo de juízes decidiu, tal como esperado por toda a comunidade, pela irradiação de Joaquim Sousa de qualquer actividade hoteleira, e por um pedido de desculpas formal a Cristiano Ronaldo, e a toda a população, em data e horário a anúnciar.

Em sua defesa, Joaquim Sousa apenas alegou ter ficado nervoso com a presença dos seus ídolos, o que o levou a baralhar o pedido e à consequente “indesculpável asneira”. Acrescentou ainda que por pouco não serviu um Compal de alperce a Ricardo Quaresma, mas como viu que o treinador estava sentado ao lado dele, resolveu verificar o pedido, não fosse aquele acto ser considerado uma agressão. “Tivesse eu feito o mesmo com as águas”, declarou por fim, quase em lágrimas.

A pena, por muitos considerada de leve, foi atenuada pela intervenção do médico da selecção que afirmou que “como o Cristiano ainda não tinha começado a comer, a probabilidade de uma congestão era muito baixa”. No entanto, Carlos Nobre, especialista mundial em gás, contactado pelo nosso órgão de informação, contraria este ponto de vista, indo ao ponto de afirmar que o médico da selecção ou não percebe nada sobre o efeito das águas com gás frescas, ou então se encontra em clara conivência com Joaquim Sousa.

Alheio a todo este facto, e de perfeita saúde, Cristiano Ronaldo prefere manter-se afastado das câmaras, apenas comentando em mais uma das suas sessões de autógrafos “penso que a opinião pública e os juízes saberão como tratar este caso que pôs em risco a saúde do melhor jogador do mundo”.

Uma multidão enraivecida esperava a saída de Joaquim Sousa do tribunal, pelo que foi necessária uma escolta de polícias para o retirar. Neste momento, Joaquim Sousa espera na sua residência pela intimação para o pedido de desculpas, coisa que deverá acontecer nos próximos dias.

E por agora é tudo. Não perca daqui a pouco a saída da selecção para o habitual banho de Sol. Que óculos levarão? Que protector? Calção ou fato de treino? Estas e outras respostas, já a seguir.

 

Um dos diretores mais festejados da atualidade, Wong Kar-Wai, que vem acontecendo nas estréias esperadas no Festival de Cannes, em “My Blueberry Nights”, no Brasil com o título de “Um Beijo Roubado”, não deixa de seguir a regra, e mesmo não arrebatando os corações dos seus espectadores como em “Felizes Juntos”, “Amor a Flor da Pele” e ainda “2046”, sempre é clara a sua opção pelo amor como tema, em um tom extremamente sensorial, com contrastes marcantes, feitos de sons e cores fortes e realçadas em “My Blueberry Nights” com letras das vitrines de um bar e os reflexos nos capôs de carros, parece a sua versão ocidental do retrô ao modo chinês, no seu primeiro longa falado todo em inglês.

 

Por ser um diretor estrangeiro, sem interferências de Hollywood, traça um verdadeiro balé de imagens, valendo-se ainda da bela trilha sonora do habitual colaborador de Win Wenders, Ry Cooder. O estilo de  Wai é  próprio em audio e movimentos marcados de imagem refuscantes, que nesse filme encontra nas janelas, vidros e nos neons da Grande Maçã um correlato perfeito para sua idéia.

 

Em My Blueberry Nights vemos uma entrega melancólica que nasce de um desamor, no qual a personagem Elizabeth (Norah Jones – que nos prova que é bem melhor continuar na música do que nas telas de cinema) é uma jovem que após o término de um caso de amor, onde ela parece ser a única machucada, procura abrigo onde possa ancorar suas mágoas deixando a chave da casa, que marca o “luto” desse amor no bar de Jeremy (Jude Law), que “coleciona” tantas outras chaves em sigificados diversos como aquela, também é um solitário que recebe a dor abstrata de Elizabeth e desse encontro, em contra-partida, fica um sabor da torta de mirtilo (a ‘blueberry’ do título original) especialidade de Jeremy.  

 

O filme vai percorrendo a trajetória de Elizabeth que pefere sumir pelo mundo, partindo de New York, cujos dias e os milhares de quilomêtros percorridos são marcados pelo filme a fim de retratar a busca de si mesma, aquela que ela julgava perdida com o fim da relação.

 

No elenco, no desenrolar dessa viagem aparecem atores do nível de David Strathairn, Rachel Weisz  e Natalie Portman em interpretações que valem a nossa atenção. Fica claro com o trabalho de  Wai que ele é um cineasta de obsessões e assim, transfere essa paixão aos seus personagens, apresentando tipos incorrigíveis, condenados a amar, e no desenvolver do enredo é assim que Elizabeth aparece, com o seu próprio desamor refletido em estórias de outras pessoas e ela passa a ser mera coadjuvante daqueles quadros pintados por Wai, em dialogos que sugerem possibilidades diversas de visão do seu público.

  

Para alguns pode ser que não estejam diante de um dos grandes filmes do ano, mas a meu ver não é por isso que podemos deixar de conferi-lo,  pois apesar da falta de carisma e talento de Norah Jones, como já dito, que não se comunica com o seu público, vale a doçura do beijo para o final do filme, e se contei muito por aqui, permitam-me, não encontrei outra forma de os fazer perceber que Wong Kar-Wai, apesar de ainda “estreante”, é talentoso e consegue comunicar o tal beijo com pano para muitas interpretações e para quem gosta de uma carga dramática ao amor, na atualidade, ele consegue passar o seu peso…

 

 

Ah, já estava a esquecer de algo, o beijo é o melhor dos sabores que saímos do cinema, e não digam que Wai não conseguiu arrancar um forte desejo na platéia - qual será? rss  Até a próxima segunda, ou quem sabe, antes disso! See you!