O adulto na criança perdida
Outubro 27, 2009
Tomado por um clamor de retorno a criança o adulto saudoso se põe a indagar: como posso retornar ao meu tempo de criança?
Hoje é momento de tempos corridos, tempos materiais, tempo de espera, tempo do compro porque quero, só não sei até quando, mas quero, seja porque o lançamento já foi anunciado na Internet, seja porque o meu vizinho já tem um.
Meu amigo me telefonou ontem avisando “você viu o novo modelo que foi lançado? Já pode consultar na Internet porque tá disponível em primeira mão…” Em tempos de crise, de plena turbulência na economia, bolsas despencando, aquecimento global, o adulto tem muito a almejar – decidir o que comprar e como o seu bolso pode sustentar os tantos brinquedos de luxo que circula no mercado de capitais. Salvamos Karl Marx de viver nesses nossos tempos tão “modernos”!!
Perde-se a prosa de viver, as relações do “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite”, “como tem passado?” – para onde foram todas essas expressões? O tempo vai sendo computado no relógio, as horas vão se perdendo em fração de segundos, me recolho muito após a meia noite e parece que não descansei – nasce-me um novo dia e parece que nem dei por ele!
É possível ser adulto e vibrar desejosamente por coisas e pessoas como uma criança? Não estou tão distante dela. Desejo tantas coisas, quero o que o dinheiro pode comprar nesse momento da apelação visual, olho e não vejo. O que faço para deixar de querer?
Preciso exercitar a minha criança, vamos, vamos lá! Quero o meu ar maroto, quero desejar o sorvete da esquina de tal forma a esquecer o troco.
Quero exercitar a criança perdida, lembrar que estou mais vivo e seguir sem pressa. Quero me deliciar com o algodão doce e colorido, girar no carrosel da vida sentindo o vento leve que lambe o meu rosto sem avisar, assanha meu cabelo e me paralisa para contemplar a pipa que corre no céu azul de primavera.
Menino, menino, anda cá, vamos correr sem parar? Olha aquela andorinha, ela vem na nossa direção, sem fazer curvas, ela vai pausar na sua, na minha, na nossa mão!
O meu adulto clama por tantas respostas. É verdade, a criança também, com a nobre diferença que a ansiedade infantil, quase pueril, tem pressa porque quer ir brincar lá fora e os adultos têm pressa porque sabem que o tempo traga as possibilidades da plenitude do fazer, do arriscar-se, do não ocultar-se.
Criança dá a cara á tapa, não tem medo e nem vergonha da resposta. Não precisa ser quem não é – existir é uma festa no seu mundo de fantasias, aquele que a mente – limpa, quase que como uma folha de papel em branco, vai pintando, a cada dia, de todas as cores que se vê ao longe no arco-irís que risca o céu de abril.
É, ser adulto dá uma canseira danada, e como diria Guimarães Rosa, “nonada”, vamos simplificar a ciranda da vida e entrar na ciranda do riso, de tudo aquilo que o dinheiro não pode comprar, vamos nos embalar numa alvorada de emoções, sentir as coisas simples da vida, correr para tomar aquele sorvete no fim de tarde sem qualquer culpa, rir de nós mesmos, rir das “loucuras” do mundo, das nossas próprias, descobrir que tem tantas coisas que nem precisamos, mas lotamos os armários, ocupando todos os espaços com a inequivoca sensação de que precisamos permanecer na moda.
Vamos ser livres, soltos como as crianças, porque a inocência de outrora permanece em nós, ainda que escondida, ainda que pareça perdida.
Dá uma olhada para os lados, para baixo, para cima e encontra a tua criança. Ela não se perdeu, ela apenas anda meio que de férias, meio que distraída, esperando ser convocada de novo para, apenas com um empurrãozinho teu, voltar a funcionar – vamos, anda lá! E quem sabe nesse frenesi possa ir assistir “Tá Chovendo Hamburger”, uma oportunidade para convocar a sua criança para entrar em festa, leve como uma pena que gira pelo ar, descomprometida, sem esperar qualquer resposta.
A INQUIETUDE DA ALMA
Agosto 19, 2009
Ilusões, terras frias, momentos distantes,
A alma vaga pelo querer e o talvez
Enquanto isso o mundo gira como criança em dia de festa
e vamos perdendo a inocência.
Particularidades do ser, envoltos estamos todos,
na busca por respostas – qual a razão dessa existência?
Essa, que nos faz perder tantas vezes, que nos tira do prumo.
Divagando em pensamentos, em busca de um rumo.
A alma é quase fria, vai-se perdendo a poesia
O tom é de passagem, o toque é sutil, tão breve
A mente a dar voltas procurando a sua razão
Mas para que saber se nos perdemos na própria ilusão?
Estabelecemos um contato entre o que sentimos e o que é certo
E o coração não cala na sua linguagem crua, alma nua
Queria poder dizer que não sou tua
Mas o sentimento tem voz própria, e tanto e quanto, ele tem razão.
A inquietude persiste, não cala, ela sempre fala,
Quando o tempo é o presente, ainda que não seja suficiente para
serenar, envolvo-me em sim e em talvez, perdendo-me na mesma
pequenez quando a alma me diz que é preciso calar…
Um dia chego lá, um dia encontro o rumo e tomo o prumo
Esse dia é perto porque encontro a coragem
E ainda que as vistas ao prazer atrase a caminhada
Não importa – certa é a chegada!
Taxicidade no Jornal Letras do Brasil
Julho 28, 2009
Neste mês de Julho, a edição n.º 34 do jornal Letras do Brasil inclui uma entrevista à Andréa Menezes sobre o nosso caro “Taxicidade”.
Leia o jornal e a entrevista aqui.
A ALMA IMORAL
Junho 29, 2009

Um monólogo teatral em cartaz há quase três anos; em São Paulo no teatro Eva Herz, na Livraria Cultura, dirigido por Amir Haddad, vista por mais de 75.000 pessoas, cuja a atriz e dramaturga Clarice Niskier foi vencedora do prêmio Shell e apresenta ao público o seu olhar diante da obra do rabino Nilton Bonder – “A Alma Imoral”.
Os questionamentos e impressões da atriz ao ler o livro, logo nos primeiros minutos de peça, são expostos no palco numa espécie de conversa introdutória com o seu público, e como ela mesma diz, o texto pode ser visto como a leitura dos ensinamentos cabalísticos de uma “judia budista” do século XXI, que na maior parte do tempo permanece no palco nua, despida, mas não damos por isso, pois, literalmente, a nudez aparece no corpo como expressão da alma, numa interpretação, digamos, acima de tudo simples, dentro de toda complexidade que o tema pontua.
Contrariando um amigo intelectual, que chegou a me dizer que não passava de um tema de auto-ajuda – e nada contra temas de auto-ajuda, deixo por aqui o meu registro do quanto a ALMA IMORAL foi muito além da auto-ajuda e movimentou algo em mim, tanto e tanto que indico para todos – vejam a Alma Imoral!!!
Por certo o tema não é algo tão novo, mas vale um olhar mais curioso para ela, uma oportunidade de olharmos mais para dentro de nós mesmos (algo que vai se tornando cada vez mais raro nos dias turbulentos do nosso cotidiano) trazendo a tona um olhar mais compassivo para com a vida e como a vivemos, questionando-a, e entre os designios do corpo e os da alma – qual dos dois nos cabe escolher?
O roteiro é baseado em conceitos bíblicos e filosóficos, instigante em diversos conceitos como “tradição” e “traição”, que segundo encontramos expresso na obra, “são duas palavras de escrita e fonética tão semelhantes em nossa língua quanto o são interligadas em seu significado mais profundo”. Nem sempre o certo é exatamente o certo e o errado é exatamente o errado, o certo pode ser o errado e o errado pode ser o certo – o elo de ligação estará na forma e necessidade do seu sujeito, do quanto persegue, seja em seu corpo ou em sua alma, ou em ambos, e, muitas vezes, não carecemos fazer uma opção.
A finitude da vida é o questionamento que aparece e desaparece a todo momento do seu contexto, é um modo que nos faz refletir, conflituar, indagar : o quanto fariamos ou não se essa finitude não nos fosse perene?
A filosofia segue os seus meadros, o homem em pleno questionamento, sempre em busca de respostas, talvez as questões sejam bem mais simples do pareçam ser, talvez essas respostas estejam unicamente no clamor de uma vida de alma, a que nos diz o que é bom e que vai além da moral ditada pelo corpo. A uninamidade como a “acomodação da verdade absoluta”, os dogmas, as convenções, opinião pública, moralidade e tradições, aspectos que em muitos momentos podem querer representar uma “unanimidade” que nos “desqualifica como determinadores do que é justo, saudável ou construtivo“.
Na necessidade de mortais que somos, seguimos os caminhos traçados pelo que deve ser moral, pelo que esperam da nossa moralidade, sem muito questionar o que a alma espera de nós; em meio a tudo isso esbarramos na ética, conceito vasto e profundo, mas que deveria ser o único a oferecer os paramêtros, no mais, o que não estiver dentro disso é ditado pelo bom da alma, pelo que ela clama e que muitas vezes deixamos , mediocremente, escondido em prol sabe-se lá do que e de quem, mas seguimos nos sentindo justos, enquadrados com o que a sociedade espera de nós e, talvez, bem distante do que nós esperamos de nós mesmos.
Parábolas são contadas ao longo da peça e questionadas ao público, questionamentos com e sem respostas. O paraíso de Adão e Eva e o encontro com a serpente é posto ao olhar de todos, expondo o pecado original como um pecado da alma e não do corpo, assim como o Tratado de Sanhedrin, que trata de casos de julgamento de penas capitais, o sentido de tal lei. A posição do traidor e do traído. Quais os reflexos de tudo isso na alma que clama por respostas?
Não digo mais, apenas que vale a pena assistir a Alma Imoral, prestar a sua alma a homenagem de estar, ao menos pelo tempo em que a peça é encenada, com a alma em suspenso, olhando um pouco mais de perto para o ser moral, dentro de toda a “imoralidade” e clamores da alma – vejam!
Se posso escolher aqui uma parte da obra que pode falar diante da curiosidade que pretendi plantar em vós, deixo-vos essa:
“Entre uma moral e outra o ser humano volta a se despir e, desperto, se recorda da sua alma. A esse despertar se referia o maguid de Mezeridz: um cavalo que se sabe cavalo não o é. Este é o árduo trabalho do ser humano:aprender que não é um cavalo”
P.s.: Aline, deixo aqui para você a minha observação do quanto foi importante as nossas trocas e leituras filosóficas, sobretudo pós peça – valeu por esse momento especial de encontro em pensamentos e sensações!
Licença para comentar o filme “BUDAPESTE”
Maio 27, 2009

O LIVRO
Falar sobre o filme Budapeste - roteiro foi idealizado por Rita Buzzar e, por via de consequência, falar de um livro do Chico Buarque, adaptado ao cinema e cuja estréia ocorreu no Brasil no último dia 22, trazendo para as telas o longa luso-húngaro-brasileiro, dirigido por Walter Carvalho, consagrado fotógrafo brasileiro, que assina o seu primeiro trabalho sozinho, talvez seja uma grande ousadia minha, mas tomarei essa liberdade porque, tratando-se de algo que clama por Chico Buarque, também clama por minha atenção, aquela de leitora assídua e expectadora fervorosa da sua poesia e existência.
Essa é a minha visão apaixonada por um poeta que no meu entender não precisa pedir “licença” aos críticos para escrever, pois, ainda que como escritor, a meu ver, ele seja fragmentado - não produza obras com tamanha fluência poética como as letras das suas músicas - ele já conquistou no mundo o lugar de um imortal, daquele homem único por natureza, cuja a obra vive no hoje e sempre viverá no amanhã porque, simplesmente, tem vida própria, retrata o sentimento do homem: a vida, a prosa, o verso - tudo de uma maneira tal que não é necessário ser um intelectual e/ou poeta para compreendê-la, sentir já é o suficiente, e para mim é mais do que entendê-la - sentimos Chico Buarque!
Com essa minha declaração de amor por sua obra, creio que posso adentrar, de início, não no filme propriamente dito, que para mim não brilhou nas telas apesar de/e sendo fruto de Chico Buarque, mas no livro..É sabido, penso eu, que não é nada fácil narrar como escritor quando se é poeta, pois perde-se muito da narrativa pela visão poética e adentra-se num mundo da imaginação que, possivelmente, o público não consegue captar.Talvez o o “pecado” do escritor, no exato momento da ficção, seja trazer à tona o poeta sem descortinar na narrativa a mensagem que deveria chegar ao leitor. Assim, sinto que o Chico escritor não comunica como comunica a sua poesia musical. E o que seria para mim o ato de comunicar? - trazer à tona emoção, a inventividade, que não necessariamente carece ser poética, mas precisamente, clama por ser compreensível - a narração fluente. Os livros do Chico não me comunicam!Para mim foi assim com o Estorvo (1991) e Benjamim (1995), e agora, confirmo, sobretudo depois de ver o filme adpatado ao cinema - Budapeste. Nem um bom livro e nem como um bom filme! Essa é a minha opinião, respeitando a todos aqueles que encontrem no grande poeta também um grande escritor, e que eu, confesso, até os invejo por isso, pois do jeito que admiro o Chico, também gostaria de encontrar acolhida nos seus livros. O FILME
Agora, para quem pretende saber um pouco do que há no longa, posso contar que é uma estória que se passa no Rio de Janeiro e em Budapeste, e, usando as declarações do próprio diretor, que foram apenas a respeito da equipe, mas que estendo-as ao próprio filme - “uma verdadeira Torre de Babel". "Torre" ainda mais curiosa quando no emaranhado da sua narrativa, deparamo-nos com uma breve apariação do Chico em cena apenas no final do filme, a falar umas 20 palavras em húngaro, o que não foge da metade do longa - que é falada nesta mesma língua e que, segundo um ditado - é a única língua que até o diabo respeita.
A idéia central do filme, em torno do seu protagonista principal, vivido no filme pelo ator Leonardo Medeiros - é a vida do “gost-writer”, ou seja, um especialista em escrever livros para terceiros; aquele que vive entre duas cidades, duas mulheres e múltiplos conflitos internos – viver a sombra, como autor anônimo ou revelar-se para o mundo como o autor principal que assume as suas obras como tal? Mas toda a sua “complicação pessoal” vai muito além de tudo isso, o conflito é interno, é moral, é unipessoal.Boa parte da história é falada em húngaro e, por curiosidade, em uma das entrevistas do ator (que faz o papel do José Costa) quando indagado de como fez para dominar a língua, disse de modo sincero: "eu não dominei". "Com duas semanas de aula, vi que seria impossível aprender. O jeito foi mergulhar nas falas do meu personagem".Bem, podemos dizer que, no mínimo, foi uma direção de bravura - gravar entre o Rio e Budapeste, diante de uma língua jamais dominada e uma equipe tão eclética, que buscava a própria arte de comunicar para fazer chegar as telas algo comunicável – não foi tarefa fácil!E contando uma curiosidae, uma das cenas que levou um ponto alto das filmagens, e, sobretudo da emoção do Chico, que encantou-se com o que viu (segundo fala do autor em entrevistas), é a cena da gigantesca estátua do Lenin - pai da Revolução Russa, desmontada, descendo o Danúbio em cima de um barco ( que levou um dia inteiro a ser filmada) e mais, custou a pequena fábula de 26 mil euros. A sensação que a cena nos deixa, ao menos que senti, foi de uma cidade “libertada” do regime comunista, do Lenin gigantesco, atravessando o Danúbio, como em marcha do passado que bateu em retirada para deixar passar o presente.Para concluir, penso que talvez o que viveu Chico na sua imaginação para criar a “Budapeste” que vemos no filme, seja algo que a nossa percepção, de meros espectadores, não consiga alcançar, mas posso dizer, sem sombra de dúvida, que a curiosidade de muitos ele continuará a atrair porque o seu nome - Chico Buarque de Holanda, é um daqueles raros, que apenas por existir e presentear ao mundo a sua arte, não necessita de muito mais para seguir sendo, pois ele, de fato - já é!Ainda que não produza mais a sua música, que resolva emaranhar-se no caminho obscuro do mundo dos livros, jamais deixará de ser, pois o seu legado é o retrato€ da existência de um homem único, e assim, pelo sim e pelo não - vi Budapeste, em referência ao poeta, sem pensar no que lá encontraria do escritor e recomendo a todos o mesmo.Caso vejam o filme, sugiro que assistam com generosidade, sem guardar maiores expectativas, com a mesma generosidade que me peguei praticando quando me pus a “criticar” por aqui e por aí o Budapeste.De melhor, fiquemos com a cidade que é tão linda e nem parece que foi destruída sucessivas vezes durante sua história e reconstruída na Idade Média com o nome de Peste, que em eslavo significa “ruína” e que com o tempo, em virtude de uma outra cidade que surgiu ao redor do castelo e que foi chamada de Buda, ou “forte”, na língua eslava, as duas cidades se uniram e formaram - Budapeste.
Eis o que tenho de melhor a lhes contar sobre o livro: aguçou a minha curiosidade sobre a cidade e sobre a razão de ser desse nome tão sonoro: BUDAPESTE!
Estrangeiros sem sair de casa…
Maio 20, 2009

Essa semana começo aqui lembrando de um assunto que sempre trocávamos, eu e uma querida amiga – Angela (daquelas que para ser irmã restam apenas ausentes os laços de sangue) e fazia parte das nossas conversas, digamos, “filosóficas”, naquela atmosfera tal do ser e do existir, que levavamos a cabo através da necessidade de compreensão, ao menos para nós – uma reflexão que versava sobre qual o nosso lugar nesse largo mundo.
Falávamos, claro, sem desejar que isso fosse a nossa realidade, numa ironia que, em verdade, buscava compreensão – do nosso desejo de ser uma “igual”, sair da rota da sensação “estrangeira”. Calma, eu explico melhor!
Sabe quando você não se enquadra em nenhum daqueles estereótipos da sua cidade, do seu país, talvez até mais, daquela maioria que habita o planeta chamado Terra? – Será que já deu para entender até aqui? Pois é! Ainda peço calma, pois também não somos alienígenas tipo saídas do filme “The War of the Worlds”, não descemos de nenhum disco voador para atuar como humanas aqui na terra. Ainda não!
A questão era falar como nos sentiamos a fim de, ao menos nos percebermos, como estrangeiras de uma mesma região. Sentir que não estávamos sozinhas, afinal de contas, não é de hoje que já sabemos que todo ser humano necessita “pertencer”, e assim, trocando as nossas inebriantes confissões, nos sentiamos pertencentes a um mesmo mundo e nos riamos com isso.
Queríamos, quer dizer, aliás, no fundo não queriamos, mas pensávamos – como seria mais fácil viver enquadrada num mesmo “padrão da igualdade”, queriamos gostar das mesmas músicas da maioria, dos mesmos lugares da maioria, gastar o nosso “rico dinheirinho” como a maioria, dando o céu para ir a um show daquelas festas “casadinhas” da moda, me desculpem os que gostam, mas poderia ser algo como Ivete Sangalo e Jamil. Dar o reino por uma daquelas bandinhas da moda, flutuando num prazer quase delirante por frequentar o “ barzinho da moda” e lá exibir os nossos corpinhos sarados, claro, sendo sempre da moda. Queríamos falar “ninguém merece” na língua da moda, com as expressões que me fogem agora!
Será que assim já começa a fazer sentido aonde queríamos chegar?
Não, não é nada fácil não pertencer, não entregar o reino por uma festinha da moda, não vibrar pela maioria das coisas que a maioria da pessoas ao seu redor estão vibrando, não é fácil não falar a mesma língua, não é fácil não desejar as mesmas coisas, não ir aos mesmos lugares, não participar das mesmas programações e não saber cantar a música da moda.
Quem disse que é fácil ser estrangeiro?
Calma, também não disse que somos melhores ou piores por isso, apenas quero dizer que aquela reflexão faz parte de um passado, que, permanece no nosso presente, porque não ser uma “IGUAL” é fazer parte de um mundo quase altista, em que poucos falam a sua língua, que poucos te entendem ou deixam espaço para que você, simplesmente – também seja!
Porque em meio a essa sensação, somos vistos, as vezes pelos nossos próprios amigos – os que são da moda (claro que também tenho um amigo ou amiga da moda), como estranhos, como seres que estão concorrendo ao cargo de superior, quando na verdade, indago-me: é perciso haver alguém em condição superior?
Em verdade, o ser estrangeiro não busca nada disso, ao menos na compreensão que fazíamos, talvez tenha apenas a consciência solitária de que não deseja as mesmas coisas e que tem anseios outros pela vida, e que, simplesmente, são diferentes, e na maioria das vezes, para muitos – fora da moda!
A questão posta não é quem tá certo ou errado, mas o divisor de águas que tudo isso gera dentro de uma coletividade – como conviver com as diferenças sem sentir-se “ESTRANGEIRO” e sem ser taxado como tal?
Não falo a sua língua, não faço parte do sua tribo, não gosto do que a maioria gosta, não leio as revistas que a maioria gasta o tempo passando as sua páginas - trocamos Caras por Caros Amigos. Lemos do Eça de Queiroz ao Onfray, e daí? Um imenso abismo nessas diferenças?
Não vibro com a música da moda, não quero ser igual aquela moça da passarela, com as mesmas roupas e o mesmo brilho que ela, não assisto Faustão aos domingos e nem sei o que acontece e nem conheço os participantes do Big Brother, e quando encontrar essa maioria – será que eu vou ter assunto pra conversar?
Quero ser estrangeira sem parecer enfadonha, quero ser estrangeira sem ter que ser vista como superior ou alenígena, quero viver o meu mundo desigual, mas para tudo isso não quero divisores de águas, não pretendo pôr o outro à margem, porque com um “igual”, na sua condição de ser humano, e como tal – único, talvez também tenha o que trocar com ele, e como farei se ele também me põe distante do seu mundo?
A questão parece simples – mas não é! A filosofia continuará a circular nos seus inúmeros “por quês”, continuarei dando voltas pelo buraco profundo de Perséfone nos seus seis meses que contempla a vida no modo obscuro embaixo da terra.
Em verdade, esse assunto me veio, a propósito, depois da lembrança de um encontro que tive com a minha amiga Angela, e veio para fomentar com vocês um debate, para trazer de volta essa nossa questão do passado, para talvez fazer com que você sinta que também pertence a um espaço, que pode ser ou não um estrangeiro, mas que de um ciclo ou outro, pode-se trocar, acima de tudo – idéias!
Seja no seu mundo ou no meu, continuaremos seguindo em busca de respostas, e se não for assim não tem muita graça, pois dizem que Deus gastou os 07 dias dele para fazer o mundo, e porque nós não podemos usar mais que sete vidas para descobrir as nossas estranhezas dentro desse mundo?
Vamos todos (sejam os estrangeiros, sejam os iguais) marcar uma festinha que entre na moda? rssssss
Dedico esse texto com um abraço forte aos meus amigos, aqueles que são “estrangeiros” e aqueles que são “iguais” – e viva as diferenças porque elas estão cada vez mais na moda!
POESIA “Quase Perfeito”
Maio 11, 2009

O amor quase perfeito bateu-lhe a porta
O homem quase pronto não permitiu a sua entrada
Esse homem cultiva a solidão
Penetra na sombra da sua razão pela estrada do seu quase querer
O amor quase perfeito busca sua compreensão
Quase aceita, quase compreende, quase sempre
No seu mundo sem ar, de quase em sempre – escapa
Quase tudo, quase nada, quase é madrugada
O amor quase perfeito debruçou-se sobre o seu olhar
A visão quase era turva, mas se via o mar…
Por sobre os seus olhos quase a névoa brusca da arrebentação
Quase tempestade, quase destempero, quase solidão
O amor quase perfeito não sabe como prosseguir
Ele quer seguir, mas não no quase, na plenitude
Mas o homem, quase perfeito, não se deixa possuir
Tem a sua razão, a sua quase companheira
O amor quase perfeito partiu sem dizer adeus
Mas foi só quase, pois olhou para ele, fez um sinal
Na quase fresta do seu olhar fez eco
E quase em silêncio saiu pela porta que estava aberta
O amor quase perfeito deixou uma carta
O homem sorriu e, em silêncio, quase a abriu
No quase e sempre lhe faltou coragem – amassou-a
Foi melhor assim – QUASE nunca saber se perfeito haveria de ser.
O amor prosseguiu e foi QUASE PERFEITO!
A consciência do tempo
Maio 4, 2009
A própria Filosofia, vista como algo que tem como ponto de partida a vida, tal e qual ela é sentida e interpretada por cada um nós, nos últimos dias me remeteu a “impermanência” do nosso tempo, aquele que nos chega de modo ciclíco, sazional, apresentando-nos a vida de muitas e muitas maneiras…
Ao relacionar o tempo com a filosofia, recordei-me de Kant, filosófo que explicava que o espaço e o tempo pertenciam à condição humana sendo propriedades da consciência, e não atributos do mundo físico. Será mesmo assim? Será que fomos nós, simples mortais, que o criamos como modo de seguirmos uma rotação da vida? Platão a falar sobre o tempo, ainda a.C, nos disse que: “O tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel”. Já os físicos insistem em afirmar que o tempo não flui; ele simplesmente é. Shakespeare referiu-se ao tempo como “a ciranda do tempo”. E como esquecer de Santo Agostinho e a sua reflexão auto-biográfica sobre o tempo, expressa no Livro XI da obra “Confissões“ (recomendo a leitura) , lá os questionamentos dele, tão atuais quanto se hoje estivesse vivo, nos conduz a ver que o tempo nos escapa, que não podemos apreendê-lo, não há como medi-lo e nem mesmo como decifra-lo.
Nessa ciranda, apesar do tempo ser algo tão comum a nossa experiência de mundo físico, como pode ser ele algo tão difícil de definir?
Esses dias, em menos de 24 horas, vivenciei essa consciência do tempo, o tempo de chegar em uma cidade, realizar o trabalho que lá tinha por fazer, partir e chegar em outra cidade e, simplesmente, vivê-la na sua mobilidade. Isso trouxe-me a reflexão desse tal TEMPO – grande enigma da vida, horas é o nosso melhor amigo e horas é o nosso pior inimigo.
Quando estou em aeroportos não raro me vem essa reflexão, pois em um dado momento, quando seguimos como viajantes, a percorrer algumas cidades, por vezes chegando a cruzar outros continentes, perdemos um pouco a identidade desse tempo e de quem somos frente a ele, a noção flutua no senso de espaço e sentido, e flutuantes somos todos nós, ali, por entre as nuvens que vemos do avião.
Pensei sobre os ponteiros de um relógio que se segue a cada fração de segundo, levando consigo o nosso estado de ser, levando consigo cenas e situações que nos diz que nada poderá ser igual ao que vivemos minutos atrás, mesmo que venhamos a resconstituir a cena com o máximo de fildelidade ao quanto vivido no tempo anterior, nada poderá ser igual, simplesmente porque jamais estaremos iguais, nos também mudamos de muitas maneiras nesse TEMPO.
O nosso estado de ser, as nossas sensaçõesn- elas mudam de modo sublime, tão sublime quanto a vida, quanto toda a sua essência, que não raramente clamamos por respostas.
Mudamos em nossos estados de alegria e de tristeza, de buscas, de anseios, elegemos algo e depois, a seguir, já deixamos de o eleger, e tudo isso é belo, tão belo como saber que daqui a poucas horas, depois que tenha escrito aqui para vocês e que vocês me tenham lido, tantas e tantas outras coisas poderão acontecer a ponto de nem mesmo lembrarmos como estavámos nos tais minutos atrás desse tempo da leitura.
Já pensaram nisso? Pensaram como a impermanência da vida é algo belo e muitas vezes difícil de aceitarmos? Pensando sobre isso, para completar os cenários que vivenciei na minha imaginação de viagem através do tempo, uma música me chegou aos ouvidos – “The Scientist”, veio naquele instante em que refletia, através de um voz que gosto muito que é dos Coldply e nela um intrigante clamor: “Let´s go Back to the Start” e daí pensei – como seria voltar no tempo, como voltar ao início de algo? E na mesma música, mais a diante, há uma afirmação – “Nobody said it was easy”, não, não é mesmo fácil! O clipe dessa música é finalizado com um carro em marcha ré, o carro se desloca para o tempo passado como se fosse possível retornar a ele sob o ângulo em câmara lenta.
Como seria manusear o tempo, assim como fazemos quando acertamos um relógio? E vejam que mesmo nesse ato simples de acertar o nosso relógio, não podemos, simplesmente, registrar nele o nosso tempo, aquele que queremos – o que apenas podemos fazer é apontar o tempo cronológico da vida, aquele que nos faz mais velhos a cada aniversário.
Em meio a todas essas reflexões recordei-me da complexa e linda letra do Cateano Veloso – “Oração ao tempo”, a música é uma bela referência ao “Deus Kronos”, e para aqueles que não lembram, deixo aqui uma das minhas estrofes preferidas que diz:
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
O que seremos no amanhã desse tempo que já não terá sido? Realizaremos o “milagre” de segurar o tempo ou o tempo já nos terá tragado no que haveria de ter sido?
As reflexões do tempo, essas eu sei que sempre retornarão a memória do meu tempo, vez por outra me virá a chance de pensar melhor sobre ele, nem que seja apenas quando me perceba sentada no saguão de um aeroporto a espera de mais um vôo, na iminência de dentro de algumas horas me ver em outra cidade e perceber que o tempo passou tão rápido que não pude segurá-lo, mas na memória do tempo eu tudo terei sido e feito.
Finalizo então com a fala de Albert Einstein quando escreveu para um amigo e veio a expressar essa questão dizendo: “O passado, o presente e o futuro são apenas ilusões, ainda que tenazes”.
Agora, façamos o melhor do nosso tempo, pois ele não retorna as nossas mãos e não podemos segurá-lo, e nem guarda-lo numa caixinha, como possivelmente gostaríamos, assim como podemos, fisicamente, segurar os ponteiros de um relógio, então, para ele, nos cabe uma vida bem vivida, com o desejo e o comprometimento de sermos felizes; o fluxo pulsante realizará o melhor desse tempo, as vezes atentos a cada momento e as vezes relaxados, apenas sentindo-o passar e sabendo que, sem dúvida, ele nos trará e nos levará muito, mas, sobretudo, nos resta sempre a possibilidade de ser, ainda que não naquele tempo que gostaríamos que tenha sido…
Uma pausa para celebrar o Capão
Março 5, 2009

Faz algum tempo que algo em mim clamava por conhecer uma vilazinha situada num vale, precisamente no coração do parque nacional da Chapada Diamantina, na Bahia, a 445 Km da capital, cercada de montanhas, que tem um poder, diria que mágico diante das pessoas, um lugarzinho como uma espécie de portal e que abriga comunidades alternativas de ideologia natural para se viver, um pouco do que retrata essa linda foto, e que talvez Cazuza, se lá estivesse, sem dúvida, abrigaria a sua ideologia, aquela da aclamada poesia em forma de canção “ideologia, eu quero uma pra viver”, mas o meu momento de Capão, durante anos e anos, não aconteceu… enquanto isso eu vivia em outros vales e tempos, talvez sem saber, fosse a minha preparação para, no momento certo, lá chegar - o momento chegou!
Foi então nesse feriado de Carnaval que ele me aconteceu – bateu-me a porta – o Capão, uma resposta que veio assim, meio que sem esperar e que me fez sentir algo como «é isso, é esse o lugar para respirar e sentir o agora»
Penso que os lugares, assim como os acontecimentos em nossas vidas, eles só nos surgem no momento do tempo, aquele instante que nos chega como o ”ideal”, que muito certamente – acredito, não é escolhido nem por mim e nem por ti, mas por um relógio da vida que anda no seu compasso, num ritmo certo e que nos aponta a hora da chegada.
Aqui escrevendo, fico a imaginar que cada um que já esteve nesse lugar mágico, cada qual com a sua pequena singularidade, quem sabe lembrará ou saberá dizer, talvez com um breve riso no rosto, o que foi vivenciar a energia dessa fonte, pois esse é um daqueles poucos lugares de encontro em nós, aquele em que jamais esquecemos, porque lá a natureza fala conosco, ela fala porque lá descobrimos que pertencemos ao todo o qual ela faz parte – não pense que é loucura, acontece mesmo!
Assim, falar aqui desse meu momento mágico de estada no Capão, que poderá identificar algo em ti ou em qualquer outra pessoa, ou quem sabe não, é para mim apenas uma forma de celebrar o “pequeno-grande” lugar, que não é nem meu, nem seu e nem de ninguém, mas do universo, que nos presenteia com fontes assim, catalizadoras de bons fluídos, que emana vida e irradia luz para cada ser que com ele se conecta.
Posso declarar que diante desse encontro muito pessoal, as vezes acontece, como senti em algumas pessoas, advir uma pergunta, porque o mental vem dar o seu alerta, tornando-se improvável passar incólume a esse lugar sem pensar no que lá nos tornamos – capônicos?
Muitos que retornam desse lugar sagrado, que chegam da sua “vivência” pessoal e das sensações que lá passam, seja pelo simples caminhar por uma trilha, a experiência de um trabalho terapêutico, um banho de cachoeira ou o ficar quieto, talvez chegue nessa ponto de questionamento pessoal, que, a meu ver, não tem uma única resposta – O que é ser capônico?
Nós, humanos, precisamos sempre de um enquadramento – que necessidade profundamente humana essa nossa! Mas se precisamos disso, e aqui, em alguns momentos posso me incluir, nessa humana necessidade, venho partilhar com vocês o que, a meu ver é ser capônico.
Talvez seja apenas um estágio de abertura, talvez experimentar dentro de si algo que até então estivesse adormecido, mas calma, não é nada apoteótico, até porque, se isso não te acontecer não me culpe, eu não disse que teria uma outra conotação que não, simplesmente, a descoberta que ser capônico é = ESTAR CONSIGO!
O ser capônico percorre as batidas de um coração, percorre o silenciar, o calar, o sorrir com leveza, o despredimento sem abnegação, a despedida de julgamentos, pois o lugar te toma e te chega assim, em forma de uma energia que não há como relatar com precisão o que é – sente-se!
Por fim vivi o Capão e se for necessário, para partilhar das histórias com aqueles que lá foram e ainda pretendem muitas vezes lá ir, posso dizer que me sinto capônica, que muitas vezes terei de retornar, pois esse lugar pode nos acompanhar pela vida afora, e um dia, quando eu não estiver mais aqui, ainda assim, recordarei com um riso no rosto – com um ar de brisa leve, que na Bahia, não tão distante do mundo dito civilizado, há um lugar de contemplação, de leveza, de paz, de encontrar amigos afins; há um lugar para caminhar sem pressa, para amar, com pausas para respirar, de espaços encantados de acolhimento – Lothlorien, com algo a integrar em nós, com o silêncio a falar por nós, que permanece vivo a espera do nosso retorno, que podemos ir sem necessidade de bater a porta, por uma única razão – a porta no Capão permanece sempre aberta, basta querer entrar!
Obrigado pelo acolhimento queridos capônicos! Obrigado ao Lothlorien pela modo dedicado e feliz como recebem! A minha criança segue em festa e agradece essa descoberta.
Agora, peço que olhem para essa vista como uma porta de entrada, pois o vale tá aí, aberto para quem quiser nele entrar, e para os que ainda não viveram essa experiência de vida - visitem esse lugar!!

Seduza-se por Roma!
Fevereiro 17, 2009

Sabemos, e eu também sei, que toda forma de preconceito é burra, mas quem de nós vez por outra não tem alguma espécie de preconceito? Aliás, o próprio significado da palavra fala por si só, preconceito = “juízo pré-concebido”, e assim começo esse texto, não propriamente para falar de preconceito, mas de Roma, e o que Roma tem haver com isso?
O fato é que nesse começo de ano, desfrutando das minhas férias e do frio que fazia na Europa, um livro me despertou uma cidade - Roma. Esse livro esteve por meses no nº 1 lugar em vendas, apontado nas revistas pela sua vendagem em torno de 4 milhões de cópias. Daí que não gosto nada de correr para ler os livros que estão no topo das vendas, isso falando do meu pré-conceito. O que penso dos livros nos topos das vendas é que aquilo que todos andam a ler não deva ser algo tão credível assim – será? Aí residia o meu pré-conceito!
Foi assim que, vivendo o meu pré-conceito e depois pondo-o de lado, deixando-me vencer pelo tema, pela oferta do livro por uma amiga e por todas as entrevistas que li sobre a autora – Elizabeth Gilbert, me rendi a leitura de – “Comer, Rezar e Amar”. Confesso que, muito prazerosamente, a leitura finalizou o meu ano de 2008 e adentrou pela esperança de 2009 aguçando a minha curiosidade por Roma, que vai além do já conhecido através da história viva que transborda pelas ruas e do que lemos nos livros e vemos nas fotografias.
Resolvi seguir para Roma. Desde o avião algo diferente já me chamou atenção e me tomou; depois de tantos dias a escutar a “rispidez” que nos sugere o espanhol de Madrid, os ouvidos começam a agradecer a ”doçura” do idioma italiano e, naquele momento, ali sentada numa poltrona de avião, escutar, em italiano, o comissário de bordo a falar todas aquelas maçantes recomendações de segurança, foi como se uma poesia tocasse os meus sentidos, uma bella poesia vinda de uma nação inteira - que delícia o tom das palavras em italiano! E aí a sensação de que Roma estava a caminho preencheu a minha imaginação.
Em Roma encontrei o farto prazer da comida, o prazer das pessoas felizes, que me fez descobrir talvez um dos muitos sentidos que pode existir para o velho dito popular: “quem tem boca vai a Roma”.
Acho que agora fui eu a sacudir a curiosidade de vocês quando falo de ter descoberto o significado desse ditado, então passo a dizer qual a razão.
Imagine-se perdido numa rua em Roma a perguntar como faria para encontrar determinada direção, caso seja uma pessoa, como eu e a maioria das mulheres, que tem uma certa dificuldade de manuseio com os mapas – imaginou? Agora imagine que os romanos poderão ter respostas diferentes para a mesma pergunta, mas, sem dúvida, depois de variadas respostas ao exercício das suas perguntas – quem tem boca descobre Roma!
O destino desejado será alcançado, apenas não posso lhes assegurar quanto tempo depois, mas uma coisa é certa, podemos pensar em mais uma nuance ao dito popular »com boca vive-se Roma», em todos os sentidos, sobretudo porque você ainda será seduzido, com certeza, por aquela culinária deliciosa que o fará ficar com água na boca.
Para essa maravilhosa culinária, prepare-se para ser “buona forchetta” (bom de garfo), prepare-se para tropeçar nas vitrines de pizza que são vendidas ao mêtro, estas de todos os sabores que sua imaginação não consegue recomendar, nos capuccinos, nas variedades coloridas, cremosas e saborosas de vários tipos de gellatos e no aclamado menu italiano, e neste tente, ao menos tente, dar conta do antepasto, depois do 1º prato, a seguir do 2º e por fim da sobremesa, tudo sempre acompanhado de um bom vinho.
Depois de tanta comida tome folêgo para levantar da mesa, e, praticamente, rolar pelas ruas, pois a última coisa que conseguirá é caminhar por muito tempo, no máximo alguns metros entre o restaurante e o seu hotel. Por isso, recomendo: ao enfrentar esse verdadeiro “manjar dos deuses” esteja próximo da sua zona de conforto – o seu hotel!J
Em Roma a hospitalidade das pessoas é singular, de boa vontade em boa vontade, os romanos praticamente nos acompanham pelo simples prazer de dizer: o lugar que você procura é aqui! Acho que no seu livro Elizabeth Gilbert esqueceu desse informação, o que me faz dizer que Roma é, simplesmente: o encanto das pessoas, o ar simpático, sorridente e feliz dos romanos, algo que passa das pessoas idosas aos jovens ou aos não tão jovens assim, mas lá posso dizer que senti um “calor” mesmo numa fria cidade européia, um calor que emana do astral das pessoas e que me fez feliz. Roma é feliz!
Talvez lá também, dentre as excentricidades dos italianos, corra o risco, mais do que em qualquer outro lugar, de atravessar a rua e não chegar vivo do outro lado. A nítida percepção desse fato aconteceu conosco, logo na chegada, quando o taxista (por sinal, preciso dizer, esse o o único ser não simpático e meio “trapaceiro” de Roma, e aqui, quem sabe com a leitura do Taxicidade alteramo-lhes algo no humor, rs) que nos conduzia até o hotel, quase como um kamikaze, muito certo do que fazia, lançou-se na contra-mão à frente de uma tranvia em plena circulação – pensaram nisso!! Aconteceu em Roma!
Semáforo é algo raro de se ver, o que foge a toda ordem tipicamente européia e que me fez descobrir, na prática, que, sem dúvida, a palavra “atravessiamo” (no sentido de atrevessar uma rua), inclusive, a preferida de Elizabeth Gilbert, talvez seja a que primeiro tenhamos de aprender na louca aventura de nos lançarmos a atravessar uma rua, cruzamento, seja o que for – basta que seja em Roma!
Não preciso dizer que essa foi a palavra que me segiu durante toda a viagem, foi o modo que encontrei para sinalizar a minha querida amiga – Lili, uma doce companheira de viagem, que o nosso processo de maratona pelas avenidas de Roma estava apenas por começar e que precisavámos dar conta de vencer tudo aquilo, rs.
Como pode imaginar, o ato de atravessar uma rua em Roma requer coragem, quase tanta quanto a dos gladiadores que enfrentam uma arena cheia de feras – é preciso vencer o batalhão de carros e motos que surgem, desordenadamente, de todos os lados, e mais, não esqueçam de associar: um grito frenético (que vem da sua adrenalina que estará em alta) com a bella palavra – atravessiamo. Pensam que exagerei? Pois, sinto dizer-vos que NÃO, essa é a mais pura verdade, aquela que escolhi dividir com vocês depois de todas as belezas e prazeres felizes que vivi em Roma.
E mais uma coisa, a pedido da Elsa, que me fez recordar de uma parte que havia deixado de fora desse meu relato, venho aqui acrescentar algo que não poderia perdurar em silêncio. Quebro meu voto de silêncio, e conto um pouco mais… Numa Roma tão bella, fui compelida a dizer e como poderia deixar de fora - os italianos são bellos! Me parece que a beleza em Roma nasceu pelos monumentos e propagou-se até os romanos para que os nossos olhos possam agradecer aos deuses uma visita a Roma e como disse a Elsa lá: “uma pessoa não sabe para onde olhar”…rss
Agora, para que os homens não protestem por aqui e me digam que nada foi anunciado sobre as italianas, também não posso deixar de dizer – as italianas também são LINDAS!
Confesso ainda, que talvez por conta de toda essa beleza, como bem recordou-me a Elsa, a dificuldade em atravessar a rua tenha sido ainda maior, pois além da preocupação em protegermo-nos dos carros havia um cuidado em contemplar aqueles rostos romanos – lindos, charmosos, radiantes, parecidos saídos de uma longa passarela de Giorgio Armani diretamente para as ruas, cheios de beleza e estilo; confesso ainda mais, como eles são um tanto quanto “barulhentos”, foi um tanto inevitável não escutar algo como – bella ragazza! Agora sim, cumpri boa parte do meu relato sobre Roma! rs
Para finalizar, preciso dizer que Roma reavivou em mim o sentimento de que o mundo comporta mais do que podemos imaginar, que somos fruto de todas essas culturas, senão parte de cada uma delas, independente das nossas origens, pois percebemos que essa multiplicadade de hábitos, de gestos, de modos de vida, em algum momento, de alguma forma, tocará a nós, “conversará” com algo em nós que julguemos perdido – um diálogo muito prazeroso, que pode nos renovar as forças, que nos mantém vivos e que permite que nos encontremos em muitos lugares para perdermos-nos mais uma vez e deixarmo-nos seduzir de novo – se um dia for possível, deixe-se seduzir pelo encanto de Roma!
E como diriam os bellos italianos, se assim o fizer, utilize daquele tempo que só um turista pode ter, e permita-se em Roma o “Bel far niente” – a beleza de não fazer nada! Essa parte eu bem desfrutei deitada num pequeno espaço que me foi conferido por uma fresta de sol, esculpida ao chão da praça da Basílica de São Pedro. Bem aí , deitada, pude observar todas aquelas pessoas a cruzar aquele pedação de chão, vindas de todos os cantos do mundo para contemplar montes de história, que por alguns instantes foram só minhas, de modo único, capaturada pelos meus olhos num pleno momento em que eu não fazia nada – apenas contemplação!
p.s.: sinto não ter uma foto que retrate a arena “gladiadora” do trânsito, mas se isso fosse possível a minha companheira de viagem não estaria viva para registrar o momento, portanto, deixo aqui um dos raros momentos de calmaria nas ruas de Roma, rss

